Haver-se

Tudo que tenho

e posso dar.

Tudo que quereria e poderia

Daria sem medo.

E toda a dor que corrói,

encanta

num sufrágio

emerge e mata.

Come,

me come, me cospe, me engole.

O corpo que alimenta o indecente

pois amar é um ato insano.

E você que

me mastiga sem engolir,

me apresenta o cheiro doce do que comer

de olhos

bocas

e tatos.

Fios e frios cabelos que me roçam.

Sua gélida tez de quem não vem

me ama sem me tocar.

E me toca sem amar.

Me desconcerta

em ritmo e sintonia

a paz que não me cala.

O que te dou sou eu

de tudo que quero e posso e tenho a dar.

Um corpo aberto e uma alma fina

Um sem fim de mim que te devora e não se sacia.

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Não me deixe até ir embora

Retornei ao meu estágio de medo e receio. Onde tudo me fere, mas tudo me causa ojeriza. Uma dor tão repugnante que não basta, por si só, doer. Ela me fere, rasga o âmago, insere-se num antro desalojado de mim. Uma dor tão fria e sagaz que dói desumanamente sem nunca ter espaço de dilacerar. Isso que cresce em meu peito é um caos amargo, uma pedra suja e não polida de desassossego. Isso que me causa ardência, nunca penetra tão fundo na minha alma a ponto de me tirar a esperança. Isso que me corrói a fringe, que me mata e rouba o ar, não é lúcido o bastante pra me fazer parar. Uma dor incômoda que me faz caminhar. Que bobagem, menina! Somos todos corpos frios, expostos a um sem fim de solidão. Solidão! Então me abraça agora. como se o mundo fosse capaz de nos engolir agora. Porque sua solidão, casualmente, se costura a minha. Porque somos um amontoado de almas cálidas, pedindo por um momento mágico de atenção. E você, me diz, pequena, me diz como se encarrega desse amedrontamento todo. Me diz como a música soa doce aos seus segredos. E os laços são frágeis, mas ouço-me num tilintar sôfrego sempre que te vejo. E busco, por deus, busco insistentemente te ver. E te ter, mesmo na mais pura essência de saber que não tenho e não posso ter. Mas quero. Quero num precisar mais que a mim. Quero num grito seco de salvar-me porque em ti, e tão somente em ti, eu sou alguma coisa. Coisa essa que não sei se sou ou posso, de fato, ser. Mas, como alguém que se tamborila frequentemente, eu me achei nos seus ritmos. E eu, que nunca soube ao certo, o que sou me encontro em paz perto da tez doce que contrasta tanto a minha. E me bordo, assim, pedaços e fragmentos desse meu não-saber-quem sou, num desenho doce, sutil, ameno, me bordo e me vejo em você. Então te imploro que não me deixe até ir embora. Porque sei que vai. E que nesse dia levará contigo toda essa paz que agora me rege. Sei que terá nos bolsos pedaços meus que sequer quererá carregar. Mas, por deus, seja minha, seja eu, enquanto ficar, e me deixa ser. Ainda que pouco, que suja, fria ou desnorteante, deixa-me ser.. Enquanto estiver, de fato, esteja. E quando for, quando achar minha solidão bordada em suas mangas, tenta ouvir que sussurrei meus ecos de um caos sufocante, desse pouco que não saberei mais ser. 

Despetalar

Quantas vezes teremos que nos despedir, mesmo que sem nunca dizer adeus?

Te pergunto, menina, nessa insensatez de um silêncio cortante. Porque, te admito, morro entre palavras que não digo, não ouso e nem sei se consigo. Me situo nesse eco, nesse vão entre o que eu demonstro e o que eu quero expor, berrar, chafurdar entre palavras cruas de um te bem querer mais do que posso suportar.

Antes de mais uma despedida, antes de uma morte fria minha, o silêncio do que não acontece paira entre tudo que sufocamos. Porque o filme corre na televisão fria, corre entre cenas que berram amor, afeto, cenas que me expõe as mãos entrelaçadas, os dedos que tocam peles arrepiadas, a respiração que sufoca fria e cálida a paixão. Paixão, porra. Eu que me retorço presa nessa minha angústia de não te dizer, não poder dizer, que te guardo em mim numa ânsia de te ter sem jamais, por deus, jamais ter de fato.

