Dissonar

Não sei se ainda me ouve, me vê, me sente. Mas, se num remoto acaso, puder e quiser, lembra que já caminhou na minha casa. Lembra que nossos passos eram os tilintares da nossa moradia. E não sei quem partiu, mas tudo o que restou me dilacerou por dentro. E o que eu posso te dizer agora? O que eu gostaria de dizer senão que virei uma bagunça, um caos de dentro pra fora, e que agora carrego em meus ombros, braços e bolsos todos os sentimentos expostos, misturados e latentes. Berrantes. Vozes roucas do que já não posso e já não sei lidar. E eu que não sei quem partiu ainda repito numa sôfrega insistência de me tentar fazer ver que há o ar por fora, mas o sufoco de dentro me agoniza. E te diria, uma centena de vezes se preciso for, que a chave é tua, a porta é tua, a casa e a ausência são tuas.

E o que me dói, o que me fere em mil tons é querer te berrar, te falar que o vazio que me consome é teu. Que o eco em mim é por falta da sua voz. E que mesmo nas insistentes memórias que me repetem em repetir suas palavras, sua voz, cor de sua tez, é que nada me supre, nada me sustenta, nada me garante. E por dias tenho visto meu eu cair numa repetição de dias vazios, de dias frios, de dias que sequer soam como um tempo.

E me dói ver que já não escrevo, já não rimo. Que minhas poesias tornaram-se flores artificiais. Que minhas dores viraram história numa página morta e esquecida. Que sua presença que tanto me mata é também meu alimento, meu sustento, me impulso pra caligrafia correr entre linhas doloridas, mas que ainda me libertam desse sórdido eu que sou. E quando escrevo, presa numa repetição sem sentido, nada mais me traz a calmaria da asfixia tua. Quando insisto nos parágrafos mortos, nenhuma angústia me toma, mas também nenhuma paz me invade. Como se tudo que me dilacera também é tudo que me salva. E é. É porque sua presença se borda em tudo que sou, me apresenta um esboço mal feito do que sou, me joga num palco sem ensaio. Mas seus tecidos me cobrem. Seu tom incerto e a inconstante necessidade de mudar de timbre me fazem, na mais exacerbada necessidade, saber que estou num poema de mim. E que sou exatamente por ser capaz de me traduzir, me transcrever, me dispor em palavras que rimam contigo. E agora são linhas vazias, ocas, que sequer mancham o caderno. Que não se fixam nas páginas brancas demais. Que não se sustentam em mim, não me cabem, mas também não me sobram. E sem saber o que fazer com frases que não rimam, não me traduzem, não te substituem, eu acabei por guardar tudo que fomos num bolso fundo. E carrego essa ausência pesada, incômoda e infame perto da pele, do corpo. Uma ausência que sequer me escorre entre os dedos. Que não preenche mais as folhas, que não me borda da dor da poesia escrita. Só me soa fria e muda.

Es.trago

Estamos mortos

 

Sem a cor dos dias quentes

Há mais tempo que se pode supor

Mortos de frio, de fome, de afeto.

 

Um quase termo-nos

mas sem jamais nos possuirmos

Nem um dia

Sequer um segundo a gente teve

a quem amar

a nos amar

 

O espelho é fino

O reflexo é duro

A cor é frouxa

A voz é rouca

E tudo que nos resta é a súplica de um novo começo

Ou de um fim que nunca vem.

 

O que nos resta é o vazio

O eco que vem de dentro

Um cerne imaculado

Um homem destroçado.

 

Mas por dentro é gélido

quase sem tez

Um quase vivo que alimenta o mundo

Um quase morto que se alimenta de sufoco

 

Um homem pálido

carrasco de si,

amargurado,

ingênuo.

Um quase homem que suplica o fim

que nunca vem.

 

Um final que não se tem

A morte manda lembranças

Numa carta selada

um ardor sem perfume

Mas seu afável buquê de flores mortas desmente que,

às vezes,

o caos pode ser bem cordial.

 

 

Literar

Era de seus meio sorrisos que eu me convencia a mais um dia. Porque, mesmo longe, eram seus olhos castanhos-quase-doces que eu me assegurava no desassossego.

Mas as poesias não me bastavam mais. As melodias tristes não me compunham um choro sem lágrimas. Os poemas que tanto li, os poetas que tanto aprendi, os deuses mortos dos nossos livros eternos, nada mais me sustenta em mim.

