Vinho frio

Fechei os olhos e você não estava. Aqui fora não há mais nada, e por dentro está indo embora. Fechei os olhos e eu estou indo embora.

Como uma ponte que termina num abismo, um precipício. Um vazio em mim. Fechei os olhos e nada, nem ninguém me puxa de volta.

Um abismo que me fere, me corta, me esvai e mata. Morre. Uma morte de uma cor só. Como se isso fosse pior do que qualquer outro tipo de morte ou abandono.

Uma mancha absorvendo cada entorno da minha suja alma.

Cada alicerce sendo quebrado e consumido por entranhas minhas. Cada sonho digerido pela minha ausência.

Me sentei num canto escuro, esperando ver passar qualquer coisa passível de ser agarrada e, numa ânsia de sobrevivência, me retirar de mim.

Quase achei que poderia me deixar carregar pela sua doce presença. Quase.

Mas não me deixo. Temo. Temo e tremo num existir amedrontado de não ser capaz de ser mais do que eu, e apenas um bloco desse eu. Como um ser sujo e incompleto.

Essa sensação de roubo, e morte, e vazio, e incompleto.

Essa sensação de vinho se derramando na toalha. Esse copo se estilhaçando. Esse espelho rachado.

E ninguém capaz de me tirar daqui. Apenas pelo simples fato de que eu não deixo. Não me deixo. Não permito que alguém me invada.

Não que eu ache que valho muito. Não, nada disso. Que quero ser diferente desse todo que sou. Só penso – me invade um temor – de poder ser algo a mais e estar aqui, nesse eterno agora, nesse canto sujo e inquieto de mim. Um vazio que me sucumbe e me agoniza. Morte certa.

Mas sou. E pouco faço a ser diferente.

E você, pequena: Se os outros pudessem te ver como você se vê. Como é que você seria?

Sinestesia

Faz tempo que não te escrevo. Aliás, faz tempo que não escrevo coisa alguma. Me mantive bastante ocupada nesses últimos tempos. Ocupações banais, eu diria. Dessas que preenchem nossos dias e fazem parecer que a vida segue justa por uma rotina normal, aceitável, deixando nossas mentes quietas e nossos corações em paz. Como se minha mente pudesse mesmo ficam quieta em em paz. Mas, mesmo com esses dias repletos de afazeres, mesmo sem ter tido tempo de mensurar o vazio que há dentro de mim, e mesmo sem me permitir olhar com lucidez pra dor que sempre me retoma, hoje eu precisei respirar. Escuta, tô aqui, me dilacerando novamente diante de um papel sujo que nem sei se tu lerás com o mesmo pesar que eu escrevo, mas preciso tanto arrancar de mim essa agonia que se acumulou no decorrer desses impetuoso silêncio. Estive lá, ocupando minhas horas, lendo coisas, vendo gente – ah, ficaria orgulhosa de mim em saber como me tornei sociável nesses últimos tempos. Quase irreconhecível. Lutei uma dezena de vezes com minhas inseguranças, e mesmo tendo o medo abraçado em minha cintura, acho que venci algumas lutas internas. Te conto, com certa alegria, que pouco ou quase nada chorei. Dei até umas risadas extravagantes, dessas que se traduzem numa alegria quase infinita, ainda que pra mim soassem um tanto quanto forçadas.

Longe da sua segurança, longe do conforto que sua presença me oferecia, eu tentei me manter firme nisso tudo que jurei, por deus, jurei conseguir. Viver. Tentei não te escrever. Essa minha mania de achar que sou um incômodo com minhas lamúrias. Sabe, você sabe, que tento me moldar aos meus afetos. Te tomei em meus bem-quereres e sabia que sua necessidade de me ver bem era o que me bastava pra me recriar. Ainda que morrendo de uma depressão, me afundando constantemente no abismo que sou, estaria sempre bem diante de você. Ainda que o caos que sou continue a me consumir, em você serei sempre a mais pura realização do que não sou.

Mas, ainda assim, hoje o dia pareceu especialmente pesado. Meus pés relutaram em sair da cama e, mesmo com a insistência e continuar, hoje eu não suportei me ser. Não aguentei mais morar em mim. Hoje a sua ausência pesou, o meu eu estremeceu. Hoje o barulho em mim ficou insuportável. E o silêncio por fora ficou aterrorizante. Hoje eu não soube escrever mais nada do que pedidos mudos de socorro. Não soube traduzir letras, não sou dizer quem sou. Porque estou caindo num buraco fundo de mim mesma, sem saber pra onde correr, e se de fato tenho pra onde correr. Eu queria poder escrever uma despedida de mim, pra mim.

Porque quando os espelhos insistem em me mostrar o que existe por dentro, e a consciência berra a loucura que tudo isso é, eu sucumbo aos estágios onde o desespero latente me prega à inexatidão. Eu sou só um corpo vagando em meio à morte interna e à sobrevivência no mundo comum. Me levanto em todas as manhãs buscando o equilíbrio entre a normalidade e o sórdido ser que sou. e não me abandono nunca. E não me supero nunca. Me diz como posso respirar aliviada, como posso me desprender da sujeira que me segue. Me diz como viver se não me suporto mais. E como me permito amar a mais alguém quando tudo em mim é ojeriza. Sou só uma pedra morta, um ser aniquilado, sou só uma matéria podre e decomposta que já não sabe mais como se manter agradável aos olhos alheios, pois à própria imagem de mim eu já não vejo gratidão, eu já não tenho beleza.Pois eu me vendo os olhos para que o reflexo interno não me suje as mãos. Eu não me permito ser, porque por fora não há aceitação para a morte que me carnificina a alma.