E construo-me, me moldo, relevo, costuro entre seus afetos o que sou. E me reconstruo, morta. Morta. Dilacerando em cada vez que me nego a te admitir. Mas não pense, menina, que não me dói. Porque a dor é pouca perto do estraçalhar que me consome ao viver e morrer perante sua presença. E ainda mais em sua ausência.

Por deus, eu caminho em direção à sensatez se sobreviver em mim, sozinha, me afunda num sem fim de solidão, mas estar em você, presente, me torna um recipiente frio e maleável diante outrem. Porque, te digo, você me apresentou à alegria. Você a trouxe puxada pelas mãos como uma velha conhecida, e eu a recebi como uma flor morta, sem perfume, quase sem pétalas. Ainda que cuidando, repousando-a numa janela ensolarada, sua alegria é tão mais densa em sua presença. Ainda que morta em mim.

Pois mesmo na mais pura presença tua, me sinto plena em solidão. Presa num estar-me só a não ser em sua companhia. A crueldade do desamor é essa solidão de hora marcada, de chegadas pontuais, de partidas doloridas. Pois morro em suas idas, mesmo sabendo que suas voltas serão breves. Sabendo que o toque, ainda que sensível, me soa frio, intangível. Pois te desejo de um jeito que não me cabe, não me suporta, não nos suporta. E a solidão ardida me fere o cerne. E a verdade é que a dor se concebe quando vejo, por deus, vejo que não tenho a capacidade de carregar essa flor ao estar distante de ti, menina. Então estou constantemente presa no meu ato amante sem amor, no meu querer mais que bem querer, no meu precisar-te, num choro seco e mudo, interno, frio, num choro que não se sustenta. Pois a solidão caminha em passos largos, ao meu lado, em um ritmo constante, que não consigo escapar. A solidão ainda que de alma, ainda que de corpo, me segue e constrói em mim um muro de dor. E quantas vezes nos despediríamos essa noite? Essa vida? Por todas as vidas que existem e haverão de habitar a presença de uma flor quase morta, não admito que isso seja o que chamam de amor.

Minha angústia se constrói em suas despedidas, e a a minha dor é saber que meu limite rompe todos os seus. Rompem e me arrastam pra um caos que me devora por dentro. Sem saber, menina, sem saber como me desvincilho desse inferno que sua presença me insere, eu continuo. Me mantenho caminhando na solidão do seu corpo e na solidão de minha alma. E por mais que eu berre em súplicas mudas, internas e sôfregas, nada me separa da dor de saber que sua tez é tangível aos dedos, sem jamais poder sentir-te em alma. Alma, menina. Alma que ama, sente e dói. E a minha muito dói nas suas amáveis presenças que nada mais me conferem do que risos frouxos, ecos de um caos que se constrói seguidamente.

Continuamente morrendo, eu busco o que me salva disso tudo. Continuamente presa, me vejo num querer-te que não sustenta essa sala, essa porta de fuga, esse eu e você que nunca, por deus, nunca se tornam nós. E eu, bordada à cor de sangue por uma alegria que não é minha, que não há de ser minha, e que com suas chegadas frias, torna-se-á apenas uma flor murcha e sem perfume costurada em meu peito. Uma flor que finge-me alegria. A sua alegria. Finge pois a sua presença bagunça a casa, desorganiza os trajetos que, ainda meio tortos, tive paz para traçar. E como, minha pequena, admito que te preciso e que quero que fique mesmo sabendo que não pode, e de modo algum ficaria? Como me admito, olhando esse reflexo cru, duro, de mim que sou um grande vazio sem seu riso frouxo e solto? E que, mesmo parecendo que sua flor me borda mais e mais fundo, sou uma bebida derramada entre seus dedos? Pois te digo, no mais sórdido estupor, que tenho me tornado só uma pétala morta de sua flor deda. Uma alegria que só você sente e pode sentir. Uma alegria que te basta. E a mim, porra? E a mim que carrego um sem-perfume e sorrio nas presenças alheias, será que posso me sentar satisfeita de qualquer canto quase doce?

