Venha, fique, só não diga que me ama

Fazia tempo desde a última vez que me senti assim. Digo, sabe menina, esse aperto no peito. Essa sensação de que os dias são tão mais leves ao lado de um outro alguém. Ah, se você soubesse o quanto corri disso. Mas, olha, não é maldade, eu não sei ao certo se posso lidar comigo nesse estado. Porque você vem, me vem doce, e você tamborila seus dedos em mim, e você faz qualquer coisa parecer mais agradável. Eu sei o quanto fugi disso, porque o amor mais me fere do que me salva. E como te explico que te amo tão dolorida e sordidamente que isso mais me machuca do que me salva? Não posso me agüentar  em mim. Te preciso de um jeito que não me sobra espaço pra me ser, me querer, me amar. Então vou me moldando em seus traços, vou me fazendo de risos frouxos e acabo por morrer toda vez que você não me vem. Como uma música que só existe quando alguém a toca, eu só tenho a capacidade de existir quando meu objeto de amor me é presente. Senão, por deus, onde me moldo? Onde me faço? E olha pra mim agora! Olha enquanto me desfaço em lágrimas sem fim, olha enquanto não sei o que fazer com as mãos, olha enquanto eu morro esperando que você leia isso, me responda, me ame! Cacete, eu preciso, num sôfrego desejo mudo, que você me ame. Sem amar. Desesperadamente, incansável e do modo mais cru, me ame. Mas longe. Longe de mim pra que eu não ouça, não sinta esse amor. Pois ele me mata. Me mata de fome porque quando amo, por deus, viro um sem fim de sentimentos. Um não mais saber quem sou e se sou. E o que sobra quando você parte? O que faço com esse eu vazio que não sabe ser mais nada longe  do ser amado? Então, menina, me deixa! Vai embora. Me deixa morrer da falta desse amor, porque é menos devastador do que morrer por dias sem fim da sua presença, da sua chegada e da incerteza se posso continuar a existir ao te amar. Se eu soubesse como te dizer que com você aqui eu vou querer tanto ser o melhor de mim, que esquecerei como me ser. E vou me deixar aos poucos, me esquecer nos cantos, vou me tornar uma cansativa adaptação remoldada de seus timbres. Então não pense que não te amo. Amo tanto que me dói. Mas antes que seu amor me abandone e me parta deixando que só as feridas de um ser que não sou e não saberei ser fiquem, por favor, me deixa! Me olha de longe, me seja acalanto mudo, quieto, secreto. Me seja qualquer coisa que me permita continuar a me ser, mesmo sangrando com meu amor solitário por ti. Só não me seja amor. Isso não.

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