Vinho

O vinho escorreu pela borda. Machucou o móvel. A droga do vinho fez uma marca intragável bem no meio da minha sala. E, quase como se eu acreditasse saber que isso não aconteceria, eu deixei. Eu fui te deixando entrar, e até aceitei, ainda que num consentimento intimamente calado, meu e tolo, eu deixei. Ainda que num jogo claro, numa razoável sensação de me permitir crer que lidaria, por deus, que eu saberia lidar com você me chegando sem ficar, me partindo prometendo retornos, ainda que sem data, sem a intenção sincera de voltar, e quando voltava – pois sabíamos, porra, tínhamos sempre a certeza do seu retorno -, a gente aceitou que doesse, que ferisse, que matasse. Como um batom marcado na taça, como um vinho que nos escorre o corpo, mancha a pele, a alma. Nosso gosto de uma acidez extrema. Um quase-não-poder suportar, ainda que cruelmente aceitando o não-suportar apenas para me manter vívida ao seu contorno. Pois, me entende, fico um tanto quanto mais viva, com mais cor, com mais timbre ao seu lado. E morro, só eu sei como me dilacero, em suas partidas, ainda que palavra nenhuma sua me garantiu sua estadia. 

Porque o telefone não tocou hoje. Nem tocará. Não com toques de promessas que quero ouvir. Não de toques que quero sentir. Porque a televisão me ilude, muda e sem cor, à minha frente, enquanto eu me afundo nesse sem fim cada vez mais denso de um sofá duro, frio, desgastado pela sua ausência. Pois, me  diz, esse sofá me era tão mais vívido, tão mais aconchegante enquanto era a sua presença que não me fazia caber inteira nele. E eu aceitaria o desconforto pelo seu corpo. Mas agora me resta erra porra de mancha no meio da minha sala. No meio de mim. Essa mancha que me berra o que seu olhos sinceros sempre me disseram: que não haveria estadia, nem chegada, que suas vindas seriam rápidas, que seus olhos seriam olhos cálidos de quem não fica, de quem não tem a pretençao de ficar. E eu, por deus, eu me iludi, me permiti ferir à cor de sangue. Me permiti aceitar que viesse sem a intençao de vir. E te abracei sabendo de sua correria, seus passos soltos. 

E meu ciumes me dói. E minha carência berra dolorida por dentro. E meus olhos emitem sorrisos falsos e frios de quem sabe que não pode cobrar-te as promessas que eu, e tão somente eu, fui capaz de ouvir. E se te imploro que fique, é por um conforto um pouco mais denso. E se te pronuncio um amor que sabemos permear essa casa, é que te amo, ainda que num amor que me devora por dentro. Me enfraquece por me lembrar que sou exatamente essa relutância que te permitiu chegar ao ser amado ainda que sabendo que jamais se ocuparia de quem te ama. 

Mas te desejo toda a fé do mundo, te protejo em meus braços, te carrego em bolsos fundos, e com frequência guardo meus receios e corro em agonia pro lado teu. Te conforto, te enlaço, mas morro um pedacinho mais. Mato-me nesse amor de uma via só. Pior, porra, pior que mata-me mais o amor que me afere, que longe passa do amor que gostaria, que quereria que me desse. E que me ama como quem apenas ama, sem a intenção de amar, sem o preceito de ser o ser amante, senão a mais pura essência de amar: a que não pronuncia. 

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Lidar. Lhe dar. Me dar

Matamos o amor 3 vezes.

Entre nossos dedos frios e toda a ânsia por sermos amados, entregamos um coração vazio.

A primeira vez ninguém dirá que foi mentira. Menina, os sonhos eram latentes e sua presença me era tão pulsante. Você me era desejo em chama e, por deus, quem negará que nosso amor não sobreviveu ao ápice do mais puro querermos-nos?

