Entre nós do abandono

Retornar. Esse é um ponto fundamental do abandono. Ah, pequena, engana-se ao pensar que abandono dá-se por completo, dá-se pura e insolitamente no mais puro ato de ir. Sem retorno. Não, não, menina. Meus abandonos são processos participados, são graduações de deixar-me ir, querer-me ir, querer-me indo. E, mais do que partir, retornar é parte fundamental do abandono. Primeiro vou. Depois, quando as dores cessaram ou beirarem ao insuportável, quando a fala vibrar ou falhar, quando o amor emudecer ou dilacerar, aí sim, eu retorno. Retorno pois não suporto os afastamentos, não suporto as longas distâncias. Retorno pois não me suporto em decisões definitivas. Então, pequena, retorno.
Ah, eu sei, eu sei. Sigo esse passo torpe de não saber dizer adeus e nem saber ficar. Como te explico que só me atiça o que não toco, não tanjo, não elucido? Como te explico que esses amores plausíveis e passíveis de serem amados pouco me aferem o calor romântico, e que te perder entre dedos e bebidas amargas, morrendo das dúvidas de te ter, me somam paixões escandalosas? Ah menina, se você soubesse que seus olhos brilham tanto, num piscar vagaroso, exatamente por nunca piscarem ao ritmo meu, e que, por deus, eu sei que nunca piscarão. Porque eu não te tenho. E que assim seja. Repito, ainda que numa aflição atordoante. Que assim seja. Pois, não quero que me compreendas mal, vou te confessar o inconfessável, um segredo que me dói o cerne. Quando, por uma semana ou menos, ou mais, ou exatamente uma semana, eu achei que te tinha,achei que poderíamos ser esses corpos cheios de sentimentos recíprocos, numa monogamia que me ojerizaria pela segurança que me garantiria, eu te abandonei. Abandonei por não ser capaz de te receber num ato de amor. Te abandonei por te amar em excesso e querer-te ferozmente distante de mim. Seu amor seguro, sua entrega, me afogaram. Sua chegada em mim varreu minha insensatez e me carregou pra um abismo imenso de rejeitar-te em sua presença e morrer das suas ausências.

Mas logo seus cigarros me queimaram os dedos. Logo sua bebida esfriou. Logo a dor de não me servir perfurou minha pele. E eu te retornei. Retornei por saber que mesmo amada, nossos timbres nunca soariam na mesma frequência. E que, justamente por isso, poderia eu entregar-lhe todo meu amor e jamais me assossegar na segurança, no receber-te amada. Poderia te amar sem o compromisso de me fazer amor.
Mas então meu segundo abandono me atingiu feito uma flecha envenenada. No âmago, no centro do meu peito. Te abandonei por não me suportar insuficiente pra você. Te abandonei porque suas ligações me faziam romper a noite. Suas palavras me faziam esquecer das minhas. Suas lágrimas me faziam guardar todas as minhas dores no bolso e correr ao seu encontro. Abandonei por não suportar o seu não-amor. Abandonei por não bastar, por não ser digna de receber teu amor. E eis que o não saber vestir-me me apertou o peito. Pois não saberia te pronunciar meu eu todo, não saberia me fazer entregue a ti, mas não saberia mais lidar comigo mudando meus caminhos pra te evitar, mudando minhas falas pra me alimentar das suas poucas palavras que me davam fôlego de persistir e, o mesmo tempo, uma necessidade de partir pra me desvincilhar de todas as cordas suas que me feriam os pulsos.

Mas é parte fundamental dos meus abandonos. O retorno. Eu volto por não saber mais o que fazer de mim. Volto por não me caber. Um número a menos, a mais. Agora? Bom, agora eu aceito esses resquícios de afeto que você me dá. Não, pequena. Não que sejam poucos, ou injustos, ou voláteis. Mas perto do amor que engendro por ti, mais a minha vontade de nos fazer um só, mesmo sem essa capacidade, é um ínfimo afeto. Aceitando que nunca me dará mais que isso. Sigo aceitando que se me der, o afeto vira ojeriza. Aceitando que sou eu quem segura suas dores. Aceitando que te preciso exatamente por não ser capaz de te precisar. Ou te precisando exatamente por ser incapaz de me precisar. Então te bordo em minhas intransigentes passagens de abandono. Te elucido no meu afeto amargo. Te esquento em meus cafés só para lembrar que se o seu amor tocar as duas da manhã chorando dores, eu as tomo. Eu te tomo. Mas só, e só eu sei que somente, porque você nunca me tomará de fato. Por isso eu te retorno. Só por ser abandono, nunca a partida. Nunca a ida assertiva.

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