Uma pétala caída e uma roseira sem perfume

Eu não faço ideia de quantas horas seu relógio é capaz de marcar. Eu não faço ideia de tanta coisa que me rodeia. Escuta… só me escuta e tenta entender. Eu me perdi um centena de vezes. De mim, de nós. De tudo que um dia me achou, me valeu. Eu, enfim, entendi que não sei, não posso, ser por dois. Por nós! Eu sou tão egoísta na minha existência, e no meu ato de ser, que preciso ser sozinha. Ser inteira minha. Tão somente eu.

Deixa eu dizer o quanto precisei que ficasse. Pois parece que a necessidade de um outro alguém que me complete é tão estridente, tão berrante, que aceito ir me perdendo, me ausentando, me calando em mim mesma. Assumindo, aos poucos, essa personalidade de quem não sou.

Olha, a dificuldade que eu tenho em me permitir ser, e ser o que sou, é uma intrínseca construção dessa minha essência falida, neurótica e morta. Por uma teia de negações, de pessoas que me fizeram crer que o mundo não é isso que, tolamente, creio existir. Mas como posso ser louca, se vivo em mim que, desde sempre, me tive como normal. Presa no meu eu normal. No meu ser normal. Ainda que, quando confrontada com outras vidas, eu seja tão friamente dissonante.

Eu tenho um medo danado de tudo isso ser uma farsa, um tropeço, um engasgo. Eu tenho tanto medo de me perder ao ponto de ninguém mais me encontrar a não ser eu mesma. Me habitando, me consumindo, me atiçando e morrendo em mim.

Me entende. Entende que costurei mil tecidos por cima do que sou. Uma vida toda me encobrindo, bordando detalhes que pudessem me fazer mais adequada ao.. ao quê? À nada! Porra, à nada! Porque tô aqui, perdida, não me enquadrei ao lugar. Tô aqui sozinha, fodida e sem conseguir me doar a ninguém. Nem a mim mesma. Nem a mim. Porque me encobri tanto, me remoldei tanto, e nunca fui o que sou nem o que quis ser. Me perdi pra dentro.

Porque quando você disse que iria ficar, me assustou. Me deu um medo filho da puta pois, desde que me lembro, eu me escondi acreditando que eu era um peso, e ninguém merecia me carregar. E quando me envolvia, era metade de mim. O lado bom multiplicado exorbitantemente. O lado que eu julgava penoso demais – e nem sempre era -, eu ia comendo, mastigando, e viravam frustrações mal digeridas.

Eu não me deixei ser. Não posso ser ainda. E com mais alguém me ocupando, sou menos ainda. Sou cada vez mais ausente de mim. Vou diminuindo tudo que acho ruim. Vou me diminuindo de modo a me matar. Porque me reprovo, me desgosto por inteiro, me torno um diminuto isomérico. Sim, no mais puro sentido da palavra: vou me tornando uma massa, um outro corpo composto das mesmas coisas suas, mas por dentro sou essencialmente outra. Outra coisa, outra pessoa, outra. Algo que não sei mais ser. E pra que eu não morra mais dessa minha sórdida ausência de mim, me abandono de você. E me abandono de mim também. Só assim, me assumindo completamente só, posso me recuperar, saber quem sou. É meu grito de socorro.

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