Sobre o tempo que não se cura

Não é nada muito grave. É só sua foto na minha carteira, entre trocados de dois reais e o último rascunho de saudades que rabisquei num guardanapo pra te entregar. Não é nada de grave. É só o seu cheiro no travesseiro bem mais pungente do que o meu. Nada de grave. Só a sua blusa branca caída e esquecida atrás da cama. Ficou lá por dias e eu ainda ensaio o telefonema que te darei.

Um toque, dois, três toques e nada. Você não atende. E, por deus, por que eu acho que atenderia? Sequer sei se o número ainda é esse. Desligo. Me afundo num sem fim de sofá. Tomo uma bebida ardida, um café amargo. Tudo lembrança tua. Pensei em lhe escrever. Olha, tua blusa. Lembra? Aquela que você veste tão bem. Então, tá lá, achei. Vem buscar. Busca também suas fotos, já não suporto seus olhos doces e sôfregos me contornando os dias. Leva o travesseiro, não consigo achar um produto pra tirar teu perfume. Leva as lembranças. Dá? Coloca numa caixa, leva tudo. As paredes que parecem ter sua silhueta. Leva tua ausência dessa casa. Leva tua presença também. Porque não sei qual me pesa mais. Mas olha, não é nada de grave. Vai passar. Você, lembranças, afagos, tormentos, choros e balbucios atordoados. Vai passar. Uma coisa meio triste em meu peito, uma dor ardida, um peso demasiado. Mas nada de grave. Sei lá, se der, se sobrar espaço, caso queria, me leva também.

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