Crítica Geração Prozac

Geração Prozac não me comprou. E não me refiro aos pontos de crítica de cortes de cena, cenários e atuação. Me identifiquei em algumas cenas, vivi até certo limite a personagem. Teve a identificação que esse tipo de filme promete, ou sugere, manter com o público.

Bem admito que esperava um daqueles filmes que precisa-se de horas pra ser digeridos. Que você constrói uma relação íntima com os personagens. Que a cena dói, o diálogo fere, que as letras sobem e, junto com o fim da música, vem o medo de se destroçar ao tentar sair do sofá.

Talvez a proposta do filme seja exatamente essa: não deixar o espectador se identificar, mas isso não ficou claro. As cenas sofriam cortes frios, onde toda a empatia com a protagonista se rompia. Me identifiquei, talvez, por estar mais próxima da situação do que a maioria do público que o assiste.

Isso me assusta. Olha só pra gente. Assistimos a um filme sobre a loucura, sobre a manutenção da sanidade, sobre o comprimir da nossa essência, e nem sabemos bem o que pensar. A personagem diz que a loucura estava lá, ainda estava, e continuaria a estar. Mais controlada, voltando a escrever, a ser quem ela não é. Como alguém sucumbe à normalidade de ser o que não é?

Meus remédios me alimentam a vida. Me deixam rente à linha de normalidade, sanidade, estou sociável. Mas e tudo o que sou submerge, encobre-se num ser sem fim e nunca mais. A loucura está aceita desde que devidamente medicada. Os remédios matam, alimentam. E o que me alimenta me destrói da cabeça aos pés.

Geração Prozac não é sobre a manipulação desenfreada de medicamentos, sobre a banalização da loucura. Não é sobre uma jornalista drogada e bêbada com problemas familiares que é emocionalmente desestruturada, sequer é sobre nossa incapacidade de viver sem dispender de poder sobre os outros. É sobre negar que somos tudo isso e que devemos não-ser. Não sermos loucos, pobres, sujos, presos na insônia, num dormir de 3 dias, presos em relacionamentos que nos estragam e entregam nossas neuroses. Porque a loucura não é um filme francês, um triângulo amoroso, um cigarro queimando. A loucura não é um filme de 3 horas que leva cerca de 6 minutos sentada na frente da televisão, após o término, ara ser digerido. A loucura é o que se retrata ali, após o prozac, após a droga: u não sei quem sou, e começo a descobrir que saberei cada vez menos enquanto me normalizo. Eu não vou chorar, porque as lágrimas já me faltam. Também não há mais brigas, nem tanta dor. Mas ainda há tudo isso aprisionado numa caixa pequena, compacta, dentro do peito. Ainda que pronta a explodir, ela não sucumbe à pressão. A caixa resiste. E a gente finge.

Todos os dias. Antes dos medicamentos a gente já fingia. Fingimos estar bem, sermos sociáveis, fingimos amar nossos amigos e fingimos retribuir os abraços quando eles nos dão abrigo. Fingimos estar bem, estarmos apenas chorando, apenas cansados.

Mas e depois? Fingimos estarmos satisfeitos com o remédio, com o ritmo da vida. Mesmo que estejamos mortos por querer e não mais poder chorar. Mesmo que a gente se sinto melhor, a gente só não se sente mais. Os prozacs nos engoliram e precisamos tanto deles que morrer é a falta da receita.

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