Linhas de Escárnio

Te pedi um tema, uma frase, qualquer coisa que eu pudesse escrever. E você riu. Seu cigarro pendendo entre os dedos me soava como poesia. Mas você riu. Te pedi uma coisa qualquer, coisa tola, pouca, coisa que eu pudesse correr por algumas linhas – Mas me diz. Uma cor, poesia, vou falar sobre as terças feiras, os fins de ano, cachorros inquietos, lixos derrubados, olhos embragados num quadro com tinta a óleo. Olhos tristes. Mas você riu, tragou e me olhou. Porque não me leva a sério? Sabe, por deus, você sabe que escrevo por me exceder em sentimentos e me ausentar em saber expô-los. Te pedi. Domingos, cafés quentes, amargos, filmes mudos. Amor. Vou te escrever sobre amor. A dor. O sofrer e continuar te querendo mais do que um bem-te-querer. Aqui comigo, e você ausente. Pois é sobre você. Cada linha torta, cada palavra mal escrita, mal caligrafada. Cada rima sem prosa. Cada falta de expressão. E você sabe que é tudo sobre a falta de voz em te falar, por isso escrevo. E você lê? Não. Por deus, você não lê. Não me lê. E mesmo te deixando pistas, bilhetes, cartas que anunciam um farol de sentimentos meus, você só esquece seus doces olhos despretensiosos em mim e ri. E traga seu cigarro. E apaga-o para acender outro. E rir. Mas era sobre nós que eu queria e tentava escrever. Era sobre o meu eu sendo nós, e o seu escárnio em me ver em ti. Era sobre o nós que não era de fato um só ser. Era tudo sobre esse amor escorrendo entre linhas corridas, letras tremidas. Só sobre esse amor solitário queimando na ponta de seus dedos.

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