Vinho

O vinho escorreu pela borda. Machucou o móvel. A droga do vinho fez uma marca intragável bem no meio da minha sala. E, quase como se eu acreditasse saber que isso não aconteceria, eu deixei. Eu fui te deixando entrar, e até aceitei, ainda que num consentimento intimamente calado, meu e tolo, eu deixei. Ainda que num jogo claro, numa razoável sensação de me permitir crer que lidaria, por deus, que eu saberia lidar com você me chegando sem ficar, me partindo prometendo retornos, ainda que sem data, sem a intenção sincera de voltar, e quando voltava – pois sabíamos, porra, tínhamos sempre a certeza do seu retorno -, a gente aceitou que doesse, que ferisse, que matasse. Como um batom marcado na taça, como um vinho que nos escorre o corpo, mancha a pele, a alma. Nosso gosto de uma acidez extrema. Um quase-não-poder suportar, ainda que cruelmente aceitando o não-suportar apenas para me manter vívida ao seu contorno. Pois, me entende, fico um tanto quanto mais viva, com mais cor, com mais timbre ao seu lado. E morro, só eu sei como me dilacero, em suas partidas, ainda que palavra nenhuma sua me garantiu sua estadia. 

Porque o telefone não tocou hoje. Nem tocará. Não com toques de promessas que quero ouvir. Não de toques que quero sentir. Porque a televisão me ilude, muda e sem cor, à minha frente, enquanto eu me afundo nesse sem fim cada vez mais denso de um sofá duro, frio, desgastado pela sua ausência. Pois, me  diz, esse sofá me era tão mais vívido, tão mais aconchegante enquanto era a sua presença que não me fazia caber inteira nele. E eu aceitaria o desconforto pelo seu corpo. Mas agora me resta erra porra de mancha no meio da minha sala. No meio de mim. Essa mancha que me berra o que seu olhos sinceros sempre me disseram: que não haveria estadia, nem chegada, que suas vindas seriam rápidas, que seus olhos seriam olhos cálidos de quem não fica, de quem não tem a pretençao de ficar. E eu, por deus, eu me iludi, me permiti ferir à cor de sangue. Me permiti aceitar que viesse sem a intençao de vir. E te abracei sabendo de sua correria, seus passos soltos. 

E meu ciumes me dói. E minha carência berra dolorida por dentro. E meus olhos emitem sorrisos falsos e frios de quem sabe que não pode cobrar-te as promessas que eu, e tão somente eu, fui capaz de ouvir. E se te imploro que fique, é por um conforto um pouco mais denso. E se te pronuncio um amor que sabemos permear essa casa, é que te amo, ainda que num amor que me devora por dentro. Me enfraquece por me lembrar que sou exatamente essa relutância que te permitiu chegar ao ser amado ainda que sabendo que jamais se ocuparia de quem te ama. 

Mas te desejo toda a fé do mundo, te protejo em meus braços, te carrego em bolsos fundos, e com frequência guardo meus receios e corro em agonia pro lado teu. Te conforto, te enlaço, mas morro um pedacinho mais. Mato-me nesse amor de uma via só. Pior, porra, pior que mata-me mais o amor que me afere, que longe passa do amor que gostaria, que quereria que me desse. E que me ama como quem apenas ama, sem a intenção de amar, sem o preceito de ser o ser amante, senão a mais pura essência de amar: a que não pronuncia. 

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