Não leremos sobre as flores de amanhã

No começo eu me perguntava por que o amor não me basta. Era como um vício. Um eterno ciclo onde o amor perdia a validade assim que consumado. Como um amor platônico concebe toda a sua magia por se estabelecer sempre e apenas no âmbito imaginativo, eu concebo o prazer de amar apenas enquanto não puder, de fato, amar. E eu me lembro nitidamente, lembro como uma cena que se repete incontáveis, inúmeras, incansáveis vezes em minha cabeça, lembro de você, da sua chegada, da sua estadia e da sua morte em mim. Como um cigarro que me queimou os dedos. Como a porra de um cigarro que me engasgava mas eu insistia em segurar, me marcando os dedos. Você faz de seus amores muletas. Foi o que você disse. Fria, crua e dolorosamente, vomitando palavras naquela sala, naquele espaço grande demais que nos separava. Muletas? E, por deus, levei dias para digerir aquilo. Logo eu, que sempre repudiei quem tanto se apoiava em amores, e deles fazia sua existência. Logo eu que prometi ojeriza ao romance e que, por ironia, tornei-me incapaz de me encontrar num relacionamento. Suas palavras pesaram nos meus dias, se costuraram em meus tecidos, a porra das suas palavras me marcaram a pele. Pesaram a alma. 

E hoje eu sei a resposta: porque o amor não me basta. Pois é sim como num ciclo vicioso onde o amor se esgota em mim logo que é consumado amor. Um desencanto. Porque o amor não me basta e sua essência de me salvar não me salva. Como te explico que eu corro em direção a uma salvação que talvez não venha? E as suas palavras que tanto me atormentaram enfim fizeram sentido. Faço meus amores de muletas. Me cerco incansável e perturbadamente deles. Mas me asseguro de os manter longe o bastante para que eu não possa os alcançar. Assim nada me salva. Nada do que poderia me tirar desse abismo de mim mesma pode me salvar. Minhas paixões são platônicas pois me concedo o direito de me ferir só e tão somente por mim mesma. Como uma dor conhecida. Como uma ferida que eu já aprendi a suportar, e que me faz crer que se eu permitir que mais alguma coisa possa me ferir, o que me resta de controle acabará.

Olha pra gente. Olha pra mim. Eu sou meu próprio cigarro queimando os dedos. E me pego sentada na beira da cama às 3 da manhã me assombrando de mim mesma. E agora te vomito essas palavras todas e digo que, porra, eu tô com medo. Eu tô com medo pra caralho, porque eu não te quero como uma muleta, e não te quero como um apoio, que não leremos sobre as flores de amanhã. E que, caralho, eu não consigo mais te querer agora que você me cercou com um amor possível, mesmo que dilacerada, mesmo que te querendo mais do que posso suportar, mesmo que destroçada por amor, eu não sei mais te amar porque o amor não me basta.

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