Mesmo que sua letra esteja gravada na sua foto, mesmo que longe e tão continuamente longe eu esteja, e persistindo nesse estranho afeto distante, eu sei que nada mais me acalma, ainda que a calmaria seja fruto de seus traços.

Ainda que seus tilintares me contornem, ainda que eu seja toda a sua sombra, ainda que sua maquiagem seja a borra minha, e eu me perca entre tudo que não deva encontrar num pessoa, ainda que tudo me afogue, é do fogo teu que quero parar de sofrer.

Caos do eco

Fechei a janela. Num ato sutil, mas devastador, me fechei em mais um pano negro entre os olhos de quem não me vê. E, escuta minha pequena, se não pode suportar minha imagem, me deixa partir. Te peço, quase que numa súplica, que me permita desvincilhar-me destes dias frios. Deixa com que minha cama seja reconforto. Pois sua presença em mim constrói um buraco cada vez mais fundo, mais inatingivelmente sujo. E eu que me vejo nesse amor sórdido, triste, inócuo. Porque o amor é isso, um imenso egoísmo. E eu que te amo sem saber te partir. E você que me ama e me sufoca, me dói, me mata, me fere as entranhas. E você que tanto me guarda e, por isso, tanto me afasta. Menina, me deixa escorregar por entre seus braços, entre seus dedos, mas não permita que o egoísmo amante que o afeto te confere permita que tão somente você ame por nós. Pois sei, sei que manter qualquer ação amante torna-se viável apenas, e tão somente, quando de longe se ama, ou quando a proximidade repulsa o amor. A gente, soube, a gente sempre soube que permitir essas chegadas sem planos, esse querer mais do que poder, que permitir sermos mais do que uma tênue e distante admiração, terminaria enfim por nos destruir.

Você, presa na insanidade que o amor te confere, me mata numa ânsia de me proteger. Como se eu já não pudesse mais suportar – e sei que já não posso -, te imploro, me deixa sofrer de ausências. Me deixa recuperar o que resta desse eu vazio, incerto. Me deixa cair num cerne, âmago, num espaço oco de mim. Ainda que eu precise morrer de abstinência sua. Ainda que me doa, você me consome de um modo que me ausento em mim, no meu sufoco de ti, na exacerbação de tudo que me és, de tudo que me causa. Preciso voltar a me ter, ainda que isso seja menos do que nada. Ainda que o que restou desse podre eu seja uma ferida exposta, um sangue latente, seja um pedaço costurado com suas amarras.

E eu, presa no meu ato egoísta de não te ferir, me mantenho aqui. Egoistamente presente. Calada. Presa e constante nessa cena muda de um filme seu. Um filme onde só um egoísmo assente. Mas me mantenho, ainda que numa morte dolorosa, ainda que num sufocar-me, me mantenho pela dor que me causa te ferir. E te envolvo entre dedos e toques, entre a tez branca e a repulsa latente. Te prendo entre minhas amarras, te bordo em meus tecidos, e me torno só uma parede com suas manchas, com seus retratos. Não passo de um espelho manchado, um retrato mal feito. Não passo de um alguém que é exatamente por não saber mais o que ser. E sou. Sou uma repetição disso que não pode ferir o objeto amante. Isso que não pode desprezar o afeto que recebe. Sou esse eco que adere tudo que recebe, com medo do vazio, do silêncio, com medo de me tornar um eco de mim. Como se, num ato sagaz e fúnebre, a consciência de mim me assombrasse. Como se ser meu reflexo fosse por demais. Então preciso da sua cor, do seu tilintar. Preciso ter tão próximo o que me fere, se isso me afastar do que sou. E nessa sórdida consciência de que não posso suportar me ser, me envolvo nesse amor egoísta que me dilacera a alma. E ao aceitar me abandonar entre suas renúncias, te embalo, te admito, te enalteço. Me torno tão seu egoísmo cruel, esse quase-amor, quase pois você, na sua inconsistência malévola, no seu devaneio de amar, não vê que mais me fere, me suga, me mata. Não vê que acaba com o que resta de mim. Incapaz de abdicar de seu amor, pra me salvar, ainda que isso pareça me matar. Incapaz de entender que morro em mim, e morro em ti. O amor egoísta que me cerca e que dele já não sei pra onde ir. E nem se quero ir. E se quero – pois deveria querer -, não sei se posso.

