Não ame seu terapeuta

Não ame seu terapeuta.

Se tem uma coisa que alguns anos de tratamento te ensinam é essa básica lição, não ame seu terapeuta. Nem goste dele. E nem me refiro ao desejo, paixão. Não, nada disso. Não simpatize com ele, não estabeleça uma relação de amizade.

Claro, digo isso se os seu problema for meio como o meu. Se for uma coisinha dramática, leve ou uma revista mensal pra um tarja preta que evite você matar alguém, ok. É justo manter uma relação amigável com quem você compartilha seus detalhes mais íntimos. Mas se, assim como eu, as consultas são revirados de entranhas, feridas que se abrem, e uma busca de se reconstruir, mantenha-o longe.

Eu fiquei ali, encarando o vidro do carro que estava estacionado. Perdi a noção do tempo, do espaço, perdi a noção de mim. Porque, por mais que os vidros sejam transparentes, eles ainda nos refletem. Tudo que seus olhos captam, toda a atenção que se volta, tem um reflexo seu. Uma essência sua. E eu não me via. Por mais que encarasse a porra do carro, sabendo que eu deveria me refletir ali, não tinha mais nada além de todas as outras coisas que não eu.

Há tempos, o único lugar em que consigo delinear meu reflexo é num espelho de alma. No mais íntimo meu, na minha solidão mais profunda, eu consigo me ser, me libertar de tudo que me atua, e então me vejo. Um reflexo pesado, escuro e sem sombra.

Pois digo que se o seu reflexo escureceu ao ponto de não ser mais refletido, que suas máscaras cobrem as mazelas de sua alma, deteste seu terapeuta! Deteste pois quererá que ele saiba o pior de você. E não se importará se suas palavras e sentimentos o causarão ojeriza. Deteste-o para que possa jogar suas maquiagens num chão de indiferença, sem relutar em ser ou não aprovada.

E agora eu começo a amar meu terapeuta. Amo-o pois ele me fez sentir segurança ao seu lado. Amo-o pois suas palavras me amparam, seus abraços me reconfortam, e sua preocupação me incentiva. Amo o fato dele representar uma proteção sentimental e visual, como se bastasse sua presença para que o alívio me tomasse. E amando-o eu peco, pois deveria jogar todas as feridas que carrego. Mas, invés disso, me cerco de mais fantasias e deslumbres. Me enfeito de um anseio que não tenho, uma esperança que não sinto, um viver que não suporto. Amando-o me recubro de suas expectativas quanto a mim, e me bordo para que eu as atinja, ainda que seja tudo mentira. Assim, amando esse reconforto, minto, invento um eu que não sou. Me firo dia e mais dia. Me impeço de gritar-lhe esse demônio que se reflete em mim. Como se eu devesse ser boa, me visto das expectativas, melhoro, rio, danço, vivo. Morta por dentro, mas tingida da esperança de quem me cura.

Eu não contei a ele que já não tenho reflexo. Não contei que os espelhos estão vazios. Que eu estou vazia. Não contei que me dilacero por dentro, definho e sou consumida por esses fantasmas internos. Mas contei que li os livros que me indicou, conversei e ri como esperava. Contei que passei dias bons e noites tranquilas.

Eu não contei que amo-o.

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