Berço vil

Mas agora

O eco é aqui dentro e a dor aflora

Desabrocha no meu peito morto

No desespero dessa alma rota

De dentro do puído casulo eu berro 

Tom sôfrego e quem se desmancha sem fulgor sou eu

Morrendo de dentro do azul que não me veste

Adormecido num fundo podre onde a esperança não alcança

Mas sou um velho desamado morrendo sem alma

Sou um corpo roto despejado nessa terra sem deus

Sou um descaso aos bons votos

Mas eu amaria àquela bela moça

Eu permitiria que esses latejos de dor pungente me invadissem. Mas ela não me olhou. Eu sou um velho sujo rindo do desespero dos felizes e tolos que caminham nas ruas sujas. Mas aquela moça tinha vida nos olhos. E eu poderia olhá-los por uma eternidade. Sou esse bloco neutro e inerte aos sentimentos humanos. Porque todos buscam o amor, buscam em dezenas de corpos, de olhos, de almas e camas. Todos os dias milhares de pessoas com brilho nos olhos saem às ruas, buscando essa porra de amor. Todos os dias alguém cumpre seu dever escroto de ser humano de viver, saindo às ruas, comendo comidas que não gosta, sorrindo em consentimentos falsos. Todos os dias centenas de pessoas querem alguém que apenas lhe sorria com os olhos, e que esse seja o mais verdadeiro amor. Mas hoje eu só me sento em bares e bebo. Bebo enquanto ouço histórias de amores falidos. Porra, amores fodidos! Porque eu quis aquela menina. Eu abri os botões de minha calça uma dezena de vezes, em camas e motéis diferentes buscando àquela moça. Eu me deitei em inúmeras camas, mas o corpo não era o dela, o gosto não era o dela. Mas o que me importava foder? Eram seus olhos. Eu queria a essência que não encontrava mais em olhar algum. Eu tirei minha blusa aos pés da cama de moças boas, moças novas, moças loiras, negras, moças com perfume de flores, com raiva do mundo, que bebiam, moças que viajam, que fodiam, que queriam amor, que me odiavam, moças que me namoravam, moças. Mas nunca eram seus olhos. Sou um velho falido. Espiritualmente falido. Minha alma berra em decadência crônica. Mas eu juro que busquei com quem abrir minha alma. Eu tirei minha blusa aos pés da cama de homens. Homens altos, magros, homens fortes, que me amavam, homens artistas, homens perdidos, homens achados, homens. Mas nenhum me acalantou. Hoje eu vago por aí. Nas ruas que tropeçam em caminhos de esperança. Vejo a ilusão e o desejo desses pobres seres humanos em encontrar àquele. E me perguntam quem sou eu – sou como todos vocês: um corpo. Um corpo que vaga sem esperança, sou a porra de uma alma morta. Uma massa almática em decomposição. Porque, veja bem, sórdido que sou, basta-me dizer que não se pode conhecer alguém com a essência sublime nos olhos, de modo que se possa dividir a nudez de corpo e de alma.

 

Uma pétala caída e uma roseira sem perfume

Eu não faço ideia de quantas horas seu relógio é capaz de marcar. Eu não faço ideia de tanta coisa que me rodeia. Escuta… só me escuta e tenta entender. Eu me perdi um centena de vezes. De mim, de nós. De tudo que um dia me achou, me valeu. Eu, enfim, entendi que não sei, não posso, ser por dois. Por nós! Eu sou tão egoísta na minha existência, e no meu ato de ser, que preciso ser sozinha. Ser inteira minha. Tão somente eu.

Deixa eu dizer o quanto precisei que ficasse. Pois parece que a necessidade de um outro alguém que me complete é tão estridente, tão berrante, que aceito ir me perdendo, me ausentando, me calando em mim mesma. Assumindo, aos poucos, essa personalidade de quem não sou.

Olha, a dificuldade que eu tenho em me permitir ser, e ser o que sou, é uma intrínseca construção dessa minha essência falida, neurótica e morta. Por uma teia de negações, de pessoas que me fizeram crer que o mundo não é isso que, tolamente, creio existir. Mas como posso ser louca, se vivo em mim que, desde sempre, me tive como normal. Presa no meu eu normal. No meu ser normal. Ainda que, quando confrontada com outras vidas, eu seja tão friamente dissonante.

