Elanguescer

De novo eu quase consegui. Porra, de novo esse maldito quase. Eu quase me sentei aliviada no sofá que já fora de um marrom tão vivo, e hoje parece velho, desbotado. Eu quase me senti confortável nisso que já nos serviu de cama por noites sem fim. Por hoje eu quase tomei um café sem sentir o resquício amargo da sua bebida. Eu quase fumei um cigarro sem lamentar não mais pedir seus isqueiros. Eu quase respirei aliviada pelo silêncio em casa. Mas que caralho, eu quase me mantive lúcida, sóbria, ciente de mim. Quase.

Eu me apeguei ao quase pelo dia todo, porque ontem foi assim também. Eu quase.

Dia desses – olha que ironia – eu cantei uma música, dessas que tocam na rádio e fazem parecer dignas de serem ouvidas. Eu passei um dia leve, dia desses eu caminhei por entre ruas que, sequer por um segundo, me trouxeram seus contornos, suas falas. E no fim do dia, enquanto o relógio corria dócil ao meu ritmo, o telefone tocou. A porra do telefone tocou e, num sopro gélido, meu peito se esvaeceu. Como um enorme buraco que poderia me engolir, eu me senti abrir numa ferida grande demais pra que eu pudesse suportar. Eram suas palavras de volta. Eram suas saudades mentirosas, seus lamentos, eram seus falsos sentimentos entranhados numa mensagem que não cabia em meus ouvidos, olhos e toques. Eram as merdas das suas palavras me roubando o ar e apertando os pontos que consegui dar nas feridas que você deixou. E, por deus, eu senti cada entranha minha se contorcer. Me senti afundar naquele sofá meio velho, meio desbotado, me senti carregada por seus embriagados sentimentos, varrida por essa bebida amarga que agora eu tenho tomado. Sequer a porra do cigarro tem me bastado, porque não é o seu isqueiro que o tem acendido. Não é o seu conforto, a sua mentira, não é a sua ausência que tem me doído. É a sua presença, mesmo sem estar aqui. É a sua presença que não consigo por fim. É todo sinal, todo resquício seu pela casa, pela alma. É o quase que você não me deixa abandonar. É só a porra do quase.

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