Eu era a mais alva essência de te desejar, e fui, minha pequena, fui o chão frio do desconcerto, foi a flâmula que envolve e dilacera todo o tipo de ser amante. E você me foi todo o eco, toda a calmaria, toda a mais casta e sórdida vontade de ser em alguém além de si mesmo. E foi. Foi em mim e em ti. Foi em nós o que nós nunca mais voltaríamos a ser. E eu sei, só eu sei como, nunca voltamos. O amor caiu despetalado num chão cru, duro e mal-amado do nosso primeiro não-suportar sermos de mais alguém além de nós mesmos.

E depois fomos torpe. Num ser sujo, eu te amei. Mentira. Porque minhas falas mudas de te amar foram cada vez mais ecos de te precisar. Nada expressou o quão te quis, e o pouco que repeti amar-te mais que a mim, me matou. E te matou no sufoco de saber que não fui capaz de aceitar que você não me era em corpo, alma e cerne. E o pouco que te tive me matou. Pouco porque te devorar não me bastaria, nem te faria entender como te amei. E almejei despir-te do mundo e, mais do que isso, despir o mundo de você para que, enfim, houvesse rastro do quão precisante eu era. Mesmo sendo numa dor oca, mesmo sendo num vazio extremo, mesmo matando todo o meu eu, fui me costurando em suas entranhas de modo que me deixei ferir satisfeita, pois a dor que me doía vinha de você. Com seu cheiro, olhos e corpo. Com sua alma sangrando em mim, om meu corpo tilintando carências sufocantes que te esmagariam, mas ainda assim, seria pouco pra ser em você. O amor desceu entre minhas pernas e escorreu pelo chão. Como numa lágrima dolorida, matamos o amor no silêncio do exagero.

Por fim, meu medo de me ser pouco, fez com que eu me sufocasse em você. E o medo de me ser muito me afastou para evitar que você fugisse. Como se houvesse saída. Eu tentei me ser presente nas ausências, e não me deixar perder de vista. Bem como tentei ser um espaço maior nas faltas, de modo que não te roubasse o ar, mas ainda assim morri sufocada no meu próprio ato. E não sabendo mais o que ser, nem como ser, eu tive um medo danado de te deixar. Sabendo que eu fui ficando tão você, me precisando tanto de sua pele quente, seus olhos doces e todos os passos seguros que sabia dar ao seu lado, eu me fui privação. Entende, pequena, entende que precisei ser tudo o que nos corroeu, precisei ser o que escapou por entre os dedos e olhos, ser os mais dilacerantes elos para, enfim, saber se era mesmo alguma coisa. E nós matamos o amor mais três vezes.

Matamos ao negarmos, aceitarmos e vivermos. Matamos por querermos ter sido mais palavra, mais toque, mais chegada. Matamos quando fomos partidas, ecos, medos e fugas. E ao não sermos mais nada. Ao sermos exatamente isso de amarmos um ao outro. De querer ser esse ser amante que, por deus, ama mais do que a si mesmo. E eu fui quem amou até a última medida, se é que se pode haver medida para o amor. Mas, me diz, se eu pude me ser tão você, e você tão eu, sordidamente eu, por que o amor corroeu nossos laços? E não que o amor acabou, nada disso! Mas, diz minha pequena, como a gente aceita que ele dorme num chão duro e frio, apenas pelo desconforto de nos berrarmos que ama-se mais do que vive-se, e que te amo mais do que suporto, e que te distancio mais do que aceito, e que, por fim, me agonizo mais do que sobrevivo contigo? Me diz como deito nesse chão frio da indiferença, ainda que eu morra junto, entre pedaços seus que não me cobrem, não me servem. Ainda que seus buracos já não sejam preenchidos com minhas agonias, ainda que a paz que me rouba não te seja repleta. Ainda que o amor arda nos nossos dedos, me diz como me livro desse ser amante que corrompe o que não sou capaz de acreditar: o que te sinto é um necessitante querer-te mais que a mim, mais que suporto, mais que sei lidar. Então, de mim, te digo: me dou.