Pois a casa estava em paz, ainda que não muito organizada, a casa era minha. E agora é sua, toda sua. Em presença e em ausência. Nos passos que ouço, pesados, no andar de cima. Ainda que eu saiba que a casa está vazia. E a sua voz que ressoa ao lado, mesmo que eu saiba que o cômodo escuro não resguarda nenhuma presença física.

E como te toco sendo que o toque meu é tão mais intenso que o que você quer e pode me oferecer? Me diz, menina. Diz, antes que eu morra entre não saber entrar de vez nesse jogo de sufocar-me em você, e o perder-me de vez. Pois, enfim, te berro, morro em presença e ausência tua. Nessa minha extrema necessidade de me fazer tão o outro, tão o objeto de desejo, que me perco de mim, me escapo à alma, atravesso uma grande porta e a tranco. Não sei mais me ser. E amo. Amo de uma forma humanamente amante. Pois, sim, é tão humano isso: entregar-se a ponto de se perder por absoluto. É tão sordidamente humano, que me soa torpe.

E agora que atravessei essa minha porta, agora que o vento frio me desperta, agora que as cenas mudas me corroem por não serem amor, desafio meu limite suportante, e continuo num sussurro de mim, num pequeno arfar de quem sou por não saber ser mais nada longe de você. Sem saber me reconstruir, ou se algum dia já fui capaz de ser, eu continuo me bordando nisso que me fere. Nessa sua flor que reflete pesada demais em mim e eu continuo me admitindo carregá-la mesmo sem nunca me ser amor. Me sendo um peso cruel no peito. Um amor cru. Unilateral. Um amor que muito mais mata-me para virar amor, mas te atinge como uma pétala macia. Sua flor nua. Um amor inválido. Um sobreviver em mim pra viver de ti, mesmo que sem ao certo saber se vivo.

Quietação

Eramos a música lenta. Ritmo doce. 

Dos livros que não leu, você era todas as mais ardentes personagens. 

Eu faço soar, entre o emudecer do mundo, todos os sussurros do meu afeto, da malacia minha. Não te berro, pequena.

O meu acalanto é um tilintar cantante próximo aos ouvidos teus.

E mal te anuncio. Prendo-me a decorar-te.

Mas te renuncio. Te entrego, me engano. Fujo. Morro.

Eu te respiro e te desisto. Ah, menina, o mundo é uma roda cruel que não nos dará tempo de envelhecer. Morrendo jovens, iludidos e fantasiados de amor, de solidão, de bem-querer.

E eu te contorno com os dedos, vozes, sonoridades. E a gente se entrelaça porque nosso caos é uma bagunça sem mistérios. Onde a gente se acha e se perde, mas que perder-se ao teu lado me soa doce. Doce, pequena. E eu já disse que dos afetos meus, rima nenhuma corrobora entre nossos enfadonhos suspiros. 

Porque o mundo não nos explica. E quem há de ter necessidade de palavras quando tão somente a presença alheia traz a calmaria dos dias ternos? E ainda que o vento sopre lá fora, num sem fim de direções, minha paz é inerente em meu peito. E me assossego em tua presença.

Ainda que num futuro não tão calmo eu saiba que algo irá se romper, e mesmo que o medo de sua ausência me sopre um vazio que me confere assombros, entre seus toques presentes eu aceito, por deus, aceito a dor que possa vir.

E eu aceitei ouvir seu timbre. Me permitir o amor num tilintar, num brinde, numa bebida mais doce. 

Mas nada mais rege esses nossos traços. Porque quero me prender agora a você. E não me permito bordar-me em outro espaço que não em ti. E não me permito o ciúmes que não entre seus lábios. E não me permito o perfume que não me impregnando os poros.

E não hei de perdoar o tempo que, de certo, me roubará a paz, meu afeto, meu torpe romper de alma. Porque os romances são cartas mal escritas, sujas e inacabadas. Os romances são letras frias de quem não pode deitar-se ao lado do tremor do afeto. 

