Não me deixe até ir embora

Retornei ao meu estágio de medo e receio. Onde tudo me fere, mas tudo me causa ojeriza. Uma dor tão repugnante que não basta, por si só, doer. Ela me fere, rasga o âmago, insere-se num antro desalojado de mim. Uma dor tão fria e sagaz que dói desumanamente sem nunca ter espaço de dilacerar. Isso que cresce em meu peito é um caos amargo, uma pedra suja e não polida de desassossego. Isso que me causa ardência, nunca penetra tão fundo na minha alma a ponto de me tirar a esperança. Isso que me corrói a fringe, que me mata e rouba o ar, não é lúcido o bastante pra me fazer parar. Uma dor incômoda que me faz caminhar. Que bobagem, menina! Somos todos corpos frios, expostos a um sem fim de solidão. Solidão! Então me abraça agora. como se o mundo fosse capaz de nos engolir agora. Porque sua solidão, casualmente, se costura a minha. Porque somos um amontoado de almas cálidas, pedindo por um momento mágico de atenção. E você, me diz, pequena, me diz como se encarrega desse amedrontamento todo. Me diz como a música soa doce aos seus segredos. E os laços são frágeis, mas ouço-me num tilintar sôfrego sempre que te vejo. E busco, por deus, busco insistentemente te ver. E te ter, mesmo na mais pura essência de saber que não tenho e não posso ter. Mas quero. Quero num precisar mais que a mim. Quero num grito seco de salvar-me porque em ti, e tão somente em ti, eu sou alguma coisa. Coisa essa que não sei se sou ou posso, de fato, ser. Mas, como alguém que se tamborila frequentemente, eu me achei nos seus ritmos. E eu, que nunca soube ao certo, o que sou me encontro em paz perto da tez doce que contrasta tanto a minha. E me bordo, assim, pedaços e fragmentos desse meu não-saber-quem sou, num desenho doce, sutil, ameno, me bordo e me vejo em você. Então te imploro que não me deixe até ir embora. Porque sei que vai. E que nesse dia levará contigo toda essa paz que agora me rege. Sei que terá nos bolsos pedaços meus que sequer quererá carregar. Mas, por deus, seja minha, seja eu, enquanto ficar, e me deixa ser. Ainda que pouco, que suja, fria ou desnorteante, deixa-me ser.. Enquanto estiver, de fato, esteja. E quando for, quando achar minha solidão bordada em suas mangas, tenta ouvir que sussurrei meus ecos de um caos sufocante, desse pouco que não saberei mais ser. 

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