Um corpo, um eco, um cerne

Era você. De um modo insano, mas era você. De um modo cruel, mas era.

Foi, desde o princípio, você. desde que me permiti negar pela primeira vez. Me mentir. Me afastar. desde que fechei os olhos e me calei em um consentimento doloroso. Desde que me percebi muda diante seus olhos. Foi você.

Porque agora me percebo como uma solidão. Me prendo nesse paradoxo de me ser tão pura e livre quando perto de ti, mas ao mesmo tempo tão dissonante da calmaria que costuma ser. Quase como uma televisão ligada numa casa antiga. Só existo em sua presença. Quando há sua essência habitando a sala que sou. O quarto. A cozinha. A casa toda. Entenda que, assim como a Tv, mesmo que ligada, sem você sou uma alma vazia. Um corpo a mais existindo sem a menor necessidade de existir. Persistindo numa presença que não existe de fato sem um motivo, sem uma outra presença que valha.

E me sinto, ainda que muda e singelamente, inexpressiva nesse ser-me longe de ti. Caindo numa vaga repetição de mim, só pra me renovar em sua presença. Só pra me dilacerar pela certeza de que sou exatamente eu em você, e sordidamente me perco, me anulo, me deixo esvair de toda a necessidade de me ser longe do riso que me alimenta.

Porque, exatamente agora, me agonizo num estar ausente de mim, num sofrer tolo e quase sem motivos, puramente por ver-me numa solidão de ti. Como se seus gestos fossem uma sucessão de memórias, uma constante repetição em mim. Todos. Os mais sutis e eu ainda me nego que foi você. Todos. Como se admitir pudesse me desmanchar. E pode! Me desmancha a ponto de não sobrar mais nada de mim e em mim capaz de me sustentar. Como se tudo o que você me é, fosse imensuravelmente maior e mais pesado do que eu, do que eu posso suportar, do que eu devo suportar.

Então me calo. Num pecado íntimo, sagaz, cruel e devastador. Num pecado que me guardo e me consumo. Num devorar-me as entranhas por permitir que eu morra em cada despedida, e sofra em cada ausência. Num admitir que me arrepio com seu timbre, e me firo em perder-te mesmo que por um segundo, ainda que não te perca. E continuo a me calar, a permitir que me pronuncie tão inaceitavelmente precisante de sua existência em mim. Ao saber disso tudo e negar, e morrer, e ferir, e arriscar-me te afastar de mim, ainda que você nunca se afaste. Mas também nunca chegue de vez. Pois – te confesso quase numa súplica de perdoar-me pela minha falta de pecado -, te preciso, ainda que em segredo, ainda que me matando, ainda que me sufocando de uma quase presença que me fere. Te preciso me devorando a alma e ferindo a carne, ainda que tudo em mi deseje o inverso. Te preciso ainda que longe, num quase chegar, num quase me amar. Num toque menos denso, menos terno, num afeto menos significativo. Mas te preciso, com todas as essências precisantes. Te preciso para que, ainda que apenas no mais íntimo dos meus desejos, você me adentre o pensamento, a alma, o corpo. Que me invada a calma, a cama. Me desnude o medo, o desejo, a carne. Me devore em paz, em fogo. Ainda que num tão somente meu confessar, te desejo pra continuar a saber que sou, quem sou. Pra ter, enfim, o que esconder e a quem entregar, ainda que nunca me entregue.

Ainda que possa parecer estúpido, mas eu te preciso num extremo arfar. Me sentir presa nessa angústia para lembrar que ainda valho-me de algo. Mas preciso me afogar nesse asco de não possuir meu afeto par que eu ainda o queira. Para que amanhã, ao me levantar da cama, não me perca entre meus desejos e, logo, pare de querer. Para que você continue me sendo agonia, desejo, ainda que precise me ser constante ausência.

Mas só eu sei como agora me reviro em desprezo de mim por não me ser capaz de dizer, de me permitir dizer que morro por dentro. Que te perco em cada fala perdida, e que você ecoa em mim numa frequência que me ensurdece a alma. Como anseio por entrelaçar-me em ti, de corpo, alma e essência. Por aspirar teu ar como quem se alimenta de um mais que bem querer. Ao tempo que morro ao distanciar-me de você, e aos poucos ir perdendo o som, a cor, a tez rígida me denuncia. aos poucos viro a televisão envelhecida, ecoando fúnebre e caoticamente um barulho sem ritmo, sem tom, num móvel vazio. Ecoando fria e sem sentido um quem sou, sem ao menos ser. Só para continuar a existir até que alguém me faça presença, valença, até que alguém me faça ser eu. Pois, enfim, só sei me ser nos outros.

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