Então me abandona, porra! Me parte ou me adentra, mas entenda que, ainda que todo ato de amar seja egoísta, o seu destrói toda a essência que alguma alma precisa pra viver. Entenda que, por mais que eu não me sirva, não me baste, que eu não saiba ser o que eu deveria, suas agulhas me sangram mais do que me bordam. E continuo a te pedir, ainda que numa controvérsia necessidade de me jogar aos seus pés, preciso me ocupar de mim, em mim, e tão somente pra mim. Preciso do meu egoísmo, ainda que nele não haja amor.

Remoçar

Hoje eu faço aniversário. Há tempos eu não fazia-o. É claro que ano passado eu finalizei mais um ano de vida. Mas há tempo não me admitia um aniversário.

Uma renúncia silenciosa, onde tudo que tentei evitar foi me deixar ver os anos passarem, escapando entre meus dedos, escorrendo entre meus olhos, e exacerbando o fato de que eles passaram num sopro. Num ar que permiti me ser roubado. Anos que estive aqui sem estar. Onde me abdiquei de mim, sabendo que me faltaria mais a diante. Ainda assim, me enganei, ao supor que não-aniversariar seria renunciar a angústia de enfim me perceber nulo.

Mas hoje eu faço aniversário.Ainda que mudo, mas consciente. Ainda que tolo, mas presente. Ainda que morto, mas latente.

Hoje eu faço. Mas não quero.

Queria fazer aniversário, mas longe daqui. Aniversariar em outro corpo. Fazer 30 anos, mesmo que meu agora ainda tenha 11. Preferia apagar as velas de meus 7 sonhos malditos, ainda que agora carregue o peso de 64.

Queria fazer aniversário, mas em outros ventos. Em outros olhos. Queria sorrir de velhice em outro mundo. Outra alma. Morrer de juventude em outro perfume. Abraçar um nova década, mas tão somente em outra dor.

Eu me admito em aniversário. Mas ainda não o permito. Ainda que os doze meses se fecharam, eu não o redimo. Não me assumo. Mas o queria, ainda que só em outro corpo.

Porque é apenas mais um ano de flores mortas, ainda que agora eu as receba.

Espinhos mortos

Na cena congelada da TV. Somos nós, numa estranha forma de não sermos, nesse tom sepsia, mudo, frio.

Porque tem tanto não-amor pelo mundo. As pessoas dizem amar mais que a vida, mas a verdade é que amam tão somente a si próprias, não sabem lidam com a ausência. São egoístas. O amor é uma exclusão cruel, onde cada um ama o agradável.

E eu que não deixei que as flores mortas fossem vistas. Não arranquei as pétalas quase murchas das rosas. Eu que não me permiti ao egoísmo insólito do amor.

Presa naquele ato afetuoso, puro e cruelmente real, onde amei o ser amado, e nunca a mim. Numa ânsia de ser tão amor, sem o egoísmo, que não havia espaço pra mim. Me alimentei desses afetos. Por tempos, consumi toda a minha necessidade de dar amor, e sem saber ao certo o que fazer com cada pedaço sórdido desse fogo, eu me queimei, me feri, me obriguei a costurar em mim tudo o que sou e que seria capaz de dar. Bordei na pele o fracasso de não permitir me ser em outro alguém. De não exigir me ver em outro corpo, pois sequer suportaria. Sequer me caberia a audácia de estar em qualquer outro lugar que não dentro de mim.

Meu amor é uma flor morta. Uma pétala caída entre um desafeto apaixonado. .

Um corpo, um eco, um cerne

Era você. De um modo insano, mas era você. De um modo cruel, mas era.

Foi, desde o princípio, você. desde que me permiti negar pela primeira vez. Me mentir. Me afastar. desde que fechei os olhos e me calei em um consentimento doloroso. Desde que me percebi muda diante seus olhos. Foi você.

