Remoçar

Hoje eu faço aniversário. Há tempos eu não fazia-o. É claro que ano passado eu finalizei mais um ano de vida. Mas há tempo não me admitia um aniversário.

Uma renúncia silenciosa, onde tudo que tentei evitar foi me deixar ver os anos passarem, escapando entre meus dedos, escorrendo entre meus olhos, e exacerbando o fato de que eles passaram num sopro. Num ar que permiti me ser roubado. Anos que estive aqui sem estar. Onde me abdiquei de mim, sabendo que me faltaria mais a diante. Ainda assim, me enganei, ao supor que não-aniversariar seria renunciar a angústia de enfim me perceber nulo.

Mas hoje eu faço aniversário.Ainda que mudo, mas consciente. Ainda que tolo, mas presente. Ainda que morto, mas latente.

Hoje eu faço. Mas não quero.

Queria fazer aniversário, mas longe daqui. Aniversariar em outro corpo. Fazer 30 anos, mesmo que meu agora ainda tenha 11. Preferia apagar as velas de meus 7 sonhos malditos, ainda que agora carregue o peso de 64.

Queria fazer aniversário, mas em outros ventos. Em outros olhos. Queria sorrir de velhice em outro mundo. Outra alma. Morrer de juventude em outro perfume. Abraçar um nova década, mas tão somente em outra dor.

Eu me admito em aniversário. Mas ainda não o permito. Ainda que os doze meses se fecharam, eu não o redimo. Não me assumo. Mas o queria, ainda que só em outro corpo.

Porque é apenas mais um ano de flores mortas, ainda que agora eu as receba.

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