Eu tenho um medo danado de tudo isso ser uma farsa, um tropeço, um engasgo. Eu tenho tanto medo de me perder ao ponto de ninguém mais me encontrar a não ser eu mesma. Me habitando, me consumindo, me atiçando e morrendo em mim.

Me entende. Entende que costurei mil tecidos por cima do que sou. Uma vida toda me encobrindo, bordando detalhes que pudessem me fazer mais adequada ao.. ao quê? À nada! Porra, à nada! Porque tô aqui, perdida, não me enquadrei ao lugar. Tô aqui sozinha, fodida e sem conseguir me doar a ninguém. Nem a mim mesma. Nem a mim. Porque me encobri tanto, me remoldei tanto, e nunca fui o que sou nem o que quis ser. Me perdi pra dentro.

Porque quando você disse que iria ficar, me assustou. Me deu um medo filho da puta pois, desde que me lembro, eu me escondi acreditando que eu era um peso, e ninguém merecia me carregar. E quando me envolvia, era metade de mim. O lado bom multiplicado exorbitantemente. O lado que eu julgava penoso demais – e nem sempre era -, eu ia comendo, mastigando, e viravam frustrações mal digeridas.

Eu não me deixei ser. Não posso ser ainda. E com mais alguém me ocupando, sou menos ainda. Sou cada vez mais ausente de mim. Vou diminuindo tudo que acho ruim. Vou me diminuindo de modo a me matar. Porque me reprovo, me desgosto por inteiro, me torno um diminuto isomérico. Sim, no mais puro sentido da palavra: vou me tornando uma massa, um outro corpo composto das mesmas coisas suas, mas por dentro sou essencialmente outra. Outra coisa, outra pessoa, outra. Algo que não sei mais ser. E pra que eu não morra mais dessa minha sórdida ausência de mim, me abandono de você. E me abandono de mim também. Só assim, me assumindo completamente só, posso me recuperar, saber quem sou. É meu grito de socorro.

Não ame seu terapeuta

Não ame seu terapeuta.

Se tem uma coisa que alguns anos de tratamento te ensinam é essa básica lição, não ame seu terapeuta. Nem goste dele. E nem me refiro ao desejo, paixão. Não, nada disso. Não simpatize com ele, não estabeleça uma relação de amizade.

Claro, digo isso se os seu problema for meio como o meu. Se for uma coisinha dramática, leve ou uma revista mensal pra um tarja preta que evite você matar alguém, ok. É justo manter uma relação amigável com quem você compartilha seus detalhes mais íntimos. Mas se, assim como eu, as consultas são revirados de entranhas, feridas que se abrem, e uma busca de se reconstruir, mantenha-o longe.

Eu fiquei ali, encarando o vidro do carro que estava estacionado. Perdi a noção do tempo, do espaço, perdi a noção de mim. Porque, por mais que os vidros sejam transparentes, eles ainda nos refletem. Tudo que seus olhos captam, toda a atenção que se volta, tem um reflexo seu. Uma essência sua. E eu não me via. Por mais que encarasse a porra do carro, sabendo que eu deveria me refletir ali, não tinha mais nada além de todas as outras coisas que não eu.

Há tempos, o único lugar em que consigo delinear meu reflexo é num espelho de alma. No mais íntimo meu, na minha solidão mais profunda, eu consigo me ser, me libertar de tudo que me atua, e então me vejo. Um reflexo pesado, escuro e sem sombra.

Pois digo que se o seu reflexo escureceu ao ponto de não ser mais refletido, que suas máscaras cobrem as mazelas de sua alma, deteste seu terapeuta! Deteste pois quererá que ele saiba o pior de você. E não se importará se suas palavras e sentimentos o causarão ojeriza. Deteste-o para que possa jogar suas maquiagens num chão de indiferença, sem relutar em ser ou não aprovada.