Porque agora me percebo como uma solidão. Me prendo nesse paradoxo de me ser tão pura e livre quando perto de ti, mas ao mesmo tempo tão dissonante da calmaria que costuma ser. Quase como uma televisão ligada numa casa antiga. Só existo em sua presença. Quando há sua essência habitando a sala que sou. O quarto. A cozinha. A casa toda. Entenda que, assim como a Tv, mesmo que ligada, sem você sou uma alma vazia. Um corpo a mais existindo sem a menor necessidade de existir. Persistindo numa presença que não existe de fato sem um motivo, sem uma outra presença que valha.

E me sinto, ainda que muda e singelamente, inexpressiva nesse ser-me longe de ti. Caindo numa vaga repetição de mim, só pra me renovar em sua presença. Só pra me dilacerar pela certeza de que sou exatamente eu em você, e sordidamente me perco, me anulo, me deixo esvair de toda a necessidade de me ser longe do riso que me alimenta.

Porque, exatamente agora, me agonizo num estar ausente de mim, num sofrer tolo e quase sem motivos, puramente por ver-me numa solidão de ti. Como se seus gestos fossem uma sucessão de memórias, uma constante repetição em mim. Todos. Os mais sutis e eu ainda me nego que foi você. Todos. Como se admitir pudesse me desmanchar. E pode! Me desmancha a ponto de não sobrar mais nada de mim e em mim capaz de me sustentar. Como se tudo o que você me é, fosse imensuravelmente maior e mais pesado do que eu, do que eu posso suportar, do que eu devo suportar.

Então me calo. Num pecado íntimo, sagaz, cruel e devastador. Num pecado que me guardo e me consumo. Num devorar-me as entranhas por permitir que eu morra em cada despedida, e sofra em cada ausência. Num admitir que me arrepio com seu timbre, e me firo em perder-te mesmo que por um segundo, ainda que não te perca. E continuo a me calar, a permitir que me pronuncie tão inaceitavelmente precisante de sua existência em mim. Ao saber disso tudo e negar, e morrer, e ferir, e arriscar-me te afastar de mim, ainda que você nunca se afaste. Mas também nunca chegue de vez. Pois – te confesso quase numa súplica de perdoar-me pela minha falta de pecado -, te preciso, ainda que em segredo, ainda que me matando, ainda que me sufocando de uma quase presença que me fere. Te preciso me devorando a alma e ferindo a carne, ainda que tudo em mi deseje o inverso. Te preciso ainda que longe, num quase chegar, num quase me amar. Num toque menos denso, menos terno, num afeto menos significativo. Mas te preciso, com todas as essências precisantes. Te preciso para que, ainda que apenas no mais íntimo dos meus desejos, você me adentre o pensamento, a alma, o corpo. Que me invada a calma, a cama. Me desnude o medo, o desejo, a carne. Me devore em paz, em fogo. Ainda que num tão somente meu confessar, te desejo pra continuar a saber que sou, quem sou. Pra ter, enfim, o que esconder e a quem entregar, ainda que nunca me entregue.

Ainda que possa parecer estúpido, mas eu te preciso num extremo arfar. Me sentir presa nessa angústia para lembrar que ainda valho-me de algo. Mas preciso me afogar nesse asco de não possuir meu afeto par que eu ainda o queira. Para que amanhã, ao me levantar da cama, não me perca entre meus desejos e, logo, pare de querer. Para que você continue me sendo agonia, desejo, ainda que precise me ser constante ausência.

Mas só eu sei como agora me reviro em desprezo de mim por não me ser capaz de dizer, de me permitir dizer que morro por dentro. Que te perco em cada fala perdida, e que você ecoa em mim numa frequência que me ensurdece a alma. Como anseio por entrelaçar-me em ti, de corpo, alma e essência. Por aspirar teu ar como quem se alimenta de um mais que bem querer. Ao tempo que morro ao distanciar-me de você, e aos poucos ir perdendo o som, a cor, a tez rígida me denuncia. aos poucos viro a televisão envelhecida, ecoando fúnebre e caoticamente um barulho sem ritmo, sem tom, num móvel vazio. Ecoando fria e sem sentido um quem sou, sem ao menos ser. Só para continuar a existir até que alguém me faça presença, valença, até que alguém me faça ser eu. Pois, enfim, só sei me ser nos outros.

Fio

Quebrei seus cigarros. Num ato insano pra me fazer livre de você.