E, ainda, se eu pedisse, se eu pudesse pedir um suspiro teu, pediria aquele que me rouba tanto a paz. Que me assegura que mesmo num sem fim de anos, você lembrará de mim como quem não te leu romances.

Crítica Geração Prozac

Geração Prozac não me comprou. E não me refiro aos pontos de crítica de cortes de cena, cenários e atuação. Me identifiquei em algumas cenas, vivi até certo limite a personagem. Teve a identificação que esse tipo de filme promete, ou sugere, manter com o público.

Bem admito que esperava um daqueles filmes que precisa-se de horas pra ser digeridos. Que você constrói uma relação íntima com os personagens. Que a cena dói, o diálogo fere, que as letras sobem e, junto com o fim da música, vem o medo de se destroçar ao tentar sair do sofá.

Talvez a proposta do filme seja exatamente essa: não deixar o espectador se identificar, mas isso não ficou claro. As cenas sofriam cortes frios, onde toda a empatia com a protagonista se rompia. Me identifiquei, talvez, por estar mais próxima da situação do que a maioria do público que o assiste.

Isso me assusta. Olha só pra gente. Assistimos a um filme sobre a loucura, sobre a manutenção da sanidade, sobre o comprimir da nossa essência, e nem sabemos bem o que pensar. A personagem diz que a loucura estava lá, ainda estava, e continuaria a estar. Mais controlada, voltando a escrever, a ser quem ela não é. Como alguém sucumbe à normalidade de ser o que não é?

Meus remédios me alimentam a vida. Me deixam rente à linha de normalidade, sanidade, estou sociável. Mas e tudo o que sou submerge, encobre-se num ser sem fim e nunca mais. A loucura está aceita desde que devidamente medicada. Os remédios matam, alimentam. E o que me alimenta me destrói da cabeça aos pés.

Geração Prozac não é sobre a manipulação desenfreada de medicamentos, sobre a banalização da loucura. Não é sobre uma jornalista drogada e bêbada com problemas familiares que é emocionalmente desestruturada, sequer é sobre nossa incapacidade de viver sem dispender de poder sobre os outros. É sobre negar que somos tudo isso e que devemos não-ser. Não sermos loucos, pobres, sujos, presos na insônia, num dormir de 3 dias, presos em relacionamentos que nos estragam e entregam nossas neuroses. Porque a loucura não é um filme francês, um triângulo amoroso, um cigarro queimando. A loucura não é um filme de 3 horas que leva cerca de 6 minutos sentada na frente da televisão, após o término, ara ser digerido. A loucura é o que se retrata ali, após o prozac, após a droga: u não sei quem sou, e começo a descobrir que saberei cada vez menos enquanto me normalizo. Eu não vou chorar, porque as lágrimas já me faltam. Também não há mais brigas, nem tanta dor. Mas ainda há tudo isso aprisionado numa caixa pequena, compacta, dentro do peito. Ainda que pronta a explodir, ela não sucumbe à pressão. A caixa resiste. E a gente finge.

Todos os dias. Antes dos medicamentos a gente já fingia. Fingimos estar bem, sermos sociáveis, fingimos amar nossos amigos e fingimos retribuir os abraços quando eles nos dão abrigo. Fingimos estar bem, estarmos apenas chorando, apenas cansados.

Mas e depois? Fingimos estarmos satisfeitos com o remédio, com o ritmo da vida. Mesmo que estejamos mortos por querer e não mais poder chorar. Mesmo que a gente se sinto melhor, a gente só não se sente mais. Os prozacs nos engoliram e precisamos tanto deles que morrer é a falta da receita.

Desvincilhar

Caí no meu terrível estado de desligamento. Nada me salva, mas nada me afoga também. Besteira, minha pequena. Besteira é achar que tornar-se-á menos doloroso do que a desistência total. Minha pífia disposição de me lançar em busca de um novo começo ou, ainda, um fim definitivo, me corrói num pressuposto de não me deixar existir senão torpe e inexoravelmente dentro de mim num quase não mais existir, ou, infame, existir viva e cálida em ti, tão somente, mas suja e cruel num estado quase morto.