E agora eu começo a amar meu terapeuta. Amo-o pois ele me fez sentir segurança ao seu lado. Amo-o pois suas palavras me amparam, seus abraços me reconfortam, e sua preocupação me incentiva. Amo o fato dele representar uma proteção sentimental e visual, como se bastasse sua presença para que o alívio me tomasse. E amando-o eu peco, pois deveria jogar todas as feridas que carrego. Mas, invés disso, me cerco de mais fantasias e deslumbres. Me enfeito de um anseio que não tenho, uma esperança que não sinto, um viver que não suporto. Amando-o me recubro de suas expectativas quanto a mim, e me bordo para que eu as atinja, ainda que seja tudo mentira. Assim, amando esse reconforto, minto, invento um eu que não sou. Me firo dia e mais dia. Me impeço de gritar-lhe esse demônio que se reflete em mim. Como se eu devesse ser boa, me visto das expectativas, melhoro, rio, danço, vivo. Morta por dentro, mas tingida da esperança de quem me cura.

Eu não contei a ele que já não tenho reflexo. Não contei que os espelhos estão vazios. Que eu estou vazia. Não contei que me dilacero por dentro, definho e sou consumida por esses fantasmas internos. Mas contei que li os livros que me indicou, conversei e ri como esperava. Contei que passei dias bons e noites tranquilas.

Eu não contei que amo-o.

Inverso

Isso me consome. Me deixa à um fio de vida. Me tira todo o fôlego. Esse amor, paixão, desejo, seja lá como queira chamar. Isso me dilacera. Me aflige. Machuca. Arde. E como você tem coragem de dizer que o amor nos salva, se é tão somente isso que me fere? 

Estou sentado na beirada de mim mesmo. Na ponta do precipício. Eu olho pra mim e quão mais fundo me olho, mais te enxergo. Bordada em mim, intrínseca e cruelmente me habitando sem a menor licença. Pintada à cor de sangue em minhas paredes.

E se você vem, como num ato de aliviar-me deste peso que é te almejar, me afogo da sua presença. Tenho que me esquivar de tudo que você é só pra que eu ainda possa me ser. Ínfima e tolamente, mas ser o que resta de mim enquanto você está perto. Mas e se não vem? Se não vem eu morro. Definhando em passos largos. Coibido num canto escuro de mim mesmo. Me retomo, lembro quem sou e, como um vento que me bate a cara, lembro que pareço tão ausente sem você.

Como se o amor fosse um devorador. Eu, por ser quem te quer, te engoli. Me enchi de você. Quis preencher cada espaço meu com a beleza que te tem. E ele me comeu também. Mastigou minha capacidade de sobreviver, de ser mais que um alguém que quer, e tão somente te quer. Então me vejo preso entre não aceitar me perder, e o não saber ser quem não te quer.

Te perder entre meus dedos. Um eterno escape, e nunca sei se te seguro ou me agarro. Mas, escuta, tenta vir. E quando vier, me traz de volta.

Fogo

Olha pra mim! Presa nessa ridícula ânsia por você. Como um susto você me vem. O ar faz uma breve pausa em meus pulmões e seu semblante calmo, sereno e seus sorrisos desconcertantes me invadem a mente. Um segredo. 

Esse sofá que, antes aconchegante e bem espaçado, agora parece desconfortável, de uma cor berrante e desproporcional à sala, parece grande a ponto de me fazer pequena e insignificante.

Essa minha total impossibilidade de te tocar, essa total incapacidade de te desvendar. E presa nessa insegura incerteza de quem sou, me remoldo, remonto e me bordo um novo eu. Logo você. E eu que me dispo de alma e pecados, me revelo e entrego meus pesos numa ausência de sanidade, para ser amparada num consentimento. Mas agora que me pego presa nesse querer inconfessável, me desmancho de quem sou. Me calo de confissões, me iludo de mim mesma.

Seu sorriso indecifrável, como quem me aprova ou reprova, mas nunca se revela. Não revela porque seus olhos me traduzem uma sucessão de impossibilidades. Eu não te toco. Não revela porque você me sorri como quem me testa, me provoca. Me constrói o desejo e me pune com o tapete terrivelmente branco entre nós. E você me aprova com um riso de quem me convida. Então eu morro por dentro. Morro puxada por um desejo que não se manifesta senão dentro de mim, em silêncio cruel.

