Nepente

Eu escreveria uma centena de linhas. Sem fim, sem pausas e sem vírgulas. Minhas palavras poderiam te atingir como um sopro ou como um vendaval. Mas nada em mim é forte o bastante pra romper seu espaço. Pra romper o meu espaço.

Eu queria saber que sou forte, sou boa o bastante pra me fazer presente. E eu diria todos os dias o quão castanhos-mel são seus olhos. E se não fosse esse meu medo tolo de me deixar ser e saber que sou, quem sou, porque, por deus, quem tenho sido nesses últimos tempos?

E como eu poderia lhe dizer e deixar dizer que desejo seus cafés esfriando no braço do sofá, que os vazios da sala são tão menores e confortáveis quando você está nesse espaço. E eu sinto como se não pudesse, ou não devesse, ou não soubesse como deixar alguém entrar. Quase num pecado, sinto-me rodeada por uma culpa tão íntima e sordidamente minha de não achar justo apresentar a alguém esse abismo medonho e sujo e torpe e fundo que sou, que eu tenho, que eu vivo. Por deus, como posso me permitir querer puxar alguém doce como você me é pra esse eco sujo que tenho vivido? Quase como uma culpa tecida num azul frio e pesado, o amor que te carrego me trança as pernas. Quase numa certeza de que você me salvaria, por dias, ainda que pouco, mas salvaria, ainda que segurando minhas mãos, ainda que apenas me segurando e impedindo que eu me afogue nesses meus exageros, nesses meus suplícios, ainda seria você que me salvaria. Mas não permito que alguém, por quem alimento um sutil afeto que seja, conheça e me invada a ponto de saber de mim. Como te digo, por deus, como digo que te amo e justamente por amar-te que não te deixo entrar, ficar, fazer de mim moradia? Que sou bagunça, que sou um caótico pedaço de, de quê? De nada. Sou um sem retorno. Por isso não deixo, não sei deixar ninguém adentrar. Quase como uma proteção. Te abandono porque te amo. Te abandono e afasto e renego e fujo e termino muda aos seus pés porque sou injusta comigo. Não posso ser salva. Posso mas não quero, e não quero que seu afeto seja algo pesado demais e cru demais e duro e sujo demais. Porque me amar é aceitar entrar numa bagunça que eu não sei compartilhar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s