Desvincilhar

Caí no meu terrível estado de desligamento. Nada me salva, mas nada me afoga também. Besteira, minha pequena. Besteira é achar que tornar-se-á menos doloroso do que a desistência total. Minha pífia disposição de me lançar em busca de um novo começo ou, ainda, um fim definitivo, me corrói num pressuposto de não me deixar existir senão torpe e inexoravelmente dentro de mim num quase não mais existir, ou, infame, existir viva e cálida em ti, tão somente, mas suja e cruel num estado quase morto.

Te digo que o hoje o dia fere, pequena. Fere porque eu não consigo mais me eximir minhas palavras e deixar escorrer de mim o que dói. Se é que ainda há em mim alguma coisa que não seja uma ferida exposta. Eu sei, pequena, sei que temos essa sórdida essência humana de afeto e amor e apego e sofrimento. Mas eu entrei nisso de me deixar invadir. De te deixar invadir-me.

Ah, menina. Tão pouco que você sabe. E como hei de te dizer que sua presença me fere o cerne, mas sua ausência me destrói em todas as camadas do meu eu? Então te aceito em cada timbre, em cada costura torta e suja de mim, te aceito e te recebo mesmo sabendo, por deus, sabendo que você não ficará, não quer ficar. E, ainda, se pode, não quer. E morro por dentro. Morro, me dilacero, me quebro em um sem fim de pedaços ao me dar conta de que admito me despedaçar só para saber que ainda vivo. E que em minhas letras corridas, em meus cadernos amassados, que na porra da sala minha, é você que me insiste e me assegura uma vírgula a mais.

Agora me pego aqui, num sofá marrom velho, estranho e desconfortável, mesmo que ele já tenha me parecido tão aconchegante. Me pego agora com uma bebida que é amarga demais, mas era você que adoçava as minhas. Com um cigarro aceso prestes a me queimar os dedos. E não ligo. Menina, não me importo se as cinzas caem em mim ou de mim. Agora tudo é um eco mudo. Mudo. Eu sou um estranho retrocesso de te ter e não saber se tenho. Morrendo pela ausência tua. Consumida pela extrema presença. Sabendo que estou em ti, inextricável, mesmo sem saber se estou. E me perder solta ao léu, sabendo que não termino nunca de cair, pois sua rede me rompe o sem limites.

E o que eu faço? Me diz. Me berra o que fazer, pois nessas ausências minhas, nessas infames vertentes que me regem um sem rumo, eu me abraço fundo, caindo num buraco meu, onde não há quem me resgate, ainda que eu eu implore, entre linhas que não te escrevo, que você me salve. Me puxe, me dê ar.

E tudo que sei é que vou me sentar nesse canto meio enebriado e esperar. Nesse canto de uma relação onde eu, e tão somente eu, tenho mantido e acreditado. Vou me aconchegar num espaço seu e contornar meus desenhos em ti, enquanto espero tudo desmoronar de vez. Porque é isso, ridiculamente isso que irá acontecer. Eu vou me assegurar no amor que te tenho, nesse afeto deslumbrado, e aguardar você me mandar embora. Por uma dezena de outras vezes, como repetidamente têm sido. O aguardar do término. Meu esperar cruel pela dor que eu sei que vem. Embrulhada num antro de afeição e afeto, eu espero pelo dia que me quebrarás, me mandarás embora outra vez. Porque nós sabemos, pequena, sabemos que o amor é um caminho curto onde um dos lados não sabe ou não pode atravessar. Um caminho frio onde a gente também não percebe a hora de dar adeus.

E eu que, mesmo presa em minhas manias de escrever para não sufocar, não sei mais dizer, pronunciar. Eu, mesmo tão chorosa em minhas verdades, não aguento mais correr em direção ao frio que me mata. E não sei, por deus, nunca soube dizer adeus. Por fim, te escrevo, ainda que sem saber ao certo o remetente, que aguardo, carregando o afeto meu em ambas as mãos, bolsos, num peso sobrenatural. Num peso que me enforca, machuca e maltrata. Ainda que não o largue, não seja capaz de largar, eu asseguro, pequena, que atravesso o caminho contigo. E peço, por fim, me diz quando acabar. Despedidas me destroçam a alma. Mas as ausências me matam sem, jamais, me tirar a vida.

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