Suplício de Tântalo

Mesmo quando as portas se abrem, quando os risos são fáceis, quando o toque é macio. Mesmo quando os olhos casam e a voz tilinta num ritmo sutil, amor corrói a paz, a alma, o cerne.

O amor afincou sua ausência no meu peito e, te juro, me parti em mil pedaços.

O amor feriu a flor que não ganhei, a rosa que te mandei. O amor me dilacerou e você me sorri.

E eu soube, por deus, eu sempre soube que a sua presença era um palco frio, mas eu quis ser atriz. Quis ser flor despetalada na certeza de me garantir o calor dos olhos teus.

Deveria, menina, deveria haver duas linhas de amor. Amor próprio, amor meu, amor de mim pra mim. Entre essas linhas poderia ter todo o amor do mundo. Eu poderia te querer entre esses limites. E você seria uma paz, seria qualquer coisa boa e doce que me contempla a alma. Mas você decidiu me ser asfixia. Como quem me fere a alma à cor de sangue. Quem me mancha desse próprio amor.

Você que me trouxe flor, me arrancou o perfume. 

E eu virei todo esse amor. Me alimentei e morri de fome desse caos que sua presença é. E, ainda pior, sua ausência é. Me é. De corpo, alma e recusa. Porque me nego ao ser todo você. Me nego ao assumir que amo cair entre dedos seus e que as palavras ficam sempre tão sonoras, ainda que tua alma pareça muda.

Fui me construindo entre suas linhas amantes. Entre seus contornos doces. Me mantive num tilintar tão intimamente seu que me desaprendi a ser. Esqueci minhas margens e me bordei aos seus tons. Te carrego, por deus, te carrego presa em meus pulsos, ombros e bolsos. E agora me rastejo com o que sobrou do que de fato sou. E o que sou senão esse vazio, esse buraco de afeto consumido pela tua ausência? 

Mas que mentira. Ausência é a minha. Nunca mais me tive. Você me ocupou os espaços. Você calou as feridas com a dor tua. Agora estou lotada. Vomitando seus excessos. Consumida por tudo que não me cabe. Você é presença em mim. Você é um passo repetido centenas de vezes num espaço pequeno, num corpo pequeno, num eu tão sordidamente pequeno que não suporta nada mais do que você. Nem eu. Por isso eu sei, e só eu sei, o quanto me despedi de mim para me fazer tão você. Ainda que tudo que reste entre meus devaneios sejam as suas faltas. Ainda que me fira, me rasgue, me dilacere, nada me consome e alimenta mais do que o abandono. O meu e o teu. O nosso. O meu vazio de mim. O não mais caber-te em mim. O ser por nós, ainda que tão somente eu seja. Ainda assim, esse é meu sustento: a sensação de que, talvez, agora eu seja qualquer coisa, mesmo que menos eu, mais repleta. 

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