Despetalar

Quantas vezes teremos que nos despedir, mesmo que sem nunca dizer adeus?

Te pergunto, menina, nessa insensatez de um silêncio cortante. Porque, te admito, morro entre palavras que não digo, não ouso e nem sei se consigo. Me situo nesse eco, nesse vão entre o que eu demonstro e o que eu quero expor, berrar, chafurdar entre palavras cruas de um te bem querer mais do que posso suportar.

Antes de mais uma despedida, antes de uma morte fria minha, o silêncio do que não acontece paira entre tudo que sufocamos. Porque o filme corre na televisão fria, corre entre cenas que berram amor, afeto, cenas que me expõe as mãos entrelaçadas, os dedos que tocam peles arrepiadas, a respiração que sufoca fria e cálida a paixão. Paixão, porra. Eu que me retorço presa nessa minha angústia de não te dizer, não poder dizer, que te guardo em mim numa ânsia de te ter sem jamais, por deus, jamais ter de fato.

E construo-me, me moldo, relevo, costuro entre seus afetos o que sou. E me reconstruo, morta. Morta. Dilacerando em cada vez que me nego a te admitir. Mas não pense, menina, que não me dói. Porque a dor é pouca perto do estraçalhar que me consome ao viver e morrer perante sua presença. E ainda mais em sua ausência.

Por deus, eu caminho em direção à sensatez se sobreviver em mim, sozinha, me afunda num sem fim de solidão, mas estar em você, presente, me torna um recipiente frio e maleável diante outrem. Porque, te digo, você me apresentou à alegria. Você a trouxe puxada pelas mãos como uma velha conhecida, e eu a recebi como uma flor morta, sem perfume, quase sem pétalas. Ainda que cuidando, repousando-a numa janela ensolarada, sua alegria é tão mais densa em sua presença. Ainda que morta em mim.

Pois mesmo na mais pura presença tua, me sinto plena em solidão. Presa num estar-me só a não ser em sua companhia. A crueldade do desamor é essa solidão de hora marcada, de chegadas pontuais, de partidas doloridas. Pois morro em suas idas, mesmo sabendo que suas voltas serão breves. Sabendo que o toque, ainda que sensível, me soa frio, intangível. Pois te desejo de um jeito que não me cabe, não me suporta, não nos suporta. E a solidão ardida me fere o cerne. E a verdade é que a dor se concebe quando vejo, por deus, vejo que não tenho a capacidade de carregar essa flor ao estar distante de ti, menina. Então estou constantemente presa no meu ato amante sem amor, no meu querer mais que bem querer, no meu precisar-te, num choro seco e mudo, interno, frio, num choro que não se sustenta. Pois a solidão caminha em passos largos, ao meu lado, em um ritmo constante, que não consigo escapar. A solidão ainda que de alma, ainda que de corpo, me segue e constrói em mim um muro de dor. E quantas vezes nos despediríamos essa noite? Essa vida? Por todas as vidas que existem e haverão de habitar a presença de uma flor quase morta, não admito que isso seja o que chamam de amor.

Minha angústia se constrói em suas despedidas, e a a minha dor é saber que meu limite rompe todos os seus. Rompem e me arrastam pra um caos que me devora por dentro. Sem saber, menina, sem saber como me desvincilho desse inferno que sua presença me insere, eu continuo. Me mantenho caminhando na solidão do seu corpo e na solidão de minha alma. E por mais que eu berre em súplicas mudas, internas e sôfregas, nada me separa da dor de saber que sua tez é tangível aos dedos, sem jamais poder sentir-te em alma. Alma, menina. Alma que ama, sente e dói. E a minha muito dói nas suas amáveis presenças que nada mais me conferem do que risos frouxos, ecos de um caos que se constrói seguidamente.

Continuamente morrendo, eu busco o que me salva disso tudo. Continuamente presa, me vejo num querer-te que não sustenta essa sala, essa porta de fuga, esse eu e você que nunca, por deus, nunca se tornam nós. E eu, bordada à cor de sangue por uma alegria que não é minha, que não há de ser minha, e que com suas chegadas frias, torna-se-á apenas uma flor murcha e sem perfume costurada em meu peito. Uma flor que finge-me alegria. A sua alegria. Finge pois a sua presença bagunça a casa, desorganiza os trajetos que, ainda meio tortos, tive paz para traçar. E como, minha pequena, admito que te preciso e que quero que fique mesmo sabendo que não pode, e de modo algum ficaria? Como me admito, olhando esse reflexo cru, duro, de mim que sou um grande vazio sem seu riso frouxo e solto? E que, mesmo parecendo que sua flor me borda mais e mais fundo, sou uma bebida derramada entre seus dedos? Pois te digo, no mais sórdido estupor, que tenho me tornado só uma pétala morta de sua flor deda. Uma alegria que só você sente e pode sentir. Uma alegria que te basta. E a mim, porra? E a mim que carrego um sem-perfume e sorrio nas presenças alheias, será que posso me sentar satisfeita de qualquer canto quase doce?

Pois a casa estava em paz, ainda que não muito organizada, a casa era minha. E agora é sua, toda sua. Em presença e em ausência. Nos passos que ouço, pesados, no andar de cima. Ainda que eu saiba que a casa está vazia. E a sua voz que ressoa ao lado, mesmo que eu saiba que o cômodo escuro não resguarda nenhuma presença física.

E como te toco sendo que o toque meu é tão mais intenso que o que você quer e pode me oferecer? Me diz, menina. Diz, antes que eu morra entre não saber entrar de vez nesse jogo de sufocar-me em você, e o perder-me de vez. Pois, enfim, te berro, morro em presença e ausência tua. Nessa minha extrema necessidade de me fazer tão o outro, tão o objeto de desejo, que me perco de mim, me escapo à alma, atravesso uma grande porta e a tranco. Não sei mais me ser. E amo. Amo de uma forma humanamente amante. Pois, sim, é tão humano isso: entregar-se a ponto de se perder por absoluto. É tão sordidamente humano, que me soa torpe.

E agora que atravessei essa minha porta, agora que o vento frio me desperta, agora que as cenas mudas me corroem por não serem amor, desafio meu limite suportante, e continuo num sussurro de mim, num pequeno arfar de quem sou por não saber ser mais nada longe de você. Sem saber me reconstruir, ou se algum dia já fui capaz de ser, eu continuo me bordando nisso que me fere. Nessa sua flor que reflete pesada demais em mim e eu continuo me admitindo carregá-la mesmo sem nunca me ser amor. Me sendo um peso cruel no peito. Um amor cru. Unilateral. Um amor que muito mais mata-me para virar amor, mas te atinge como uma pétala macia. Sua flor nua. Um amor inválido. Um sobreviver em mim pra viver de ti, mesmo que sem ao certo saber se vivo.

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