E seus olhos que me fixam em tamanha profundidade que me sinto despida. De alma e de roupas. Como alguém que me ensina a me proteger de mim mesma, ao tempo que me oferece refúgio, assim você me instiga. Me construiu um mistério que anseio decifrar, e me alimenta mais ainda não poder fazê-lo.

Presa nessa loucura, nem conto que minhas paixões foram caladas. Todas reprimidas e silenciadas. Cada uma delas especialmente embalada em um não-poder. Talvez… além de seus olhos que parecem me devorar, esse tapete branco que mede a distância entre nós e evidencia a impossibilidade de aproximarmo-nos é que forma esse espectro de desejo proibido.

Te quero em silêncio. Desejo proibido. Um querer que flameja o ego, a alma, o cerne. Me dispa. Com olhos, mãos e alma. Me leva nessa dança de ritmo seu e tão somente seu. Ainda que mudo e proibido.

Rosa dos ventos

A paixão que rápido se acende, vai aos poucos se distanciando de nós. Não morre, apenas caminha lentamente para o lado oposto, e ainda que possamos senti-la presente, ela fica cada vez mais sutil, como uma sombra, um vulto.

Porque você me chegou como um suspiro. Foi breve na sua entrada e, como num piscar de olhos, você já estava aqui. Eu já estava presa em seus contornos e sequer sabia como revelar isso, nem pra mim mesma. Foi assustadoramente doce. Sua presença me afogou e me salvou de formas extremamente cruéis.

Assim como um susto precisa de tempo para ser racionalizado e compreendido, um amor, quando descoberto pelo amante, demora pra ser bem sentido. Fui, então, me permitindo sentir mesmo sabendo que seria meu, e tão somente meu, esse sentimento. Mudo. Solitário. Nulo se não preenchesse cada entranha minha. E me descobri amarrada e bordada em seus olhos. Me alimentando das suas aprovações, criando uma trama de mentiras onde tudo era pensado pra que você se orgulhasse. Ainda, repito numa onda de tristeza, que num orgulho distante. Num orgulho que nunca cruzaria com o meu sentimento. Num orgulho que você ostenta em seus sorrisos e, junto dele, traduz a distância que estamos, ainda que muito próximos.

Os dias tornam minha ânsia por suas aprovações quase insuportável. Sinto como se tivesse permitido que esse sentimento me deixasse a um passo do fim do precipício. Como se eu precisasse correr, mas um passo que eu dê me faça cair.

Mas essa é a artimanha das paixões furiosas, da minha instabilidade, dos sentimentos existentemente mudos: do modo súbito e voraz que nos tomam, eles se afastam. Talvez mais lentos e não completamente. Ainda que eu procure a aprovação em sua voz, e que me atice procurar o orgulho de mim em seus olhos, já não sou um bloco concreto de sentimentos por você.

Essa paixão está caminhando pro lado oposto. Agora ela me é quase sem rosto, um leve borrão que não me deixa ver detalhes. Mas ainda a vejo nítida, presente e pulsante. Mais dia ela será um vulto, uma sombra. Uma memória.

Quem sente

Antes de tudo, devo te dizer, caro leitor, não acredite no que te conto. Nadinha. Tudo que irá correr por estas linhas serão apenas desventuras de uma mente pervertida. Não considere nenhuma característica, lugar ou situação real, qualquer semelhança é mera coincidência.

Ou não.

                                                                 

Existem dezenas de amores. Amores aos montes, espalhados por aí sem o menor pudor. O que conto agora é algo intragável: amores certeiros não foram feitos para dar certo. Lide com isso, estimado ouvinte.

Como sei? Bom, cotarei o mais puro caso de meus amores. Acendo um cigarro pois a história me deixa ansiosa, preciso ter algo em mãos já que meus amores me escapam tão facilmente. Aceita um?

