Café de inverno

Eu queria ter dito que esses últimos dias foram leves e doces como deveriam ter sido. Queria te berrar do alto da minha janela que nada me atingiu, que os ventos sopraram na direção certa e que nem senti o eco que essa casa fez.

Mas é mentira. É mentira porque me debrucei dia após dia na janela que você comumente ficava escorada. É mentira porque sua xícara de café meio vazia, meio amargo, ainda está repousada na mesa de centro. Sua música ainda toca incansável no rádio. Por deus, sua presença ainda está tão aqui como se jamais tivesse havido um segundo de ausências suas. 

Queria ter dito que fiz a coisa certa quando te abri a porta, quando te permiti ir. Mas queria ter dito que fiz a coisa errada. E eu sei que não fiz nenhuma das duas. Pois sua presença me era sufoco. Engasgo. Era te ter em mim mais do que eu mesma. Era te comer, engolir, provar e me habitar de você. Era me moldar ao que você tanto quisera que eu fosse, sem ter espeço pra me ser, nunca mais. Mas as suas ausências me ferem o cerne, o mais profundo do meu eu.

Vou me escorando num canto escuro de mim, porque, por deus, eu não sei me ser. Não sei carregar só esse fardo ojerizante de me ser. Preciso de um afeto, um apego salvado que me sirva de caminho, estrada trêmula pra me guiar, ainda que isso me roube de mim. 

As minhas janelas ficaram ocupadas de você, e por mais que o silêncio que habitava o espaço entre nós te berrasse pra partir, pra me deixar em paz, pra me devolver a paz de ser eu mesma, a tênue ideia de te vislumbrar viver num só ser que não eu me corroía as entranhas. Porque amar é uma coisa egoísta, um jogo amargo. Eu lhe dava todo o meu amor e morria em pedaços seus. Pedaços que me doem, me ferem e me amargam a alma.

E agora que o café esfriou, que o banho quente já não me acalenta o corpo, agora que sua ausência é pesada na minha casa, eu me firo com esses espaços mudos. Com o que eu não sei de mim. Com o sórdido eu que me sobrou. Porque dar amor é expor uma ferida que nem você sabe lidar. E as janelas. E os cafés. E o vento. E nem sei mais o que me é por direito. Se já sou tua, os cafés, ainda que amargos, são meus também? 

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