Roupa

Quem é você quando vem? Quem é você quando chega e, mesmo que sequer venha, fica, permanece aqui comigo? Quem é você que me tem sem ter, me rouba de mim, quem é você quando me perco de tudo que sou por você? Quem é esse todo você senão um alguém que me rompe a certeza de saber o que quero. Se quero. Se posso querer. Porque você, nessa extrema vivência límpida de ser exatamente o que te serve, me prende num espaço curto, rígido, frio de ser tudo que não me veste.  Minha pele tatuada. Você, nessa expressividade de ser meu tecido bordado, me é exatamente a roupa que não me serve. Não me serve por ser livre demais. Longe demais. Por me chegar e me partir, me romper e me sustentar, me alimentar e me manter num devaneio faminto de paixão. De paixão, porra! E eu que te decoro nos seus toques. Arrepios que me tamborilam vontades de você. Decoro seus timbres. Risos. Braços. E quando caio, entre dedos seus, toques seus, me desmancho em tudo que você é. E não me é. Enfim, descubro que esse tecido leve que me veste, é humanamente desproporcional a mim. Me escapa. Me mata de frio e me sufoca. Me foge. Contradiz o que sou. E no fim nunca sei quem é me chega. Se por fim me visto, deixando cair-te sobre meu corpo mesmo que ainda assim eu morra em agonia, ou se me dispo de tudo que finjo acreditar que me cobre.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s