Quem é você quando fala ao desconhecido? Lembro, pequena, que me dizia que as melhores conversas temos com os estranhos, os recém chegados. Porque a intimidade é tênue, é sagaz, é doce. Compartilha-se o medo, a fome de vida, o choro contido. Mas o estranho não nos julga. E se julga, pouco importa. Não lhe afeta, não cobra, não o retorce por mais ou menos informação, não exigi-se compreensão, nem entendimento. Estranhos são um poço de nos envolve num abraço tenro enquanto nosso inferno instaura um destroçar-nos por dentro. E você despeja suas dores. O medo é dito sem receio, a fome é venerada, e o choro é cru, soluçante, árduo. Como uma ferida exposta. Uma ferida que os íntimos, os de casa, os amigos já não podem ou não sabem ver. Como uma dor que eles acostumaram-se. E como dói. Lembro, pequena, de dias sem fim onde o caminho era sórdido e entre tropeços e lágrimas arrastadas, vez ou outra, uma alma doce vinha me acudir, me recolher dos meio-fios onde não suportei andar, dos bancos onde desabei, dos espaços que me couberam e eu chorei. Lembro que lavei a alma por tantas e tantas vezes sem me preocupar se estava louca, se continuaria a ser amada, se me abraçariam, ou me internariam. O desconhecido é um conforto minucioso. Só um único momento e as almas trocam de memórias e reticências.

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