O que não se perdoa

Termina agora. Nesse instante que meu peito se desfez em uma centena de pedaços. Termina esse agora que eu sequer vi começar. Não, pequena. Não que não tenha, de fato, começado. Em mim foi uma vida. Inteira. Como se, por uma triste ironia, uma vida pudesse ser dada e roubada assim. Fim. Os créditos sobrem, a música sobe e nada mais é compreendido senão o fim. 

E em mim acabou. Porra, se estilhaçou. Um fragmento, uma pausa e agora tudo é silêncio. 

Tudo que sequer começou. Porque os dias estavam correndo leves. As falas eram doces. Porque, pela primeira vez meus olhos foram de risos fáceis e sinceros. Por deus, como a vida pode me roubar isso? Esses pequenos almejos que temos e sentimos e que, por fim, conseguimos. Tão próximos. Tão quase tocáveis, tangíveis, sentíveis. E agora, me diz pequena, me diz o que eu faço enquanto vejo o chão se dividir sob meus pés. Me diz pra onde correr quando em mim tudo desaba. 

Eu, parada aqui, no meio dessa sala que parece estranhamente gigante. Ou eu, quem sabe, tenha ficado desproporcionalmente pequena pra essa situação. Fiquei oca. Já ficou vazia, menina minha? Já sentiu seu peito sufragar? Já sentiu suas entranhas se retorcerem num desejo sôfrego de gritar sem, ao menos, ter a força ou a ciência do que falar?

Pois me sinto assim. Com essa falha toda escorrendo entre meus dedos. Com todo esse não-saber-o-que-fazer entranhado em mim.Me sinto caminhando com passos torpes. E o que faço se me escapas, se me foges, logo você que me era o porto seguro? E que, ainda, sinto toda a minha certeza se esvair. Digo, não como uma culpa sua, longe disso, menina. Mas como se suas mãos que me eram tão calmaria, agora fossem um elo solto, um motivo de medo. Como se a segurança que sua presença me trouxe, junto à tola sensação de que o futuro próximo seria um tanto bom, me tivessem caído dos bolsos. Tivessem escorregado entre meus olhos e, por deus, eu não pude segurar. Eu não soube.

E agora me vejo presa novamente nessa incerteza vivente. Sem saber se posso mesmo continuar me habitando, me dividindo só, e tão somente, comigo. E, se posso, por deus, eu quero? Quero continuar presa nesse ser caótico que sou? Quero continuar mergulhando nessa fragilidade berrante que me fere e continua a me ferir todos os dias? Porque você me veio como uma paz. Uma prévia de que, talvez, eu seguiria meus dias bem. Resistiria aos dias, à vida, à mim. Resistiria carregando as incertezas minhas, mas carregaria. E eu jamais iria deixar esse peso de me sustentar cair sobre você. Mas e agora?

E agora que a sala gira, o chão está repleto das minhas inseguranças, agora que a sujeira que sou está evidente, espalhada e berrante nessa sala, me diz pra quê. Pra quê me permitir continuar fingindo crer. Fingindo querer. Pois, menina, você sabe que não há fé ou esperança ou vontade que resista ser quebradas várias e repetidas vezes. Não há mais nada em mim além de silêncio.

Porque, eu te juro, eu quis, eu tentei me manter em mim. Mas sinto que fui arrancada dessa tola ilusão como quem tem seu mais profundo cerne extraído, sem a chance de dizer que precisa continuar presa na ilusão de um futuro bom ou qualquer bobagem dessas. Não posso mais. Não posso de novo.

