O amor é um poço de almas que não se bastam, ou não se cabem mais

Sua camisa ainda está na porta esquerda do meu guarda roupas, ocupando um cabide que há tempos fora meu. Sua roupa ainda me afronta o peito, como um soco forte, quando a percebo ali, deixada como numa promessa de quem volta, ou quem não vai, ou de quem quer ficar, mesmo sem saber ao certo como. Mas você não mora aqui. Você não divide a casa, mas habita de uma forma tão excruciante todo o meu eu, que me assusta. Menina, como te digo que tenho um medo danado de te perceber longe. E que os dias correm soltos e vou me projetando fundo e cada vez mais fundo nesse te ter aqui?

Pois sei que mal me lê, e entre dezenas de cartas despretensiosas onde me entreguei, me declarei, me desfiz em mil palavras, e você distraída sequer as leu, eu fui me fazendo em palavras que não sabia ou não podia te dizer. E ainda não posso. Porque o amor é poço sujo e fundo de almas que não se bastam, ou não se cabem mais. E eu não sei te dar amor. Não sei conviver com ele. E por não saber, ou não suportar, eu vou caindo nesse suplício de querer-te mais do que bem querer.

Já amamos, pequena.  Talvez de modos não tão intensos, mas te digo que o amor foi uma ferida constante e exposta em nossos mais internos pecados. Mas agora eu caio de novo nesse sentimento de me perder. De deixar-me perder e te perder. Porque seus olhos são doces, sua alma tamborila ao ritmo da minha, e mesmo que eu morra numa súplica de te ter, que precise tanto da sua presença, eu entrei no mais angustiante estágio do meu ser amante. Te admito que você é boa demais para mim. Porque te detesto quando vem, e te odeio de longe pelas suas ausências e defeitos e pecados e o seu eu que não me precisa. E te ojerizo pelos dias que não me sente, que não vens, que diz me precisar mas se contenta em não estar em mim. Boa de mais porque eu não te confesso nada, mas morro de ausências, morro por não saber o que fazer com os dias vagos, morro por te precisar de uma forma sórdida que não me permite nada mais.

E presa nesse medo de te perder, menina, eu vou pecando pelas ausências. Vou me emudecendo. Me guardando. Como quem tem medo de adentrar um espaço que não recebi convite, eu te permito espaços que julgo, por vezes, serem maiores do que eu posso lidar. Me perdoa se eu não disse que te amo hoje, é porque venho te amando tanto e a cada dia tão mais intensamente, que me estremece a alma e a razão te pronunciar. Como quem teme espantar um borboleta, isso, uma borboleta! Chega a me doer esse sucumbir ao amor.

Então, te peço minha pequena, se você quer mesmo isso tudo, se você permite meu caos lidar como seu, e se aceita que o amor é uma catástrofe que a gente evita pra não ter de viver num quase-que-não-vivendo, então me diga com todas as letras. Porque as palavras que não te digo me causam excessos, e me parecem te causar ausências dos meus sentimentos. Diz e me deixa ser. Me deixa ser mais do que tô sendo agora, porque eu tô com um medo danado, e isso me mata. E te mata. E mata o que deveria ser um nós.

Porque sua blusa ainda está pendurada em mim, e tenho a aflição de não mais tê-la por ela apenas estar ali, guardada, sem uma alma que a vista. Sem você que me vista.

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