Fogo

Olha pra mim! Presa nessa ridícula ânsia por você. Como um susto você me vem. O ar faz uma breve pausa em meus pulmões e seu semblante calmo, sereno e seus sorrisos desconcertantes me invadem a mente. Um segredo. 

Esse sofá que, antes aconchegante e bem espaçado, agora parece desconfortável, de uma cor berrante e desproporcional à sala, parece grande a ponto de me fazer pequena e insignificante.

Essa minha total impossibilidade de te tocar, essa total incapacidade de te desvendar. E presa nessa insegura incerteza de quem sou, me remoldo, remonto e me bordo um novo eu. Logo você. E eu que me dispo de alma e pecados, me revelo e entrego meus pesos numa ausência de sanidade, para ser amparada num consentimento. Mas agora que me pego presa nesse querer inconfessável, me desmancho de quem sou. Me calo de confissões, me iludo de mim mesma.

Seu sorriso indecifrável, como quem me aprova ou reprova, mas nunca se revela. Não revela porque seus olhos me traduzem uma sucessão de impossibilidades. Eu não te toco. Não revela porque você me sorri como quem me testa, me provoca. Me constrói o desejo e me pune com o tapete terrivelmente branco entre nós. E você me aprova com um riso de quem me convida. Então eu morro por dentro. Morro puxada por um desejo que não se manifesta senão dentro de mim, em silêncio cruel.

E seus olhos que me fixam em tamanha profundidade que me sinto despida. De alma e de roupas. Como alguém que me ensina a me proteger de mim mesma, ao tempo que me oferece refúgio, assim você me instiga. Me construiu um mistério que anseio decifrar, e me alimenta mais ainda não poder fazê-lo.

Presa nessa loucura, nem conto que minhas paixões foram caladas. Todas reprimidas e silenciadas. Cada uma delas especialmente embalada em um não-poder. Talvez… além de seus olhos que parecem me devorar, esse tapete branco que mede a distância entre nós e evidencia a impossibilidade de aproximarmo-nos é que forma esse espectro de desejo proibido.

Te quero em silêncio. Desejo proibido. Um querer que flameja o ego, a alma, o cerne. Me dispa. Com olhos, mãos e alma. Me leva nessa dança de ritmo seu e tão somente seu. Ainda que mudo e proibido.

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