E talvez pareça um teatro mal ensaiado, com essas minhas falas tortas, com esse eu que não sei bem que é, mas eu te digo que o ar me falha, que nada mais me chega aos olhos. E que me senti traída uma centena de vezes. Como se cada uma delas, invés de me acostumar pra próxima dor, fizesse apenas a pele arder mais. Me fragilizado. Me deixando tão cruelmente pequena, que acredito poder sumir agora, perdida entre meus frágeis receios de me enfrentar com tudo o que sou, medos que sou, falhas que sou.

E se me repito, incessante, é só porque em mim tudo é um caos repetitivo. Uma cansativa necessidade de me fazer entender,ou me fazer me entender. Preciso da certeza de que me entende que não te culpo. Mas que caí novamente naquele processo fúnebre de saber exatamente quem sou. E esse eu só me é viável quando minhas expectativas são quebradas, rompidas num alarmante cenário de mim. E as forças minhas já não podem mais socorrer o que sou. Se ainda sou. 

Por fim, me entrego quebrada e dilacerada de volta a mim mesma. Por fim me devolvo ao começo disso tudo. Do modo exato de quando você chegou. Agora, apenas, com a intensidade mais, o finco maior, o choro mais apertado. Mas presa na minha angústia de me pertencer novamente a mim. Eu, logo eu, que não sei ser e ter nada, fui ser habitante e dona desse complexo eu. Me retomo e rezo, numa fé oca, que o mundo tenha piedade de meus olhos. As dores são sempre feridas prontas pra sangrar.

Como se a noite chorasse com nossos olhos

e por mais um da eu senti

a paz que me corrói.

A fuga que não termina,

o passo que me destrói.

Eu juro, pequena,

o inferno me abraçou oito noites seguidas.

Eu reluto, 

transito entre meus pânicos.

Meu medo assombrou tudo em mim.

E a névoa se fechou.

Morrer é doce quando os olhos são ressacas  

Suplício de Tântalo

Mesmo quando as portas se abrem, quando os risos são fáceis, quando o toque é macio. Mesmo quando os olhos casam e a voz tilinta num ritmo sutil, amor corrói a paz, a alma, o cerne.

O amor afincou sua ausência no meu peito e, te juro, me parti em mil pedaços.

O amor feriu a flor que não ganhei, a rosa que te mandei. O amor me dilacerou e você me sorri.

E eu soube, por deus, eu sempre soube que a sua presença era um palco frio, mas eu quis ser atriz. Quis ser flor despetalada na certeza de me garantir o calor dos olhos teus.

Deveria, menina, deveria haver duas linhas de amor. Amor próprio, amor meu, amor de mim pra mim. Entre essas linhas poderia ter todo o amor do mundo. Eu poderia te querer entre esses limites. E você seria uma paz, seria qualquer coisa boa e doce que me contempla a alma. Mas você decidiu me ser asfixia. Como quem me fere a alma à cor de sangue. Quem me mancha desse próprio amor.

Você que me trouxe flor, me arrancou o perfume. 

E eu virei todo esse amor. Me alimentei e morri de fome desse caos que sua presença é. E, ainda pior, sua ausência é. Me é. De corpo, alma e recusa. Porque me nego ao ser todo você. Me nego ao assumir que amo cair entre dedos seus e que as palavras ficam sempre tão sonoras, ainda que tua alma pareça muda.

Fui me construindo entre suas linhas amantes. Entre seus contornos doces. Me mantive num tilintar tão intimamente seu que me desaprendi a ser. Esqueci minhas margens e me bordei aos seus tons. Te carrego, por deus, te carrego presa em meus pulsos, ombros e bolsos. E agora me rastejo com o que sobrou do que de fato sou. E o que sou senão esse vazio, esse buraco de afeto consumido pela tua ausência? 

