Quem sente

Antes de tudo, devo te dizer, caro leitor, não acredite no que te conto. Nadinha. Tudo que irá correr por estas linhas serão apenas desventuras de uma mente pervertida. Não considere nenhuma característica, lugar ou situação real, qualquer semelhança é mera coincidência.

Ou não.

                                                                 

Existem dezenas de amores. Amores aos montes, espalhados por aí sem o menor pudor. O que conto agora é algo intragável: amores certeiros não foram feitos para dar certo. Lide com isso, estimado ouvinte.

Como sei? Bom, cotarei o mais puro caso de meus amores. Acendo um cigarro pois a história me deixa ansiosa, preciso ter algo em mãos já que meus amores me escapam tão facilmente. Aceita um?

Não vem ao caso como nos conhecemos. Foi tudo uma sucessão rápida de acontecimentos sem grandes interesses. Deixe-me ver, começarei a contar o porquê ainda tomo-o como o mais verdadeiro amante. Se você pensa que amor deve vir para te completar, está enganado. Somos exatamente o que devemos ser em relação ao todo. Estamos completos, mas quando o amor chega, viramos uma soma que deve resultar em um. Então a outra pessoa tem que ser esse complemento sem nunca nos roubar a conta.

Eramos assim. Eu, bem como sou. Ele, bem como é. E deu certo, juntos formávamos uma extraordinária conta que, quando separados, eramos eu e ele, e quando juntos, eramos nós. Um nem o oposto, nem totalmente concordante com o outro. Mágico, não?

Tudo tinha um equilíbrio doce. Se fosse tão mais ele, veríamos filmes de comédia às 11 da manhã, compraríamos copos descartáveis, e levaríamos poesia pra ler antes de sairmos do motel em pelo menos 4 noites por semana. Se fosse tão mais eu, sairíamos pra almoçar todos os dias, veríamos drama durante a madrugada, e faríamos sexo no banheiro do dentista.

Ele fumava. Eu não. Fiz ele parar. Agora comecei eu. Eu bebia regularmente. Diminuí por ele. Acho que agora quem bebe mais é ele. Ele era toda a paz, guardava os problemas dobradinhos no bolso e resolvia quando lembrasse. Quando discutíamos, os extremos iam de encontro ao outro. Eu surto. Louca, louquinha. Mais louca ainda quando ele sentava no sofá, me olhava com uma serenidade incabível e me dizia “calma”. Mas as brigas duravam pouco. Eramos um casal perfeito. Nunca dormimos sem fazer as pazes.

Ele, no frio, preferia calor. E no calor, preferia frio. Eu, no calor gostava do calor, e no frio me encantava os casacos. Apesar do calor me parecer melhor. Ele era vinho. Eu, bom, cerveja. Cigarro, chocolates, bebidas, barrinhas de cereal, controle remoto e travesseiros se espalhavam pela cama, e nós dormíamos no chão, esparramados em um desses colchões de acampar.

Nenhuma ideia era absurdamente irrealizável para nós. E era fácil um propor ao outro, afinal eramos de uma sintonia quase inimaginável.

Foram alguns meses intensos. Cerca de 3 ou 9 meses, não sei ao certo. O tempo nunca nos importou. E foi como um clique e soubemos exatamente o dia que acabou. Acordamos sabendo que cada um deveria seguir uma direção diferente. Sequer foi preciso dizer algo. Eu lia em seus olhos exatamente o que se passava em minha mente. Era a hora de irmos e guardarmos isso: o melhor amor que tivemos. Talvez que teríamos em toda a vida.

Sabe, olho para esse cigarro e penso como as pessoas se lamentam por relacionamentos acabados, e reclamam dos ex-companheiros. Digo, por mais desastroso que tivesse terminado, não consigo odiar uma pessoa a quem já manifestei amor. Guardo sempre o melhor dela, da relação.

Continuo amando-o. Ele, eu acredito que também. Quero acreditar. Claro, outros já vieram e se foram, já foram menos e mais, mais intensos, mais doces, mais briguentos, mais concordantes, mas nunca iguais. Cada um com uma distinta afeição.

Os amores só são amores enquanto deferem o ato amante. E esse sempre se acaba. Então que acabe antes que as memórias boas sejam sugadas pelo desafeto. Mesmo que termine, será sempre amor.

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Nota: O amor morre todos os dias.

Nota²: Certas vezes ele nem chega a nascer.

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