Não vem ao caso como nos conhecemos. Foi tudo uma sucessão rápida de acontecimentos sem grandes interesses. Deixe-me ver, começarei a contar o porquê ainda tomo-o como o mais verdadeiro amante. Se você pensa que amor deve vir para te completar, está enganado. Somos exatamente o que devemos ser em relação ao todo. Estamos completos, mas quando o amor chega, viramos uma soma que deve resultar em um. Então a outra pessoa tem que ser esse complemento sem nunca nos roubar a conta.

Eramos assim. Eu, bem como sou. Ele, bem como é. E deu certo, juntos formávamos uma extraordinária conta que, quando separados, eramos eu e ele, e quando juntos, eramos nós. Um nem o oposto, nem totalmente concordante com o outro. Mágico, não?

Tudo tinha um equilíbrio doce. Se fosse tão mais ele, veríamos filmes de comédia às 11 da manhã, compraríamos copos descartáveis, e levaríamos poesia pra ler antes de sairmos do motel em pelo menos 4 noites por semana. Se fosse tão mais eu, sairíamos pra almoçar todos os dias, veríamos drama durante a madrugada, e faríamos sexo no banheiro do dentista.

Ele fumava. Eu não. Fiz ele parar. Agora comecei eu. Eu bebia regularmente. Diminuí por ele. Acho que agora quem bebe mais é ele. Ele era toda a paz, guardava os problemas dobradinhos no bolso e resolvia quando lembrasse. Quando discutíamos, os extremos iam de encontro ao outro. Eu surto. Louca, louquinha. Mais louca ainda quando ele sentava no sofá, me olhava com uma serenidade incabível e me dizia “calma”. Mas as brigas duravam pouco. Eramos um casal perfeito. Nunca dormimos sem fazer as pazes.

Ele, no frio, preferia calor. E no calor, preferia frio. Eu, no calor gostava do calor, e no frio me encantava os casacos. Apesar do calor me parecer melhor. Ele era vinho. Eu, bom, cerveja. Cigarro, chocolates, bebidas, barrinhas de cereal, controle remoto e travesseiros se espalhavam pela cama, e nós dormíamos no chão, esparramados em um desses colchões de acampar.

Nenhuma ideia era absurdamente irrealizável para nós. E era fácil um propor ao outro, afinal eramos de uma sintonia quase inimaginável.

Foram alguns meses intensos. Cerca de 3 ou 9 meses, não sei ao certo. O tempo nunca nos importou. E foi como um clique e soubemos exatamente o dia que acabou. Acordamos sabendo que cada um deveria seguir uma direção diferente. Sequer foi preciso dizer algo. Eu lia em seus olhos exatamente o que se passava em minha mente. Era a hora de irmos e guardarmos isso: o melhor amor que tivemos. Talvez que teríamos em toda a vida.

Sabe, olho para esse cigarro e penso como as pessoas se lamentam por relacionamentos acabados, e reclamam dos ex-companheiros. Digo, por mais desastroso que tivesse terminado, não consigo odiar uma pessoa a quem já manifestei amor. Guardo sempre o melhor dela, da relação.

Continuo amando-o. Ele, eu acredito que também. Quero acreditar. Claro, outros já vieram e se foram, já foram menos e mais, mais intensos, mais doces, mais briguentos, mais concordantes, mas nunca iguais. Cada um com uma distinta afeição.

Os amores só são amores enquanto deferem o ato amante. E esse sempre se acaba. Então que acabe antes que as memórias boas sejam sugadas pelo desafeto. Mesmo que termine, será sempre amor.

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Nota: O amor morre todos os dias.

Nota²: Certas vezes ele nem chega a nascer.

Silêncio

Tenho coisas terríveis pra te contar. Aliás, nem deveria. Sabe um daqueles segredos que se guarda com todo o primor? Estou repleta delas. In-con-fes-sá-veis. Assim mesmo, com pausas, vírgulas e tudo mais. Ah, mas devo? Contar detalhes que guardei… curioso. Ganho o quê? Ah, pouco me importa. Quero mais é falar. Vai me ouvir, porque são esses segredos maliciosamente guardados que instigam e atiçam que ouve. E quem conta. 

