O que não se perdoa

Termina agora. Nesse instante que meu peito se desfez em uma centena de pedaços. Termina esse agora que eu sequer vi começar. Não, pequena. Não que não tenha, de fato, começado. Em mim foi uma vida. Inteira. Como se, por uma triste ironia, uma vida pudesse ser dada e roubada assim. Fim. Os créditos sobrem, a música sobe e nada mais é compreendido senão o fim. 

E em mim acabou. Porra, se estilhaçou. Um fragmento, uma pausa e agora tudo é silêncio. 

Tudo que sequer começou. Porque os dias estavam correndo leves. As falas eram doces. Porque, pela primeira vez meus olhos foram de risos fáceis e sinceros. Por deus, como a vida pode me roubar isso? Esses pequenos almejos que temos e sentimos e que, por fim, conseguimos. Tão próximos. Tão quase tocáveis, tangíveis, sentíveis. E agora, me diz pequena, me diz o que eu faço enquanto vejo o chão se dividir sob meus pés. Me diz pra onde correr quando em mim tudo desaba. 

Eu, parada aqui, no meio dessa sala que parece estranhamente gigante. Ou eu, quem sabe, tenha ficado desproporcionalmente pequena pra essa situação. Fiquei oca. Já ficou vazia, menina minha? Já sentiu seu peito sufragar? Já sentiu suas entranhas se retorcerem num desejo sôfrego de gritar sem, ao menos, ter a força ou a ciência do que falar?

Pois me sinto assim. Com essa falha toda escorrendo entre meus dedos. Com todo esse não-saber-o-que-fazer entranhado em mim.Me sinto caminhando com passos torpes. E o que faço se me escapas, se me foges, logo você que me era o porto seguro? E que, ainda, sinto toda a minha certeza se esvair. Digo, não como uma culpa sua, longe disso, menina. Mas como se suas mãos que me eram tão calmaria, agora fossem um elo solto, um motivo de medo. Como se a segurança que sua presença me trouxe, junto à tola sensação de que o futuro próximo seria um tanto bom, me tivessem caído dos bolsos. Tivessem escorregado entre meus olhos e, por deus, eu não pude segurar. Eu não soube.

E agora me vejo presa novamente nessa incerteza vivente. Sem saber se posso mesmo continuar me habitando, me dividindo só, e tão somente, comigo. E, se posso, por deus, eu quero? Quero continuar presa nesse ser caótico que sou? Quero continuar mergulhando nessa fragilidade berrante que me fere e continua a me ferir todos os dias? Porque você me veio como uma paz. Uma prévia de que, talvez, eu seguiria meus dias bem. Resistiria aos dias, à vida, à mim. Resistiria carregando as incertezas minhas, mas carregaria. E eu jamais iria deixar esse peso de me sustentar cair sobre você. Mas e agora?

E agora que a sala gira, o chão está repleto das minhas inseguranças, agora que a sujeira que sou está evidente, espalhada e berrante nessa sala, me diz pra quê. Pra quê me permitir continuar fingindo crer. Fingindo querer. Pois, menina, você sabe que não há fé ou esperança ou vontade que resista ser quebradas várias e repetidas vezes. Não há mais nada em mim além de silêncio.

Porque, eu te juro, eu quis, eu tentei me manter em mim. Mas sinto que fui arrancada dessa tola ilusão como quem tem seu mais profundo cerne extraído, sem a chance de dizer que precisa continuar presa na ilusão de um futuro bom ou qualquer bobagem dessas. Não posso mais. Não posso de novo.

E talvez pareça um teatro mal ensaiado, com essas minhas falas tortas, com esse eu que não sei bem que é, mas eu te digo que o ar me falha, que nada mais me chega aos olhos. E que me senti traída uma centena de vezes. Como se cada uma delas, invés de me acostumar pra próxima dor, fizesse apenas a pele arder mais. Me fragilizado. Me deixando tão cruelmente pequena, que acredito poder sumir agora, perdida entre meus frágeis receios de me enfrentar com tudo o que sou, medos que sou, falhas que sou.

E se me repito, incessante, é só porque em mim tudo é um caos repetitivo. Uma cansativa necessidade de me fazer entender,ou me fazer me entender. Preciso da certeza de que me entende que não te culpo. Mas que caí novamente naquele processo fúnebre de saber exatamente quem sou. E esse eu só me é viável quando minhas expectativas são quebradas, rompidas num alarmante cenário de mim. E as forças minhas já não podem mais socorrer o que sou. Se ainda sou. 

Por fim, me entrego quebrada e dilacerada de volta a mim mesma. Por fim me devolvo ao começo disso tudo. Do modo exato de quando você chegou. Agora, apenas, com a intensidade mais, o finco maior, o choro mais apertado. Mas presa na minha angústia de me pertencer novamente a mim. Eu, logo eu, que não sei ser e ter nada, fui ser habitante e dona desse complexo eu. Me retomo e rezo, numa fé oca, que o mundo tenha piedade de meus olhos. As dores são sempre feridas prontas pra sangrar.

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