Quebrei os meus cigarros. Num ato desesperado de me fazer parar de te querer. E eu que nem fumo. Mas seus dedos ficaram encantadoramente longos por entre o cigarro aceso. Quis fumar pra ver se podia te consumir.  E mesmo que sequer soubesse tragar, te aspirei numa sórdida necessidade de te ter. Te engolir. Te ser, por dentro, por fora, do avesso.

Eu que apaguei a brasa na sua foto. Queimei o lenço seu. Joguei a foto pela janela, mas continuei a acender e a te fumar. Porque, logo eu que sempre detestei esse cheiro incômodo, desejei acender cada um dos seus cigarros. Porque, logo eu que não me permito essas drogas, acabo por me enganar com a fumaça.

Tez

Desde o primeiro ar. Foi você. Em cada música. Em cada passo. Mesmo nas ausências. Nas constantes fugas, nos sonhos perturbados. Foi você de um modo que não sei dizer ao certo como foi.

Numa guerra fria de corpos quentes. De almas limpas. De armas sujas.

Porque entre seus olhos estava minha certeza. E entre nossos corpos um abismo de almejos, flores e desejos.

Você foi a cor. A festa. A promessa do que vem. Mas foi redemoinho. Foi silêncio, angústia.

E eu fui o quê? Fui a cor mais pálida, a voz mais rouca, a pele mais fina. O  que eu fiz senão me manter inerte e sufocadamente presa nessa certeza de que era você junto com a incerteza de ser eu. E eu que me prego em rosas que um dia você me trouxe e hoje morrem secas sobre a mesa. E hoje que me banho de letras e memórias que minha fraqueza me faz reviver. Sou essa incógnita que se mantém na cruel repetição de te ser, sem me permitir te ter. Porque foi você, na mais pura e inconfessável audácia, que teve e soube ter, ainda que sem nunca desconfiar que era sua. Que de um corpo revive a essência de crer que sou e estou. Mesmo que eu nunca esteja, seja, corra, vague entre seus dedos, olhos e corpo.

Ainda que minha tez não sinta o toque, te toque, seu toque. Ainda assim, o que me garante é que quando se desnuda uma alma, sobretudo quando distante ainda do corpo, algo a mais, uma cor, tom, tilinte a mais que seja. É isso que ressoa. Ressoa incansável. Ainda que não sejamos. Eu sou.

Elucidar-se

Quando eu era pequena, assistindo à TV, achava que se mudasse de canal, o desenho que estava passando iria parar. Como se o programa dependesse de mim, a espectadora, pra ter vida, pra ter ação. Coisa de criança isso. Cada uma teve uma teoria engraçada quando pequena.

E agora eu ainda ajo assim. Não quanto aos desenhos, sei que eles continuam passando com a TV ligada ou não, comigo prestando atenção ou não. Mas quanto à você. Essa estranha e incômoda sensação de que cada vez que você parte de mim, eu me desligo, morro, fico lá no pause até você voltar.

Como se você fosse mais do que um espectador como eu era quando criança. Como se só valesse a pena sair do pause quando você está aqui. E é triste. Porra, isso é imensamente triste. Pois a minha vida toda eu me mantive nesse transitar entre algum espectador. Entre seres que me valessem a ação. E nunca por mim. Nunca eu vivendo, mesmo que só tenha eu na sala de cinema. Como um filme colorido que vai ficando mudo, preto e branco, perdendo o roteiro, até toda a tela ficar fora do ar. Como se eu não me bastasse de audiência nessa sala grande demais. Então tento preencher esse vazio com outras pessoas, e quando enfim encontro quem possa fazer valer o play, eu vou voltando, vivendo, ascendendo.

Como numa fria ânsia de almejar fechar os olhos e a sua presença me evitar o escuro, a solidão, o vazio que me é por dentro. Numa doce súplica de me fazer crer que, talvez, meus filmes serão de cores mais vivas, de tilintares mais ávidos, se você repousar ao meu lado. Como uma criança que, sem saber ao certo como se pausa um desenho, eu não sei como me mantenho em vida, como posso continuar a existir mesmo que a solidão seja presente. Mesmo que eu seja a única espectadora. Mesmo que a sala esteja repleta de mm e, assim, absolutamente vazia.

E, por deus, como eu queria me bastar. Como eu queria descobrir que, assim como quando eu era pequena, as histórias não precisam de grandes públicos para acontecerem. Ou não deveriam precisar.