Apartamento

Lá fora o silêncio é um sopro frio, mudo e seco. Não que aqui dentro esteja calmaria ou qualquer coisa próxima. Por dentro o ranger das ausências tua me ensurdecem, o eco do que não me consola me treme o cerne. Por dentro minha presença se faz num emaranhado retorcido, um caos faminto, um luz opaca. Por dentro eu respiro do ar que você você me trouxe. Por dentro eu mastigo seus pedaços.

E o que eu te digo? O que posso ou devo dizer depois que tudo o que eu era, que pensei e tolamente acreditei manter em mim, virou um destroço? Porque você chegou em casa com as chaves na mão. Você adentrou minha moradia sem ao menos me permitir dividir os laços. E mesmo quando insisti em acreditar que saberia te esconder de mim, você habitou os mesmo cômodos que eu. 

Ainda ouço seus passos no andar de cima. Sinto teu perfume nos cômodos que você já não está. E, ainda que eu te procure, ainda que eu te mantenha aqui, sua partida foi tão desastrosa quanto tua chegada. Por que, te pergunto, por que a casa tá muda? Por que o riso teu virou esse desconcertante fasíneo? Por que me pego nessa angústia de repetir seus gestos como que te guardando em mim? Dentro e cada vez mais fundo em mim, ainda que sabendo que morro de fome. Ainda que deixando os olhos teus roubarem o que me resta de paz. Ainda que.

Mas você já não caminha em minha casa, se é que um dia, de fato, caminhou. Mesmo em suas ausências, mesmo na falta que me dói, no timbre que me fere, mesmo no eco seco e descrente de me ter tão intimamente em ti, eu me sufoco em pensar que a casa é tão somente minha. E me fere a alma sentir que estou em minha solidão autentica já que, você sabe, me corrói estar tão presente de mim. Então te abro a porta, te escancaro o peito, te recebo em suas mais plenas ausências, pois a minha presença solitária me arranca as pétalas das flores que você não me deu.

Por trás das lentes minhas, por entre os dedos frios, pelos segundos que esperei e nada aconteceu. Pela certeza que sempre tive de que você não chegaria, e se chegasse, não ficaria. Mas você chegou, ficou e me roubou de um modo que, por deus, ninguém deveria se permitir sucumbir. E mesmo na certeza de querer ser adentrado assim, ninguém poderia ser tão cruel e devastador. Mesmo que eu tivesse te dado a chave. Mas agora te peço que leve as roupas, as cores, que feche a porta, a alma, feche a dor. E eu que ainda te ouço no andar de cima.

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