Te digo que o hoje o dia fere, pequena. Fere porque eu não consigo mais me eximir minhas palavras e deixar escorrer de mim o que dói. Se é que ainda há em mim alguma coisa que não seja uma ferida exposta. Eu sei, pequena, sei que temos essa sórdida essência humana de afeto e amor e apego e sofrimento. Mas eu entrei nisso de me deixar invadir. De te deixar invadir-me.

Ah, menina. Tão pouco que você sabe. E como hei de te dizer que sua presença me fere o cerne, mas sua ausência me destrói em todas as camadas do meu eu? Então te aceito em cada timbre, em cada costura torta e suja de mim, te aceito e te recebo mesmo sabendo, por deus, sabendo que você não ficará, não quer ficar. E, ainda, se pode, não quer. E morro por dentro. Morro, me dilacero, me quebro em um sem fim de pedaços ao me dar conta de que admito me despedaçar só para saber que ainda vivo. E que em minhas letras corridas, em meus cadernos amassados, que na porra da sala minha, é você que me insiste e me assegura uma vírgula a mais.

Agora me pego aqui, num sofá marrom velho, estranho e desconfortável, mesmo que ele já tenha me parecido tão aconchegante. Me pego agora com uma bebida que é amarga demais, mas era você que adoçava as minhas. Com um cigarro aceso prestes a me queimar os dedos. E não ligo. Menina, não me importo se as cinzas caem em mim ou de mim. Agora tudo é um eco mudo. Mudo. Eu sou um estranho retrocesso de te ter e não saber se tenho. Morrendo pela ausência tua. Consumida pela extrema presença. Sabendo que estou em ti, inextricável, mesmo sem saber se estou. E me perder solta ao léu, sabendo que não termino nunca de cair, pois sua rede me rompe o sem limites.

E o que eu faço? Me diz. Me berra o que fazer, pois nessas ausências minhas, nessas infames vertentes que me regem um sem rumo, eu me abraço fundo, caindo num buraco meu, onde não há quem me resgate, ainda que eu eu implore, entre linhas que não te escrevo, que você me salve. Me puxe, me dê ar.

E tudo que sei é que vou me sentar nesse canto meio enebriado e esperar. Nesse canto de uma relação onde eu, e tão somente eu, tenho mantido e acreditado. Vou me aconchegar num espaço seu e contornar meus desenhos em ti, enquanto espero tudo desmoronar de vez. Porque é isso, ridiculamente isso que irá acontecer. Eu vou me assegurar no amor que te tenho, nesse afeto deslumbrado, e aguardar você me mandar embora. Por uma dezena de outras vezes, como repetidamente têm sido. O aguardar do término. Meu esperar cruel pela dor que eu sei que vem. Embrulhada num antro de afeição e afeto, eu espero pelo dia que me quebrarás, me mandarás embora outra vez. Porque nós sabemos, pequena, sabemos que o amor é um caminho curto onde um dos lados não sabe ou não pode atravessar. Um caminho frio onde a gente também não percebe a hora de dar adeus.

E eu que, mesmo presa em minhas manias de escrever para não sufocar, não sei mais dizer, pronunciar. Eu, mesmo tão chorosa em minhas verdades, não aguento mais correr em direção ao frio que me mata. E não sei, por deus, nunca soube dizer adeus. Por fim, te escrevo, ainda que sem saber ao certo o remetente, que aguardo, carregando o afeto meu em ambas as mãos, bolsos, num peso sobrenatural. Num peso que me enforca, machuca e maltrata. Ainda que não o largue, não seja capaz de largar, eu asseguro, pequena, que atravesso o caminho contigo. E peço, por fim, me diz quando acabar. Despedidas me destroçam a alma. Mas as ausências me matam sem, jamais, me tirar a vida.

Antes do fim

E eu, o que te escrevo agora? Escrevo pra tentar tirar de mim o que tanto me pesa? Escrevo pra dizer que soube, por deus, soube todo o tempo que você não veio? Digo que eu sempre soube que sua chegada foi mansa, porém repleta de um nunca-chegar de fato?

