Antes do fim

E eu, o que te escrevo agora? Escrevo pra tentar tirar de mim o que tanto me pesa? Escrevo pra dizer que soube, por deus, soube todo o tempo que você não veio? Digo que eu sempre soube que sua chegada foi mansa, porém repleta de um nunca-chegar de fato?

E aceitei. Como alguém que aceita um sofrimento maior apenas pelo ínfimo prazer que terá até a dor atingir o cerne. Te aceitei negando e me negando, me enganando, me distraindo da dor que logo me tomaria pelos braços, e me afogaria num sem fim de mazelas destroçantes, amargas, cruas e infiéis. Como se eu me permitisse à dor só para lembrar que ainda posso, meu deus, posso sentir.

Mesmo sabendo que suas ruas friamente cruzavam as minhas, eu aceitei. Porra, eu me deixei querer-te mais do que havia de ser aceitável. Mais do que minha voz suportou dizer, mais do que meus dedos tocaram sua tez pálida, mais do que eu me admiti, aceitei. Atravessei minhas ruas de medo e receio, entrelacei passos crus com a certeza de que logo os dias seriam sombrios, quebrados e rompidos por uma dor sórdida, dilacerante. Eu sei, eu sempre soube, que se me deixasse cair entre dedos seus, eu logo escorregaria mais do que suportaria escorregar. E que me deixaria esvair entre toques que bem queria ter, mas – por deus! – não teria. E aceitei de um modo cruel, ainda mais e cada vez mais torpe, te deixei entrar, ficar e quis-te mais do que a mim. Como um amor doloroso que se aceita apenas por mais bem querer ao outro do que a si mesmo.

Te almejo mais do que me suporto. Se são traços seus, você nesses olhos que me roubam a paz. Ou se, enfim, acreditei encontrar alguém que me roube de mim. Porque você me rouba, porra! Você, entre suas certezas e presenças, me garante uma fuga que me assossega, me abstraí, me atraí num sôfrego desejar-te mais do que posso, e sei que deveria.

Mas aceitei, como um risco a ser genuinamente corrido, aceitei me ferir no final. Aceitei a dor que vai me tomar daqui a poucos passos, aceitei a dor fria me puxando pelos pulsos. Porque eu sei, e só eu sei o quanto, preciso que me roubem, me corrompam de mim. Preciso dos meus risos, ainda que sejam mais ecos em mim. Preciso me assegurar de sua presença, ainda que as distâncias me matem. Preciso do perdão teu, ainda que nada tenha te atingido, ferido. Ainda que eu seja um tilintar teu, um ritmo repetitivo de tudo que me é, porque, por deus, você me é de corpo, alma, cerne e sofridão. E há de me fazer sofrer. Pois sei, na mais pura consciência e ingenuidade que me escorre a face, sei que não posso querer e nem você quer esse peso torto que é a vontade de me ser. Nem a possibilidade. Mas te tomo, me bordo, tinjo, costuro e moldo nesse você tão bem quisto, que viro um ser risonho. Um alguém que se admite, ainda que temporariamente, feliz por ser alguém tomado pela esperança de me roubarem do meu caos.

Ainda que vá doer, e eu sei que vai. Como um sopro frio. Ainda que me fira e destroce todos os timbres do meu eu. Te almejo, bordo, traço, te mantenho próximo. Ainda que a ausência ferida pareça ainda mais aconchegante, a dor que vem não me assusta.

E agora me pego presa nessa sala que sou eu. Essa foto que sou eu. Um pedaço meu. Grande demais para ficar dentro, quieto e confortável em mim. E quando a gente contorna os traços, sofre com as ausências, porra, quando sua presença me é tão mais reconforto do que a fuga de mim, o que faço?

Sei, por deus, como sei a dor que isso me causará. Como sei o tamanho da ferida que será exposta em mim, ainda que eu engula a dor, vai me dilacerar. Ainda que eu, presa nessa minha ânsia por sobreviver, tenha me deixado ser qualquer coisa a mais que doa além de tão somente o que já me rasga por dentro.

