Lembrete de alma

Mas eu quero mesmo que você saiba que tentei. Por deus, eu tentei ficar e me ajustar, e tentei me manter firme acreditando que eu podia e que eu queria mesmo essa troca de corpos e almas e afetos e âmagos e. Mas eu te digo, menina, que no meio daquele domingo de um vento inconstante que fazia a janela ranger baixinha, a droga da sua blusa me tirou o fôlego. Eu tava lá, presa na minha solidão, no meu tentar e não saber mais me ter, e quando vi a sua blusa branca tropecei na sanidade que me esvai. Porque a blusa era minha. Minha. Mas ela te vestiu e ficou de um branco tão mais limpo, tão mais sóbrio que não me restou nada mais a fazer senão dar-te-a. E eu sei o quanto ensaiei palavras doces e belas e carregadas de amor para entregar o que julguei te fazer mais minha: aquela blusa branca, sabe? Aquela que eu tanto gosto… ficou tão mais branca e tão mais eu em você. Ficou você. Toma, é tua. E foi como te entregar um pedacinho meu.

Mas e agora, menina? E agora que a blusa pendurada ali me faz doer o peito e que já não sei se vejo o quão branca ela ainda é. E nem sei se quero e posso lembrar que te dei como um lembrete de alma: toma, cuida desse pano que me recobre pra que, quem sabe, eu te recubra um pouquinho.

E me doeu. E dói! Cacete, me dói te lançar tantas palavras meio soltas e desconexas, porque sou uma bagunça e não sei se quero permitir alguém lidar com isso. Por isso me perdoa pela casa vazia, pela cama bagunçada, me perdoa pelo vazio da alma, mas eu não saberia dizer que estou de partida. Eu fui me deixando de lado e já não sei mais me pertencer. E antes que tudo me fira muito mais, me dilacere, antes que eu me destroce por dentro, eu parto. Antes que você chegue, antes que me veja andar arrastando as malas porta à fora. Antes que me peça pra ficar, porque, por deus, eu ficaria. Mesmo não sabendo mais ficar, nem podendo, eu ficaria. Então deixei a blusa lá, não me serve, não me veste, não é mais minha. É lembrança da pele que te cobriu, enlaçou. É a lembrança que eu já te fui amor ou qualquer coisa que já não sei ser. Que já te fui.

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