Emudecer

Obrigada pelo silêncio.

E nisso se passam horas, um tempo transcorrido interminável. Páginas e mais páginas mudas. Mas, mesmo mudas, mesmo sem uma palavra rasurada, estão pesadamente carregadas de sentimento. Uma dor intransigente, pungente, uma dor que, se capaz, corroerá a página todinha. Feito ácido.
Obrigada pelo silêncio, mas já não sei se quero e se posso e se quero poder suportar. Porque isso, essa falta de ruído, vem se acumulando em mim continuamente. Vem me causando uma comiseração. Vem me afligindo e me mantendo cada vez mais pra dentro, mais muda, mais infeliz. Infeliz. Eis uma palavra dura. Crua. Fria. Porque não basta ser isso tudo, ela é in, o inverso, ela lembra da felicidade e diz, porra, diz que ela poderia ser essa felicidade, mas por excesso ela não a é. Excesso de letra, de sentimento, de silêncio. Excesso de mim que já nem sei mais me caber. Obrigada pelo silêncio. E nisso se passariam horas, um tempo transcorrido interminável.

No fundo do bolso

É essa corrida insana pra longe do que temos por dentro.

É esse mudar pra voltarmos a ser exatamente o motivo da fuga. E você ri. Ri quando começo a falar essas coisas meio tolas e sem nexo, como se por algum momento eu tivesse a capacidade de dizer alguma coisa racional. Pois em silêncio te berro que não sei cultivar afeto, e você me afoga e sufoca e você me transborda de não-saber-lidar.

Mas é isso que a gente, humana e tolamente, faz. Troca o amor pela carência. A gente vai acumulando um medo de dar afeto à necessidade de ter afeto. Então despejamos no primeiro sinal de amor. Mas, porra, não é pra ser assim. Eu não sei te dar amor e saio correndo amedrontada por não sabe em que bolso guardar o afeto que você me traz. E por não saber se te tomo pelas mãos e berro com todo o fôlego que me cabe “Fica e me cuida, e me ama, e me abraça, porque você me vestiu de um jeito que eu nunca soube me deixarem vestir”. Mas você não vem, e eu não digo. O silêncio corrói. E suas ausências me ferem o cerne, e odeio sua liberdade sagaz de mim. Como pode esse amor me causar tamanha sofridão e você respirar tão doce longe de mim? Decide, por deus, decide se vem ou não, se ama ou cala, se me deixa pintar as paredes com meu caos. Decide de que amor morro eu: de seus excessos ou de suas ausências.

Moradia

Você deixou a porta aberta. Veja só, nesse perigo que hoje deixar uma fresta que seja, você saiu de deixou a ela todinha aberta, escancarada. Saiu meio sem rumo buscar um cigarro ou qualquer coisa a mais que divide suas mãos comigo. Eu bem que andei fumando alguns. Por culpa tua. E o cigarro que despretensiosamente caminha entre seus dedos parece tão mais nexorável do que eu que escorrego em suas mãos e nunca me assossego ao te enlaçar acalantos. Mas eu, porra, eu que tô nessa sofridão de não saber o que fazer, então vou esperando. Dias e noites de portas abertas e idas sem promessas de retorno. Porra, eu te entreguei as chaves e você, num desafeto cruel, as esquece na mesinha de canto. E sai comprar cigarros sem me bilhetear seus retornos. Mas aceito. Aceito porque a gente acaba escolhendo o que o mais fundo do âmago sente: o meu sente sua falta. Sua ausência. Berra seu silêncio. E por mais que eu saiba que, por deus, quem deveria fechar as portas sou eu, que deveria te tomar as chaves e ausentar-me do torpor de seus dias doces, eu aceito que me retomes e retornes e renasça no meu querer-te. Pois te quero. Te quero como sou incapaz de silabar e torno-me inefável. Ainda, se não te disse foi por temer ser muito cedo pra trancar as portas. E se não o fiz, foi por ceder a ansiedade de expulsar-te e morrer de ausências. Por fim, te espero na porta que, ainda aberta, te recebe. E hei de receber em cada ida e retorno, em cada cigarro aceso entre seus dedos, em cada tragada que não me traz você. Mas te aceito, ainda que almejando que feches a porta de casa, que venha de portas e janelas escancaradas.

Lembrete de alma

Mas eu quero mesmo que você saiba que tentei. Por deus, eu tentei ficar e me ajustar, e tentei me manter firme acreditando que eu podia e que eu queria mesmo essa troca de corpos e almas e afetos e âmagos e. Mas eu te digo, menina, que no meio daquele domingo de um vento inconstante que fazia a janela ranger baixinha, a droga da sua blusa me tirou o fôlego. Eu tava lá, presa na minha solidão, no meu tentar e não saber mais me ter, e quando vi a sua blusa branca tropecei na sanidade que me esvai. Porque a blusa era minha. Minha. Mas ela te vestiu e ficou de um branco tão mais limpo, tão mais sóbrio que não me restou nada mais a fazer senão dar-te-a. E eu sei o quanto ensaiei palavras doces e belas e carregadas de amor para entregar o que julguei te fazer mais minha: aquela blusa branca, sabe? Aquela que eu tanto gosto… ficou tão mais branca e tão mais eu em você. Ficou você. Toma, é tua. E foi como te entregar um pedacinho meu.

