Tez

Desde o primeiro ar. Foi você. Em cada música. Em cada passo. Mesmo nas ausências. Nas constantes fugas, nos sonhos perturbados. Foi você de um modo que não sei dizer ao certo como foi.

Numa guerra fria de corpos quentes. De almas limpas. De armas sujas.

Porque entre seus olhos estava minha certeza. E entre nossos corpos um abismo de almejos, flores e desejos.

Você foi a cor. A festa. A promessa do que vem. Mas foi redemoinho. Foi silêncio, angústia.

E eu fui o quê? Fui a cor mais pálida, a voz mais rouca, a pele mais fina. O  que eu fiz senão me manter inerte e sufocadamente presa nessa certeza de que era você junto com a incerteza de ser eu. E eu que me prego em rosas que um dia você me trouxe e hoje morrem secas sobre a mesa. E hoje que me banho de letras e memórias que minha fraqueza me faz reviver. Sou essa incógnita que se mantém na cruel repetição de te ser, sem me permitir te ter. Porque foi você, na mais pura e inconfessável audácia, que teve e soube ter, ainda que sem nunca desconfiar que era sua. Que de um corpo revive a essência de crer que sou e estou. Mesmo que eu nunca esteja, seja, corra, vague entre seus dedos, olhos e corpo.

Ainda que minha tez não sinta o toque, te toque, seu toque. Ainda assim, o que me garante é que quando se desnuda uma alma, sobretudo quando distante ainda do corpo, algo a mais, uma cor, tom, tilinte a mais que seja. É isso que ressoa. Ressoa incansável. Ainda que não sejamos. Eu sou.

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