Mas que mentira. Ausência é a minha. Nunca mais me tive. Você me ocupou os espaços. Você calou as feridas com a dor tua. Agora estou lotada. Vomitando seus excessos. Consumida por tudo que não me cabe. Você é presença em mim. Você é um passo repetido centenas de vezes num espaço pequeno, num corpo pequeno, num eu tão sordidamente pequeno que não suporta nada mais do que você. Nem eu. Por isso eu sei, e só eu sei, o quanto me despedi de mim para me fazer tão você. Ainda que tudo que reste entre meus devaneios sejam as suas faltas. Ainda que me fira, me rasgue, me dilacere, nada me consome e alimenta mais do que o abandono. O meu e o teu. O nosso. O meu vazio de mim. O não mais caber-te em mim. O ser por nós, ainda que tão somente eu seja. Ainda assim, esse é meu sustento: a sensação de que, talvez, agora eu seja qualquer coisa, mesmo que menos eu, mais repleta. 

Apartamento

Lá fora o silêncio é um sopro frio, mudo e seco. Não que aqui dentro esteja calmaria ou qualquer coisa próxima. Por dentro o ranger das ausências tua me ensurdecem, o eco do que não me consola me treme o cerne. Por dentro minha presença se faz num emaranhado retorcido, um caos faminto, um luz opaca. Por dentro eu respiro do ar que você você me trouxe. Por dentro eu mastigo seus pedaços.

E o que eu te digo? O que posso ou devo dizer depois que tudo o que eu era, que pensei e tolamente acreditei manter em mim, virou um destroço? Porque você chegou em casa com as chaves na mão. Você adentrou minha moradia sem ao menos me permitir dividir os laços. E mesmo quando insisti em acreditar que saberia te esconder de mim, você habitou os mesmo cômodos que eu. 

Ainda ouço seus passos no andar de cima. Sinto teu perfume nos cômodos que você já não está. E, ainda que eu te procure, ainda que eu te mantenha aqui, sua partida foi tão desastrosa quanto tua chegada. Por que, te pergunto, por que a casa tá muda? Por que o riso teu virou esse desconcertante fasíneo? Por que me pego nessa angústia de repetir seus gestos como que te guardando em mim? Dentro e cada vez mais fundo em mim, ainda que sabendo que morro de fome. Ainda que deixando os olhos teus roubarem o que me resta de paz. Ainda que.

Mas você já não caminha em minha casa, se é que um dia, de fato, caminhou. Mesmo em suas ausências, mesmo na falta que me dói, no timbre que me fere, mesmo no eco seco e descrente de me ter tão intimamente em ti, eu me sufoco em pensar que a casa é tão somente minha. E me fere a alma sentir que estou em minha solidão autentica já que, você sabe, me corrói estar tão presente de mim. Então te abro a porta, te escancaro o peito, te recebo em suas mais plenas ausências, pois a minha presença solitária me arranca as pétalas das flores que você não me deu.

Por trás das lentes minhas, por entre os dedos frios, pelos segundos que esperei e nada aconteceu. Pela certeza que sempre tive de que você não chegaria, e se chegasse, não ficaria. Mas você chegou, ficou e me roubou de um modo que, por deus, ninguém deveria se permitir sucumbir. E mesmo na certeza de querer ser adentrado assim, ninguém poderia ser tão cruel e devastador. Mesmo que eu tivesse te dado a chave. Mas agora te peço que leve as roupas, as cores, que feche a porta, a alma, feche a dor. E eu que ainda te ouço no andar de cima.

