Sobre cafés quentes e janelas entreabertas

Olha, seu café tá no bule. Forte. E eu sei que a flor morreu pela nossa falta de atenção. Ah, pequena, eramos tão vívidos que esquecemos das flores pequenas. Eu sei que a janela está estre aberta e que você se esquece despretensiosamente repousada nela. Eu sei que as lembranças também te atingem. Por deus, quero eu saber que te atingem, pois não sei se suporto pensar que só eu me guardei e me revesti desse vazio. Ah, que a vida não me permita calar por caber num espaço sofrido de um sentimento que só eu vivi e só eu senti e só eu carrego preso em meus pulsos e bolsos, escancarado na minha face. Eu sei que lhe dei dezenas de cartas, e que por descuido meu nenhuma chegou já que não sei mais seu endereço. Sei que te liguei centenas de vezes, e que sua voz me era rouca, ou muda, ou seca, pois não era você. Seu telefone de certo mudara.

Ah, pequena, se soubesse que naqueles dias de calmaria sufocantes deixei as flores morrerem apenas porque me ocupei tanto de nós. E você? Você me trouxe uma flor viva e eu não soube deixá-la viver. Você me trouxe cafés e fins de tarde de acalanto, mas só eu sei como morri lentamente ao me afeiçoar a isso.

Agora, por deus, agora eu sei que sobra restos meus em ti e que ainda os mastiga. E quando meu peito se abre em saudade e te cospe no meio da minha sala vazia, eu tenho uma urgência de me jogar no seu velho sofá, afundando entre almofadas que não me comportam, te ligar e te dizer que… que eu nunca sei ao certo o que dizer. E que eu não soube. Mesmo nos dias mais cinzas, mesmo na nossa solidão compartilhada, mesmo quando você se debruçou em mim e me despertou pra um sentimento que eu não sabia ao certo sentir, eu não soube. Porque tive tanto medo de ser muito, então me contive. Mas tive tanto medo de ser pouco que acabei por me anular. E eu morreria uma dezena de vezes ao lembrar de seus olhos piscando. Por deus, quem se apaixona incansável por olhos piscando? E mesmo quando eu odiava suas falas monótonas, eu te amei em cada pedaço, canto e pecado. Eu amei cada vez que suas respiração baixou, e o modo que me fez entender o amor. Eu amei seu sofá velho, seu café forte, sua risada sem ritmo. Eu amei os pedaços que me encaixavam e os que não me cabiam. Amei até a dor que me causou.

Mas tive tanto medo de ir me largando entre seus toques e, por fim, acabar escorrendo de seus dedos. Medo de ir chegando e não saber mais voltar. E o medo acaba com a gente, com as flores. Porque agora cultivo flores mortas, sem pétalas, sem perfume. Cultivo tudo que me deu e eu não soube deixar viver. E se, por acaso, eu acertar o número, acertar o endereço, se por ironia do destino, você me ver passar, me guarda bem no fundo do coração, pense que tô bem. Porque eu tive que partir por não saber ser mais nada longe de você.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s