En(cena)

Eu assisti a um desses filmes que desabam nossas mentes. E nesses ensaios sobre a fragilidade de nossas vidas é que se descobre muito do que se é. Ou do que não se é. A música nostálgica. O filme envelhecido. Os cortes duros, crus. A cena longa. E eu estou há 2 horas chorando. Incessante. Meu peito se retorce. Dilacerado.

E não choro porque o filme é triste. Choro pela identidade. Me retrato, me esculpo, sou a personagem, sou a atriz. Ali em cena.

E percebo – me dou conta, finalmente – que sequer sou o filme. Mas quem o assiste impaciente. Desde que os primeiros segundos passam diante meus olhos, anseio pelo fim. Seja no meio ou na terça parte do enredo, por mais que ele me prenda, me emocione, me abale, por mais que a personagem me instigue, me apaixone, eu rompo o choro pra me perguntar quando acaba. Falta muito? Quando termina o filme. Será que é agora?

E me pergunto como foi a cena, quantas vezes? Será que teve corte? A maquiagem. É real? É roteiro, e a atriz? Porque a porra da história não me basta. E não me refiro ao filme. A história não me sustenta, então me pego pensando por trás dela. E de quem é o filme senão meu?

Entro no quarto e estou sentada na beirada da cama, mas onde eu estou? Interpretando, mas é real? Mas qual o roteiro dessa vida, e se eu sou, se sou? Na minha ânsia por saber quando acaba mesmo que seja uma boa narrativa. Mesmo assim, me prendo na expectativa do fim. Não por querer que termine. Eu gosto do filme. Eu vivo a história. Talvez não queira ser surpreendida pelo fim. Prefiro eu acabar antes do final, do que de repente me interromper sem estar pronta.

Eu ensaiei. Não, não ensaiei. Mas representei. Porque a cidade passa por mim como uma rua cheia. E eu extremamente vazia. Passo por passo, num rumo sem… ser o quê? Num rumo. Andando entre esses corpos. Dezenas deles. E eu sozinha. Solitária em meio ao que me dói. Não sei me descrever. Não sei quem sou. E meu coração ferido sangra ao me deparar com o que não sei. Não sou. Então enceno. Dramatizo. Continuo nessa trama sem roteiro.

Eu não olho mais no espelho. Olho, mas não vejo. Eu ainda me pergunto pelo fim, e se acaba. Quando acaba? Eu continuei chorando por 2 horas ininterruptas. Meu reflexo não estava ali. Mas era eu. Pura e tolamente eu. Me perguntando das cenas, do cabelo, quantas vezes, quantas voltas, remake, de novo. De novo. Será que acaba?

Eu sou uma cidade vazia dentro de um lugar lotado. Prefiro terminar antes que tudo acabe. Prefiro me acabar antes do fim. É só uma atuação minha. É minha peça. Meu teatro. Por trás da maquiagem eu não sou. Mais nada.

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