Mas e agora, menina? E agora que a blusa pendurada ali me faz doer o peito e que já não sei se vejo o quão branca ela ainda é. E nem sei se quero e posso lembrar que te dei como um lembrete de alma: toma, cuida desse pano que me recobre pra que, quem sabe, eu te recubra um pouquinho.

E me doeu. E dói! Cacete, me dói te lançar tantas palavras meio soltas e desconexas, porque sou uma bagunça e não sei se quero permitir alguém lidar com isso. Por isso me perdoa pela casa vazia, pela cama bagunçada, me perdoa pelo vazio da alma, mas eu não saberia dizer que estou de partida. Eu fui me deixando de lado e já não sei mais me pertencer. E antes que tudo me fira muito mais, me dilacere, antes que eu me destroce por dentro, eu parto. Antes que você chegue, antes que me veja andar arrastando as malas porta à fora. Antes que me peça pra ficar, porque, por deus, eu ficaria. Mesmo não sabendo mais ficar, nem podendo, eu ficaria. Então deixei a blusa lá, não me serve, não me veste, não é mais minha. É lembrança da pele que te cobriu, enlaçou. É a lembrança que eu já te fui amor ou qualquer coisa que já não sei ser. Que já te fui.

Des(d)enhar

Desenhei uma dezena de armas que eu não soube usar. E não saberei nunca. Porque sinto que preciso, que quero e que anseio pela guerra. Poderia sair correndo porta a fora agora. Nesse instante. Porque eu tô aqui, nessa papel meio amassado, despejando devaneios que, quiçá, você nem entenderá. Pois entre tardes de domingo, despedidas e cafés gelados, como te digo que antes você me era uma saída doce, uma fuga, um almejo que me salvava apenas, e tão somente, por me fazer lutar pela sua segurança. E agora? Agora te digo que sua chegada me desassossegou. Como eu tinha uma sólida certeza que isso aconteceria. Porque é sempre isso que me destroça por dentro: as chegadas me bagunçam a casa, me desestruturam o cerne. Não sei viver de amor. Porque agora você veio. Chegou, ficou e se instalou em mim. Mesmo sem estar. E no começo eu que tanto te quis, tanto me moldei pra te portar, me esvaio entre corridas e portas trancadas, telefones que não atendo e as dores de suas ausências. Ou presenças. Porque não sei lidar com você aqui sem estar. Também não sei lidar com sua distância, presença, ausência, fala, emudecer.Não sei lidar. Pois não sei quem ser agora, não sei mais manter a casa, a cara, a fala. Nem me manter. Nem nos manter.

Sobre o tempo que não se cura

Não é nada muito grave. É só sua foto na minha carteira, entre trocados de dois reais e o último rascunho de saudades que rabisquei num guardanapo pra te entregar. Não é nada de grave. É só o seu cheiro no travesseiro bem mais pungente do que o meu. Nada de grave. Só a sua blusa branca caída e esquecida atrás da cama. Ficou lá por dias e eu ainda ensaio o telefonema que te darei.

Um toque, dois, três toques e nada. Você não atende. E, por deus, por que eu acho que atenderia? Sequer sei se o número ainda é esse. Desligo. Me afundo num sem fim de sofá. Tomo uma bebida ardida, um café amargo. Tudo lembrança tua. Pensei em lhe escrever. Olha, tua blusa. Lembra? Aquela que você veste tão bem. Então, tá lá, achei. Vem buscar. Busca também suas fotos, já não suporto seus olhos doces e sôfregos me contornando os dias. Leva o travesseiro, não consigo achar um produto pra tirar teu perfume. Leva as lembranças. Dá? Coloca numa caixa, leva tudo. As paredes que parecem ter sua silhueta. Leva tua ausência dessa casa. Leva tua presença também. Porque não sei qual me pesa mais. Mas olha, não é nada de grave. Vai passar. Você, lembranças, afagos, tormentos, choros e balbucios atordoados. Vai passar. Uma coisa meio triste em meu peito, uma dor ardida, um peso demasiado. Mas nada de grave. Sei lá, se der, se sobrar espaço, caso queria, me leva também.

Reverberar

Detesto gente que não sabe pesar palavra. Pior ainda, gente que dá peso de sentimento a elas. Ou tira. Tenho uma preguiça emotiva de gente que usa Te amo como despedida. Fica uma coisa tão repetitivamente crua que, quando ouço o Eu te amo sincero, já vou mandando a pessoa embora. Aquela cena velha do telefone “Olha, você tá atrasado. Deu água pro cachorro? Sabia que ia esquecer. Tá, depois a gente se fala. Também te amo, tchau”. Diz tchau, mas preserva o te amo. Porque ali você não amou. Não depois de uma meia discussão. Não depois que seu cachorro tá com sede e sozinho, e você avisou. Daí o sentimento vira uma palavra, um reflexo do que é. Sei que me ama, mas soa tão refletido, tão eco e automático, que perde toda a essência do sentimento. Porque eu tenho uma dificuldade danada com essa coisa de afeto e dar carinho, e pra ajudar tenho um prezar tão grande pelas palavras. Daí você vem e troca o tchau pelo eu te amo? Deixa isso pra quando o sol tiver baixinho, a música calma, a tarde quente, o abraço justo, a saudade apertada. Mas não me faz embrulhar palavra e sentimento no mesmo pacote, ainda mais se forem de caixinhas diferentes.

