Sinestesia

Faz tempo que não te escrevo. Aliás, faz tempo que não escrevo coisa alguma. Me mantive bastante ocupada nesses últimos tempos. Ocupações banais, eu diria. Dessas que preenchem nossos dias e fazem parecer que a vida segue justa por uma rotina normal, aceitável, deixando nossas mentes quietas e nossos corações em paz. Como se minha mente pudesse mesmo ficam quieta em em paz. Mas, mesmo com esses dias repletos de afazeres, mesmo sem ter tido tempo de mensurar o vazio que há dentro de mim, e mesmo sem me permitir olhar com lucidez pra dor que sempre me retoma, hoje eu precisei respirar. Escuta, tô aqui, me dilacerando novamente diante de um papel sujo que nem sei se tu lerás com o mesmo pesar que eu escrevo, mas preciso tanto arrancar de mim essa agonia que se acumulou no decorrer desses impetuoso silêncio. Estive lá, ocupando minhas horas, lendo coisas, vendo gente – ah, ficaria orgulhosa de mim em saber como me tornei sociável nesses últimos tempos. Quase irreconhecível. Lutei uma dezena de vezes com minhas inseguranças, e mesmo tendo o medo abraçado em minha cintura, acho que venci algumas lutas internas. Te conto, com certa alegria, que pouco ou quase nada chorei. Dei até umas risadas extravagantes, dessas que se traduzem numa alegria quase infinita, ainda que pra mim soassem um tanto quanto forçadas.

Longe da sua segurança, longe do conforto que sua presença me oferecia, eu tentei me manter firme nisso tudo que jurei, por deus, jurei conseguir. Viver. Tentei não te escrever. Essa minha mania de achar que sou um incômodo com minhas lamúrias. Sabe, você sabe, que tento me moldar aos meus afetos. Te tomei em meus bem-quereres e sabia que sua necessidade de me ver bem era o que me bastava pra me recriar. Ainda que morrendo de uma depressão, me afundando constantemente no abismo que sou, estaria sempre bem diante de você. Ainda que o caos que sou continue a me consumir, em você serei sempre a mais pura realização do que não sou.

Mas, ainda assim, hoje o dia pareceu especialmente pesado. Meus pés relutaram em sair da cama e, mesmo com a insistência e continuar, hoje eu não suportei me ser. Não aguentei mais morar em mim. Hoje a sua ausência pesou, o meu eu estremeceu. Hoje o barulho em mim ficou insuportável. E o silêncio por fora ficou aterrorizante. Hoje eu não soube escrever mais nada do que pedidos mudos de socorro. Não soube traduzir letras, não sou dizer quem sou. Porque estou caindo num buraco fundo de mim mesma, sem saber pra onde correr, e se de fato tenho pra onde correr. Eu queria poder escrever uma despedida de mim, pra mim.

Porque quando os espelhos insistem em me mostrar o que existe por dentro, e a consciência berra a loucura que tudo isso é, eu sucumbo aos estágios onde o desespero latente me prega à inexatidão. Eu sou só um corpo vagando em meio à morte interna e à sobrevivência no mundo comum. Me levanto em todas as manhãs buscando o equilíbrio entre a normalidade e o sórdido ser que sou. e não me abandono nunca. E não me supero nunca. Me diz como posso respirar aliviada, como posso me desprender da sujeira que me segue. Me diz como viver se não me suporto mais. E como me permito amar a mais alguém quando tudo em mim é ojeriza. Sou só uma pedra morta, um ser aniquilado, sou só uma matéria podre e decomposta que já não sabe mais como se manter agradável aos olhos alheios, pois à própria imagem de mim eu já não vejo gratidão, eu já não tenho beleza.Pois eu me vendo os olhos para que o reflexo interno não me suje as mãos. Eu não me permito ser, porque por fora não há aceitação para a morte que me carnificina a alma.

Mas escrevo pra te dizer que amanhã me retomo, me finjo e me supro da necessidade humana de se manter supostamente bem. Ainda que morta, ainda que suja e em extrema agonia de mim mesma, eu te escrevo dizendo que os dias serão socialmente aceitáveis.

Ninguém vai poder me abraçar a alma, ninguém poderia me aceitar nua, sem roupas e máscaras. Ninguém pode me desfazer de mim. Ninguém pode me adentrar e instalar a paz, porque o inferno está em mim.

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