Jazer

Hoje eu te esperei acordada como há tempos venho fazendo. Não que eu espere que você vá chegar, vá adentrar a sala, mas alguma coisa em mim persiste em me manter acordada nas noites de chuva. Pois a chuva me lembra você. A noite me lembra você. E os dias corridos também. Às tardes, quando as toalhas caem do varal, quando o vento cessa, quando a música toca, ou quando o mundo morre por um segundo, e tudo em mim parece mais vivo do que nunca, se desmoronando num sôfrego ensejo de memórias suas. Sempre suas lembranças me rasgando as vísceras. E eu que decorei cada gesto seu, entre seus dedos, entre seus olhos, entre você e eu. Eu que recortei seus sentimentos, tracei seus olhos. E agora te aguardo aqui, sentada numa sala vazia demais, grande demais, escura demais. E te espero sabendo, porra, sabendo que não vem. Sabendo que mesmo enquanto tudo em mim te aguarda, tudo em mim gostaria de te berrar despedidas, cartas rasgadas, a porra do seu amor derramado no chão sujo dessa sala que ecoa o quanto te almejo. E você não vem. Não vem mesmo sabendo que o que derrama de mim agora é minha carência, minha solidão, meu eu preso em você e minha alma costurada nos tecidos que você não quer mais vestir. E o café desce amargo pela minha garganta. Quem adoçava era você. E eu que nem fumo, seguro um cigarro pois preciso urgentemente de algo nas mãos. Mãos minhas que já não te têm. E o que derrama agora é meu pensamento, minha dor. São lembranças que me batem à porta antes de me deitar, que me fazer repetir incessante suas falas, suas manias, seu jeito de me manter perto sem nunca me deixar chegar, e de me manter longe sem nunca me deixar, de fato, partir. Eu já disse o quanto odeio você? Agarrado na sua segurança de saber exatamente quem é, iludido na repetição de ser quem é. E eu, tolamente, me mantenho te esperando. Sentada no sofá frio da minha persistência vazia. Bebendo de uma certeza que você sempre me deu de nunca chegar. Mas eu continuo, porra, eu continuo rolando entre seus dedos como um cigarro aceso. Continuo cambaleante entre suas manias. E cada vez que você beira a me engolir, eu me derramo no chão frio da sala. Eu me desmancho, me dilacero. Eu acabo estraçalhada na minha própria certeza de que você não vem, não importa quantas vezes eu contorne seu rosto, nem quantos cigarros eu te dedique. Não importa as luzes acesas, na nossa sala sou só eu que me derramo no chão sujo.

Sinestesia

Você é uma roupa que já não me serve mais, mas eu insisto em guardar, em provar dia após dia na esperança de saber se alguma coisa mudou. Como uma peça meio sem cor, que já não combina tanto com você, mas, por algum motivo, você tem um apreço imenso por ela. Uma peça que, limpeza após limpeza, insiste em ser mantida no mesmo cantinho do guarda-roupas, como numa vã esperança de servir para alguma coisa, mesmo que lá no fundo saibamos que é só uma pecinha ocupando um espaço. Só uma memória guardada que insiste em ser mais presente do que deveria. Aliás, insistimos em deixá-la presente mais do que suportamos. Você é minha peça antiga. Mas, olha que besteira, acho que de fato nunca me vestiu. Nunca me serviu. E você que sempre pareceu me apertar mais do que deveria, num desconforto estranho, porém controversamente aconchegante. Como se a sua dor me causasse uma certa agonia em existir. Agonia essa que me dava a paz de saber que, mesmo nula e incomodamente, eu existia em alguém. Ainda que só em mim. Ainda que alimentando-me de uma vazia vontade de ser, vontade de ter. Ainda que numa caótica sequência de dias crus, eu continuei a te vestir, e tentar me acertar a você, continuei insistindo em te manter num cabide grande demais pro seu real tamanho em mim. E agora que sei que já não me vestes, se é que um dia de fato me cobriu, e agora que mal de despes, me esfria, nem aquece, agora tento te limpar, tento ocupar-me de peças que me são tão mais combinantes à cor da pele. E sequer sei se ainda quero que me sirvas, me vista. Se quis que um dia me fosse tão pele que virasse só arrepio. Nem tomo tento se te guardo pelo calor que me causas, ou pelo despir que me provas. Mas, ainda assim, te guardo querendo não mais guardar. Querendo vestir-me de você, ainda que anseie por nunca mais caber em seus contornos frios. Em você me visto, mas quero mesmo o momento em que me dispo.