Quem é você quando fala ao desconhecido? Lembro, pequena, que me dizia que as melhores conversas temos com os estranhos, os recém chegados. Porque a intimidade é tênue, é sagaz, é doce. Compartilha-se o medo, a fome de vida, o choro contido. Mas o estranho não nos julga. E se julga, pouco importa. Não lhe afeta, não cobra, não o retorce por mais ou menos informação, não exigi-se compreensão, nem entendimento. Estranhos são um poço de nos envolve num abraço tenro enquanto nosso inferno instaura um destroçar-nos por dentro. E você despeja suas dores. O medo é dito sem receio, a fome é venerada, e o choro é cru, soluçante, árduo. Como uma ferida exposta. Uma ferida que os íntimos, os de casa, os amigos já não podem ou não sabem ver. Como uma dor que eles acostumaram-se. E como dói. Lembro, pequena, de dias sem fim onde o caminho era sórdido e entre tropeços e lágrimas arrastadas, vez ou outra, uma alma doce vinha me acudir, me recolher dos meio-fios onde não suportei andar, dos bancos onde desabei, dos espaços que me couberam e eu chorei. Lembro que lavei a alma por tantas e tantas vezes sem me preocupar se estava louca, se continuaria a ser amada, se me abraçariam, ou me internariam. O desconhecido é um conforto minucioso. Só um único momento e as almas trocam de memórias e reticências.

Borboletear

Hey, acho que um dia eu vi uma borboleta colorida em seus ombros. Daquelas bem bonitas, cheias de vida, com asas grandes. Quase que te disse não se mexe, não. Quase tirei uma foto. Quase. Mas você dormia, respirava lentamente, de modo que não assustaria a borboleta colorida. Eu não…não sei exatamente quanto tempo ela repousou sobre seus ombros, talvez tenha sido um minuto, talvez mais ou, quem sabe, apenas alguns segundos. Mas foi o tempo suficiente para que eu me prendesse àquela imagem. Você dormia. Talvez sonhasse com borboletas. Talvez comigo. Talvez você me amasse. Talvez você fugisse. Quem sabe, em seus sonhos, você me coloria com os tons singelos da borboleta que eu via. Quem sabe só eu visse a borboleta colorida. Doce, encantadora, livre e, tão presa ao peso de suas cores, você dormia.

Não te amo por 8 segundos ou menos

Te amo quando seus olhos piscam tão lentamente. Quando muda de música. Quando chacoalha as mãos no meio de uma risada das boas. Te amo quando disfarça o choro, quando caminha pela casa, quando esquece o café manchando a mesa.

Te amo nos detalhes, em cada mísero segundo da minha existência e hei de te amar por toda a eternidade que me couber andar de mãos dadas a esse amor. Mas não agora. Por algum motivo torpe, fugaz, por qualquer coisa que não sei ao certo, agora não precisei te dizer te amo, que te cuido. E hei de cuidar. Não tive medo de te perder e, por deus, até senti uma preguiça angustiante de sua presença.

Ontem mesmo acordei em soluços sôfregos, perdendo-me entre pesadelos. E era receio. Porque o amor só se sustenta em mim quando não o alcanço. Não o toco. Só um vislumbre, um almejo tenro, um afeto platônico não porque eu amo meu egoísmo, não porque amo um alguém que não há de ser você, nem algum outro que deve haver por aí. Mas como um sopro num amontoado de glitter, eu me esvaio da paixão assim que ela me contempla em plenitude. Me desagarro do sofrer, do querer, do amar. Ah, mas que besteira, não pense que após sua partida eu vou repousar sossegada em meus devaneios em busca de um outro ser amável. Não, engana-se. Vou cair num período dolorido, uma dor desconcertante. Numa auto rejeição que me fará chorar por dias sem fim. Pois, te digo, chorei dia desses por te querer, e só eu sei como me costurei a ti. Mas agora que te tenho meus pontos se soltam. Meus remendos se rasgam. Agora que você veio, sinto que te manter em mim é pesado demais para minhas linhas finas.

A culpa é minha. Não te amo por 8 segundos ou menos. Por não ser capaz de te amar nesse instante só, e tão somente, pelo fato de ser muito amor. Demasiado amor. Te serei em mil tracejos de afeto mesmo nos dias mudos, nas noites frias, nos telefones que não tocam. Te serei afeto mesmo nos seus mais sórdidos pecados, no que você não sabe amar, e ainda assim eu te contornarei a face em ato de paixão. Te serei. Mas não agora. Por esses crus e vagos e inescrupulosos segundos, eu não te amo.