Pra quem vem

Encontre alguém que te devolva. É, porque, meu amigo, vou te dizer uma boa verdade – dolorida, mas boa -, essa porra de história de que amor, ou paixão ou desejo ou vontade ou seja lá que nome você queira dar, deve te roubar os pensamentos, deve te fazer querer a pessoa mais do que a si mesmo, ah, balela. Mentira e daquelas bem perpetuadas.

Encontre sim alguém que te seja segurança. Ame, se possível. Mas que depois do fim do dia te devolva. Inteiro. Sem essa de meu pensamento é teu. Não, rapaz, devolve aqui. Meu pensamento é meu, e aqui ele fica: em mim.

Ok, ok. Acho que tô há tempo nessa solidão exatamente por isso: ninguém me devolve. Sou esse tipinho ruim que se entrega de corpo, alma e vísceras – e o que mais puder entregar: dinheiro, versos de amor, músicas, poemas, filmes. Então cá estou eu, me arrumando, escondendo todos os meus anseios e inseguranças, me armando de tudo que a pessoa admira, prontíssimo pro ataque. Obviamente que o ataque se refere a me moldar aos extremos desse serzinho que me invadiu e não me devolveu. Mas ele não sabe disso, ok? Vamos guardar segredo.

É bem isso mesmo. Não confesso. Não há tortura que me faça admitir que estou pleno e tolamente repleto dessa imundice que chamam de desejo. E lá vou eu engolir meus medos, traumas e vestir-me dessa fantasia tosca de que nem tô me importando e criando mil expectativas.

Vou dizer que só admitirei isso pro que vier a me devolver. Que me assegure, me sossegue e me devolva! Pelo amor do bom deus, me devolva pra minha paz, minha mente e meu sossego, meu bom rapaz. Depois que vier, nas tardes de domingo, e que venha bem disposto!, deixe tudo como encontrou.

Ah meu amigo, como é que a gente acredita que pode amar mesmo o outro se não se encontra em paz consigo mesmo? Eu não tô, nem nunca estive. Preciso achar quem me devolva e, mais que isso, me encontre também. Me ache, me descubra e aceite que sou essa sucessão de erros e pecados, mas que valho a pena. Eu valho. E preciso que esse alguém me apresente a mim mesmo. Porque se for capaz de descobrir que valho a pena, ele precisa me convencer disso: que eu valho.

Depois disso eu amo. Depois que me encontrar eu amo. Depois que te amar, me amo.

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