Ah, e se eu dissesse que quero fazer coisas terríveis com você? Te assusta? Nada escandaloso. Tudo um grande segredo. Vai dizer que por baixo dessa sua pele alva, seus olhos amendoados e toda essa primazia, não tem um grande segredo que te consome cada entranha? Tenho dó dos que não têm. Mas nós temos esse ar de quem carrega uma bela de uma história. Carrego mais. 

Rá, posso me gabar. Quem me vê nem suspeita. Nadinha. Inconfessável, me comporto como tal. Sem uma mancha no meu bom tom. Talvez uns 4 segredos. Deliciosamente guardados. Mas se não tem nenhum segredo, bem que gostaria, não é? Qual a graça de ter uma vida toda limpinha? Vai dizer que a sensação de ter uma coisa sua e tão somente sua não é maravilhosa? Dou meus risos à noite. Às sombras. Choro escondida. Gargalho no banho. E se me perguntam no que penso, logo desconverso. É meu. Minhas lembranças. E ninguém me julgará por elas. Por isso as guardo. 

Mas tudo é negociável. Troco confissões de velhos segredos por novas coisas a se guardar. 

Falência

A vulnerabilidade de não te ter.

Ver o não poder.

Eu que me visto da sua ausência e te preciso,

num riso

quente

doce.

Desejo

Flamejo

O sangue corre quente

num suspiro 

arde

desejo. Ardente.

Que me veste,

me cospe,

mastiga,

engole.

Você que não toco.

Mas me roço.

Você que longe é essência

na minha fala cala a carência.

Mas teu corpo é refúgio

que preciso

que lateja

que me cobre.

Me descobre mulher.

Me atiça, cobiça, me toma, retoma, me suga.

Me descobre e me carrega.

Me vicia e depois some

Mas me sacia enquanto come.

Pra quem vem

Encontre alguém que te devolva. É, porque, meu amigo, vou te dizer uma boa verdade – dolorida, mas boa -, essa porra de história de que amor, ou paixão ou desejo ou vontade ou seja lá que nome você queira dar, deve te roubar os pensamentos, deve te fazer querer a pessoa mais do que a si mesmo, ah, balela. Mentira e daquelas bem perpetuadas.

Encontre sim alguém que te seja segurança. Ame, se possível. Mas que depois do fim do dia te devolva. Inteiro. Sem essa de meu pensamento é teu. Não, rapaz, devolve aqui. Meu pensamento é meu, e aqui ele fica: em mim.

Ok, ok. Acho que tô há tempo nessa solidão exatamente por isso: ninguém me devolve. Sou esse tipinho ruim que se entrega de corpo, alma e vísceras – e o que mais puder entregar: dinheiro, versos de amor, músicas, poemas, filmes. Então cá estou eu, me arrumando, escondendo todos os meus anseios e inseguranças, me armando de tudo que a pessoa admira, prontíssimo pro ataque. Obviamente que o ataque se refere a me moldar aos extremos desse serzinho que me invadiu e não me devolveu. Mas ele não sabe disso, ok? Vamos guardar segredo.

É bem isso mesmo. Não confesso. Não há tortura que me faça admitir que estou pleno e tolamente repleto dessa imundice que chamam de desejo. E lá vou eu engolir meus medos, traumas e vestir-me dessa fantasia tosca de que nem tô me importando e criando mil expectativas.

Vou dizer que só admitirei isso pro que vier a me devolver. Que me assegure, me sossegue e me devolva! Pelo amor do bom deus, me devolva pra minha paz, minha mente e meu sossego, meu bom rapaz. Depois que vier, nas tardes de domingo, e que venha bem disposto!, deixe tudo como encontrou.

Ah meu amigo, como é que a gente acredita que pode amar mesmo o outro se não se encontra em paz consigo mesmo? Eu não tô, nem nunca estive. Preciso achar quem me devolva e, mais que isso, me encontre também. Me ache, me descubra e aceite que sou essa sucessão de erros e pecados, mas que valho a pena. Eu valho. E preciso que esse alguém me apresente a mim mesmo. Porque se for capaz de descobrir que valho a pena, ele precisa me convencer disso: que eu valho.

Depois disso eu amo. Depois que me encontrar eu amo. Depois que te amar, me amo.