Pois entrei naquele ridículo estado de transgressão do meu ser amante. Me nego, como se houvesse a possibilidade de me aceitar em plena concordância, mas entro num espectro de retrocesso cada vez mais complexo. Me nego, me subjugo, me exilo de mim. Porra, me eximo de tudo que sou, e vou me preenchendo mais e cada vez mais de você. Do seu timbre que ressoa oco em minha mente. Do seu toque que arrepia. Mesmo sem poder. Mesmo a gente sabendo que o que virá será um corte frio e doloroso, a gente segue num jogo sem grandes disputas, senão essa pife ânsia de jogar.

Mas eu me abstraí mais e mais. Me sucumbi ao que, por deus, jurei não mais me permitir: deixar alguém me adentrar a casa nessa vontade de preencher os cômodos. Me preencher. E o que farei quando essa sala for de um repetir silencioso de sua ausência? Porque, porra, a gente sabe, a gente tem essa plena e amarga certeza  de que isso vai nos tomar como um soco seco. Mas, ainda assim, insistimos. Numa costura dolorosa, que fere e sangra a pele. A gente segue. Num bordado sagaz e docemente aveludado, que nos une. Nos une? Por deus, me une. Me costura no âmago teu. Me insere dentro e cada vez mais fundo dessa dor que está por vir. E vem. Vem, porque suas idas são tão mais pesadas. E suas ausências são tão mais sofridas. Em dias e noites frias. E quentes. E mornas. E nos segundos que seus olhos não são meus. E nos dias que sua fala me deixa a sensação de que algo me escapa. E quando o medo me doma numa ânsia por te ter entre meus versos e dedos e cores e timbres, mas me garanto que tudo isso passa. E me calo. Porra, me calo numa certeza de que você sabe bem o caos que me rodeia, e ainda assim me assossega sabendo do desastre iminente. Você cala, pois sabe que a dor te tomará. E que a dúvida te mantém longe, mas te mantém tão dolorosamente perto, sem sabermos ao certo o que e quem e como se entrelaça o afeto desconcertante que nos mata e alimenta, e corrói, e constrói, e afunda esse meu eu em ti.

E como eu queria me assegurar que os dias correriam eternamente nesse tilintar, ainda que dolorido, ritmado. Não, por deus, a paz está incontavelmente longe, distante. Mas o caos é um meio termo que ainda não mergulhei. E quando caminho, e quando seus olhos me trançam as pernas. E quando os dias tocam num tilinte doce que me repete uma fala solta. E quando toda a merda que me garante que tenho te guardado dentro e cada vez mais fundo em meus bolsos, chega, e quando tudo isso me sufoca sendo o meu próprio socorro, eu sei que nada me garante a serenidade.

Eu sei que os textos tornam-se longos. Que a sala fica muda. E que me construo um emaranhado amedrontado. Onde sei, e tão somente sei, que o silêncio me pesa. A voz me pesa. E o desconforto me sacode em um choro mudo, seco, interno. E sei que sua presença me acomoda, mas machuca. E que metade de mim implora pela paz, pela casa vazia, pelo silêncio que não vem. Mas a outra metade morre em suas partidas. E nas presenças a dor corrói. E nas constâncias, sou eu quem te devora. Te desnuda de corpo e alma. Como numa devolutiva onde me sinto vazia: de mim. Dos meus pecados, dos meus medos. E tudo que é meu, se esvai em suas chegadas. Me assossega. Me deixa livre de mim numa paz que me sucumbo. Mas me aterroriza em medos de suas partidas, ausências, despedidas.

E o medo do seu riso doce já não ser mais tão doce em seus próximas vendas. E que suas vindas já não sejam mais tão rítmicas. E como tornamo-nos sórdidos ao almejar tanto esse querer-mais-do-que-se-deve, mas como me traio ao engolir a casca desse meu te devorar. E, sim, me sinto dum vazio fúnebre ao devorar meus desejos de você pelo fato dissonante de querer-te em mim, pra mim, e por medo não te pronunciar nada.

E te admito que te esmago em minhas dúvidas. Te nego que não sei dos riscos. E que, se sei, não os admito, não os aprovo. Como se saber que logo a sua partida meu desmanchará. Que logo, porra, logo tudo o que me sustenta os dias, será uma mancha indecifrável do que sobrou de nós. De mim. Disso que acredito sermos tudo, mas resta apenas o que sou. Se sou.

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