Jazer

Hoje eu te esperei acordada como há tempos venho fazendo. Não que eu espere que você vá chegar, vá adentrar a sala, mas alguma coisa em mim persiste em me manter acordada nas noites de chuva. Pois a chuva me lembra você. A noite me lembra você. E os dias corridos também. Às tardes, quando as toalhas caem do varal, quando o vento cessa, quando a música toca, ou quando o mundo morre por um segundo, e tudo em mim parece mais vivo do que nunca, se desmoronando num sôfrego ensejo de memórias suas. Sempre suas lembranças me rasgando as vísceras. E eu que decorei cada gesto seu, entre seus dedos, entre seus olhos, entre você e eu. Eu que recortei seus sentimentos, tracei seus olhos. E agora te aguardo aqui, sentada numa sala vazia demais, grande demais, escura demais. E te espero sabendo, porra, sabendo que não vem. Sabendo que mesmo enquanto tudo em mim te aguarda, tudo em mim gostaria de te berrar despedidas, cartas rasgadas, a porra do seu amor derramado no chão sujo dessa sala que ecoa o quanto te almejo. E você não vem. Não vem mesmo sabendo que o que derrama de mim agora é minha carência, minha solidão, meu eu preso em você e minha alma costurada nos tecidos que você não quer mais vestir. E o café desce amargo pela minha garganta. Quem adoçava era você. E eu que nem fumo, seguro um cigarro pois preciso urgentemente de algo nas mãos. Mãos minhas que já não te têm. E o que derrama agora é meu pensamento, minha dor. São lembranças que me batem à porta antes de me deitar, que me fazer repetir incessante suas falas, suas manias, seu jeito de me manter perto sem nunca me deixar chegar, e de me manter longe sem nunca me deixar, de fato, partir. Eu já disse o quanto odeio você? Agarrado na sua segurança de saber exatamente quem é, iludido na repetição de ser quem é. E eu, tolamente, me mantenho te esperando. Sentada no sofá frio da minha persistência vazia. Bebendo de uma certeza que você sempre me deu de nunca chegar. Mas eu continuo, porra, eu continuo rolando entre seus dedos como um cigarro aceso. Continuo cambaleante entre suas manias. E cada vez que você beira a me engolir, eu me derramo no chão frio da sala. Eu me desmancho, me dilacero. Eu acabo estraçalhada na minha própria certeza de que você não vem, não importa quantas vezes eu contorne seu rosto, nem quantos cigarros eu te dedique. Não importa as luzes acesas, na nossa sala sou só eu que me derramo no chão sujo.

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