E aceitei. Como alguém que aceita um sofrimento maior apenas pelo ínfimo prazer que terá até a dor atingir o cerne. Te aceitei negando e me negando, me enganando, me distraindo da dor que logo me tomaria pelos braços, e me afogaria num sem fim de mazelas destroçantes, amargas, cruas e infiéis. Como se eu me permitisse à dor só para lembrar que ainda posso, meu deus, posso sentir.

Mesmo sabendo que suas ruas friamente cruzavam as minhas, eu aceitei. Porra, eu me deixei querer-te mais do que havia de ser aceitável. Mais do que minha voz suportou dizer, mais do que meus dedos tocaram sua tez pálida, mais do que eu me admiti, aceitei. Atravessei minhas ruas de medo e receio, entrelacei passos crus com a certeza de que logo os dias seriam sombrios, quebrados e rompidos por uma dor sórdida, dilacerante. Eu sei, eu sempre soube, que se me deixasse cair entre dedos seus, eu logo escorregaria mais do que suportaria escorregar. E que me deixaria esvair entre toques que bem queria ter, mas – por deus! – não teria. E aceitei de um modo cruel, ainda mais e cada vez mais torpe, te deixei entrar, ficar e quis-te mais do que a mim. Como um amor doloroso que se aceita apenas por mais bem querer ao outro do que a si mesmo.

Te almejo mais do que me suporto. Se são traços seus, você nesses olhos que me roubam a paz. Ou se, enfim, acreditei encontrar alguém que me roube de mim. Porque você me rouba, porra! Você, entre suas certezas e presenças, me garante uma fuga que me assossega, me abstraí, me atraí num sôfrego desejar-te mais do que posso, e sei que deveria.

Mas aceitei, como um risco a ser genuinamente corrido, aceitei me ferir no final. Aceitei a dor que vai me tomar daqui a poucos passos, aceitei a dor fria me puxando pelos pulsos. Porque eu sei, e só eu sei o quanto, preciso que me roubem, me corrompam de mim. Preciso dos meus risos, ainda que sejam mais ecos em mim. Preciso me assegurar de sua presença, ainda que as distâncias me matem. Preciso do perdão teu, ainda que nada tenha te atingido, ferido. Ainda que eu seja um tilintar teu, um ritmo repetitivo de tudo que me é, porque, por deus, você me é de corpo, alma, cerne e sofridão. E há de me fazer sofrer. Pois sei, na mais pura consciência e ingenuidade que me escorre a face, sei que não posso querer e nem você quer esse peso torto que é a vontade de me ser. Nem a possibilidade. Mas te tomo, me bordo, tinjo, costuro e moldo nesse você tão bem quisto, que viro um ser risonho. Um alguém que se admite, ainda que temporariamente, feliz por ser alguém tomado pela esperança de me roubarem do meu caos.

Ainda que vá doer, e eu sei que vai. Como um sopro frio. Ainda que me fira e destroce todos os timbres do meu eu. Te almejo, bordo, traço, te mantenho próximo. Ainda que a ausência ferida pareça ainda mais aconchegante, a dor que vem não me assusta.

E agora me pego presa nessa sala que sou eu. Essa foto que sou eu. Um pedaço meu. Grande demais para ficar dentro, quieto e confortável em mim. E quando a gente contorna os traços, sofre com as ausências, porra, quando sua presença me é tão mais reconforto do que a fuga de mim, o que faço?

Sei, por deus, como sei a dor que isso me causará. Como sei o tamanho da ferida que será exposta em mim, ainda que eu engula a dor, vai me dilacerar. Ainda que eu, presa nessa minha ânsia por sobreviver, tenha me deixado ser qualquer coisa a mais que doa além de tão somente o que já me rasga por dentro.

Pois entrei naquele ridículo estado de transgressão do meu ser amante. Me nego, como se houvesse a possibilidade de me aceitar em plena concordância, mas entro num espectro de retrocesso cada vez mais complexo. Me nego, me subjugo, me exilo de mim. Porra, me eximo de tudo que sou, e vou me preenchendo mais e cada vez mais de você. Do seu timbre que ressoa oco em minha mente. Do seu toque que arrepia. Mesmo sem poder. Mesmo a gente sabendo que o que virá será um corte frio e doloroso, a gente segue num jogo sem grandes disputas, senão essa pife ânsia de jogar.