Mas escrevo pra te dizer que amanhã me retomo, me finjo e me supro da necessidade humana de se manter supostamente bem. Ainda que morta, ainda que suja e em extrema agonia de mim mesma, eu te escrevo dizendo que os dias serão socialmente aceitáveis.

Ninguém vai poder me abraçar a alma, ninguém poderia me aceitar nua, sem roupas e máscaras. Ninguém pode me desfazer de mim. Ninguém pode me adentrar e instalar a paz, porque o inferno está em mim.

Sem rima

Os dias passaram mudos. Como se dentro de mim tudo berrasse, mas nenhum som sequer pudesse sair. Abri meus cadernos todos os dias,mas palavra alguma parecia fazer sentido. E, logo eu que sempre me mantive próxima à sanidade por fazer das palavras meus remédios, passei dias presa na agonia no não poder escrever nada. E não escrevo ainda. Me sinto presa. Costurada. Com pesados sentimentos me ocupando,mas nada que seja possível de expressá-los. Acho que comecei a morrer. Uma dessas mortes que nos enlouquecem primeiro. Minhas mãos que rabiscam qualquer coisa nessa papel meio amassado, não podem ou não sabem mais traduzir o caos que me habita. Comecei a morrer de dentro pra fora. Como se estivesse imersa num mar de desolação ao me dar conta que não me escapo. Não tenho saída de mim. Presa, eternamente, nesse fugaz temor que é me ser.

Regeneração

As coisas aconteceram numa pressa e continuidade pulsante. Mas, de repente, me peguei paralisada, num sopro de estadia, num perceber-me onde estou sem saber se estou. Eu quero dizer que, na verdade, sei bem onde estou e da última vez decidi, de fato, estar em algum lugar. Mas tomo meus caminhos e tenho que segui-los sem tempo para pensar sobre. Tenho que me manter ocupada de constantes e árduas tarefas para que o medo não tenha emersão. Me ocupo dos dias, encho-os de linhas, bordas e desenhos. Ocupo-os sem grandes filtros. Então, quando todos os meus receios foram subterrados pela falta de tempo, a insônia me toma, o vazio me ocupa, uma hora de ócio se infiltra e toda a minha construção fragmenta-se, desmancha-se, todo o zelo de me manter segura de mim se esvai. Fico novamente presa no meu caos, na minha incerteza, lutando com meus excessos e ausências. Toda a minha rotina se desmancha num emaranhado que me sustenta. Esse emaranhado que enreda tudo que realmente sou, um caos, uma aflição agonizante. E sem saber como me sustentar, construo minhas pontes cada vez mais pra dentro, mais inertes em mim, mais ligadas a essas tamborilantes incertezas de quem sou. Pois meu caminho já não é lúcido e meus passos já não me levam pra onde almejo. Pois o medo me paralisa e se não tomar o primeiro caminho que me parecer menos caótico, me prendo e afinco exatamente onde estou: dentro do pânico que é existir em mim.

Solitude

Pois minhas obsessões são fruto de minhas extremas ausências. Ainda que eu saiba, temente, que nada externo ou palpável pode me preencher, lidar diariamente com este buraco necrófilo que me consome perene, é insuportavelmente cruel. Ainda que me prenda no arrependimento repentino quando a certeza que todo esse emaranhado de nada se amontoou dentro de mim e ainda o vazio me consome, não enxergo outra solução para tentar me desfazer dessas mazelas da incomplenitude.

Porque minhas buscas insanas por me preencher veem do fato de eu não me bastar, não me ter, não me sustentar. Já que, sinto tola e solenemente, a ausência de si próprio é a mais sórdida das solidões.

Como uma sombra que ronda a casa.Como uma ausência que caminha com passos duros no quarto ao lado. Você é uma presença que se torna intimamente incômoda. Como um quase bem-querer, te tenho em meus braços, e morro num sufoco crônico de te aceitar aqui.

Hoje eu acordei com um reflexo quase nulo. Um eu quase mudo. Quase que não mais eu. E voltar a ser quem me tem, quem me sustenta, me carece de um peso demasiado pro frágil corpo que sobrou em mim. Porque te engulo numa precisante agonia de não saber mais quem sou sem você. E não saber se quero ser. Por mais que meu mundo berro oco e rouco por socorro, por fora me clamo em temos de me ser sem ti.

Meu espelho é quase um vidro trincado quando me imagino eu em mim, e tão só em mim. Como se o que me mantém viva fosse essencialmente essa necessidade de te sentir me matando.

Brasa

Tínhamos cigarros acesos

Eramos o fogo, a ponta acesa, eramos o fluxo forte

Meu bem,

Entre torpor e ardor, sermos amor

O desejo arfante de tragar a carteira inteira

Os corpos todos

Mas não tínhamos nem isqueiro

nem cinzeiro