Roupa

Quem é você quando vem? Quem é você quando chega e, mesmo que sequer venha, fica, permanece aqui comigo? Quem é você que me tem sem ter, me rouba de mim, quem é você quando me perco de tudo que sou por você? Quem é esse todo você senão um alguém que me rompe a certeza de saber o que quero. Se quero. Se posso querer. Porque você, nessa extrema vivência límpida de ser exatamente o que te serve, me prende num espaço curto, rígido, frio de ser tudo que não me veste.  Minha pele tatuada. Você, nessa expressividade de ser meu tecido bordado, me é exatamente a roupa que não me serve. Não me serve por ser livre demais. Longe demais. Por me chegar e me partir, me romper e me sustentar, me alimentar e me manter num devaneio faminto de paixão. De paixão, porra! E eu que te decoro nos seus toques. Arrepios que me tamborilam vontades de você. Decoro seus timbres. Risos. Braços. E quando caio, entre dedos seus, toques seus, me desmancho em tudo que você é. E não me é. Enfim, descubro que esse tecido leve que me veste, é humanamente desproporcional a mim. Me escapa. Me mata de frio e me sufoca. Me foge. Contradiz o que sou. E no fim nunca sei quem é me chega. Se por fim me visto, deixando cair-te sobre meu corpo mesmo que ainda assim eu morra em agonia, ou se me dispo de tudo que finjo acreditar que me cobre.

Pingente

Fiz de novo. Escuta menina. Fiz de novo tudo isso que jurei, por deus, jurei nunca mais fazer. Fui me entrelaçando entre seus dedos e risos. Fui tecendo um mar de afetos, e entre tudo que eu achei em você, eu me perdi. Vai, menina. Diz alguma coisa. Uma coisa qualquer que me tire dessa angústia e culpa que me tomam as mãos. Me puxa pra qualquer canto da sua vida, pra fora ou pro meio, mas não me deixa aqui, segurando a insensatez com as duas mãos.  Ah, mas que besteira. Como se eu não soubesse que as coisas rumariam exatamente nesta direção. Como se eu, por um segundo que seja, não desfiei que eu, esse ser dado em atos de amor mesmo sem jamais ser sequer um afeto, não desnorteria as intenções todas. Como se eu, me conhecendo nessa impetuosidade que me conheço, não soubesse que entre os pedaços meus e pedaços teus que me tomo, te roubo, me afeiçoaria num tilintar quase doce, quase rítmico, quase. Quase porquê, agora, presa nesse antro de bem-te-querer me vejo cercada pela certeza de me perder e me deixar perder. Numa luz que se ofusca em você, mas em mim e tão solitariamente em mim uma luz fosca, suja, fraca, quase uma não-luz. Um não eu. Um pedaço meu que caiu nessa tola e sórdida repetição de me alimentar do afeto que não tenho. Dos toques que dou e não me voltam. Da certeza de ser nos outros tudo o que, silenciosamente, berro pra ser em mim. E não sou. E não tenho. E então sufoco, permeio numa abstinência afetuosa, num ser-amor por exatamente jamais ter tido a capacidade de ser. Então me bordo inteira no fato de que nada mais em mim sou eu. Uma sombra talvez. Um pequeno resquício que continua doando tudo que sou pra você. Enquanto, nesse tempo, vou sendo um reflexo fiel, um luz doce, um ritmo dançante do seu ser, sem jamis me permitir ser-me. E mesmo que me doa e me sufoque e me mate, tudo em mim berra a ausência tua pra voltar a me tomar. Mas tudo em mim suplica a presença tua que me alimenta. E mata. E fere. E sangra. Mas quase como num sufoco, você, menina, me dá o ar. Um eco de abandono. E vou morrendo em suas não-presenças. E nas minhas eternas certezas de que me afeiçoaria, me pintaria inteira de você. Numa mesma certeza de que os amores são pingentes guardados.