Mas eu me abstraí mais e mais. Me sucumbi ao que, por deus, jurei não mais me permitir: deixar alguém me adentrar a casa nessa vontade de preencher os cômodos. Me preencher. E o que farei quando essa sala for de um repetir silencioso de sua ausência? Porque, porra, a gente sabe, a gente tem essa plena e amarga certeza  de que isso vai nos tomar como um soco seco. Mas, ainda assim, insistimos. Numa costura dolorosa, que fere e sangra a pele. A gente segue. Num bordado sagaz e docemente aveludado, que nos une. Nos une? Por deus, me une. Me costura no âmago teu. Me insere dentro e cada vez mais fundo dessa dor que está por vir. E vem. Vem, porque suas idas são tão mais pesadas. E suas ausências são tão mais sofridas. Em dias e noites frias. E quentes. E mornas. E nos segundos que seus olhos não são meus. E nos dias que sua fala me deixa a sensação de que algo me escapa. E quando o medo me doma numa ânsia por te ter entre meus versos e dedos e cores e timbres, mas me garanto que tudo isso passa. E me calo. Porra, me calo numa certeza de que você sabe bem o caos que me rodeia, e ainda assim me assossega sabendo do desastre iminente. Você cala, pois sabe que a dor te tomará. E que a dúvida te mantém longe, mas te mantém tão dolorosamente perto, sem sabermos ao certo o que e quem e como se entrelaça o afeto desconcertante que nos mata e alimenta, e corrói, e constrói, e afunda esse meu eu em ti.

E como eu queria me assegurar que os dias correriam eternamente nesse tilintar, ainda que dolorido, ritmado. Não, por deus, a paz está incontavelmente longe, distante. Mas o caos é um meio termo que ainda não mergulhei. E quando caminho, e quando seus olhos me trançam as pernas. E quando os dias tocam num tilinte doce que me repete uma fala solta. E quando toda a merda que me garante que tenho te guardado dentro e cada vez mais fundo em meus bolsos, chega, e quando tudo isso me sufoca sendo o meu próprio socorro, eu sei que nada me garante a serenidade.

Eu sei que os textos tornam-se longos. Que a sala fica muda. E que me construo um emaranhado amedrontado. Onde sei, e tão somente sei, que o silêncio me pesa. A voz me pesa. E o desconforto me sacode em um choro mudo, seco, interno. E sei que sua presença me acomoda, mas machuca. E que metade de mim implora pela paz, pela casa vazia, pelo silêncio que não vem. Mas a outra metade morre em suas partidas. E nas presenças a dor corrói. E nas constâncias, sou eu quem te devora. Te desnuda de corpo e alma. Como numa devolutiva onde me sinto vazia: de mim. Dos meus pecados, dos meus medos. E tudo que é meu, se esvai em suas chegadas. Me assossega. Me deixa livre de mim numa paz que me sucumbo. Mas me aterroriza em medos de suas partidas, ausências, despedidas.

E o medo do seu riso doce já não ser mais tão doce em seus próximas vendas. E que suas vindas já não sejam mais tão rítmicas. E como tornamo-nos sórdidos ao almejar tanto esse querer-mais-do-que-se-deve, mas como me traio ao engolir a casca desse meu te devorar. E, sim, me sinto dum vazio fúnebre ao devorar meus desejos de você pelo fato dissonante de querer-te em mim, pra mim, e por medo não te pronunciar nada.

E te admito que te esmago em minhas dúvidas. Te nego que não sei dos riscos. E que, se sei, não os admito, não os aprovo. Como se saber que logo a sua partida meu desmanchará. Que logo, porra, logo tudo o que me sustenta os dias, será uma mancha indecifrável do que sobrou de nós. De mim. Disso que acredito sermos tudo, mas resta apenas o que sou. Se sou.