Pingente

Fiz de novo. Escuta menina. Fiz de novo tudo isso que jurei, por deus, jurei nunca mais fazer. Fui me entrelaçando entre seus dedos e risos. Fui tecendo um mar de afetos, e entre tudo que eu achei em você, eu me perdi. Vai, menina. Diz alguma coisa. Uma coisa qualquer que me tire dessa angústia e culpa que me tomam as mãos. Me puxa pra qualquer canto da sua vida, pra fora ou pro meio, mas não me deixa aqui, segurando a insensatez com as duas mãos.  Ah, mas que besteira. Como se eu não soubesse que as coisas rumariam exatamente nesta direção. Como se eu, por um segundo que seja, não desfiei que eu, esse ser dado em atos de amor mesmo sem jamais ser sequer um afeto, não desnorteria as intenções todas. Como se eu, me conhecendo nessa impetuosidade que me conheço, não soubesse que entre os pedaços meus e pedaços teus que me tomo, te roubo, me afeiçoaria num tilintar quase doce, quase rítmico, quase. Quase porquê, agora, presa nesse antro de bem-te-querer me vejo cercada pela certeza de me perder e me deixar perder. Numa luz que se ofusca em você, mas em mim e tão solitariamente em mim uma luz fosca, suja, fraca, quase uma não-luz. Um não eu. Um pedaço meu que caiu nessa tola e sórdida repetição de me alimentar do afeto que não tenho. Dos toques que dou e não me voltam. Da certeza de ser nos outros tudo o que, silenciosamente, berro pra ser em mim. E não sou. E não tenho. E então sufoco, permeio numa abstinência afetuosa, num ser-amor por exatamente jamais ter tido a capacidade de ser. Então me bordo inteira no fato de que nada mais em mim sou eu. Uma sombra talvez. Um pequeno resquício que continua doando tudo que sou pra você. Enquanto, nesse tempo, vou sendo um reflexo fiel, um luz doce, um ritmo dançante do seu ser, sem jamis me permitir ser-me. E mesmo que me doa e me sufoque e me mate, tudo em mim berra a ausência tua pra voltar a me tomar. Mas tudo em mim suplica a presença tua que me alimenta. E mata. E fere. E sangra. Mas quase como num sufoco, você, menina, me dá o ar. Um eco de abandono. E vou morrendo em suas não-presenças. E nas minhas eternas certezas de que me afeiçoaria, me pintaria inteira de você. Numa mesma certeza de que os amores são pingentes guardados.

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