Aos banhos e retornos adiados

Então eu mergulho um pouco mais fundo nessa banheira de água quente – quente que quase minha pele não suporta. E fico vagando entre meus pensamentos solitários e todo o torpor silencioso que tu me causas. Digo isso no mais puro sentimento. Meu copo marcado pelo batom meio vermelho compota uma bebida fria, amarga, pungente. Bebida punge? Enfim, o copo é vago. O som é oco, seco, Joplin talvez? A voz rouca. Quem sabe. E me lembro de suas falas e rio, por deus, dou uma risada antes de mergulhar novamente, ao lembrar de suas falas aleatórias, mas que tanto me couberam. E cabem! Porra, menina, suas palavras jogadas despretensiosamente pra mim, suas frases meio vagas, meio gastas, meio tolas mas que tanto me servem. A gente muda. A gente se desfaz de um amontoado de coisas exatamente, e arrisco-me a dizer que tão somente, pra continuarmos os mesmos. Você me disse isso, lembra-se? Claro que há de se lembrar. Foi no dia que entre crises tolas e choros pesados, eu lhe disse que precisava partir. Disse, entre aquele espaço que parecia grande demais, que eu iria embora por não mais saber o que fazer de mim por não mais saber quem era, quem sou, quem virei. E você disse que a gente muda. Que eu mudei. E que, cada mudança, me assegurou a certeza de continuar a ser o que sou. O que sou?

Sabe, entre esse estopim rouco que ecoa do vinil da sala, eu queria a certeza de que tô feliz. Sabe, abraçar essa ânsia latente de dizer que eu parti, e que agora me fiz completa. Ou que vou voltar, mas voltarei pra ser. Porque voltar é parte dos processos de partir. A gente volta pra buscar o que ficou, o que restou de nós, o que não coube nas malas de ida, o que a gente esqueceu propositalmente pra nos fazer lembrar pra onde voltar.

Ah, pequena… se você soubesse da dor que me causa esse não saber o que fazer. E se soubesse que tanto tenho fugido do que sou e de quem sou e, se sou, me diz, cacete, me diz o que fazer com esse eu. Porque tenho tentado mudar, mas você tava certa, a gente muda pra podermos continuar a ser exatamente isso. E o que faço agora? Porque voltei tentando resgatar o que de mim um dia existira. Porque agora a água que me avermelha a pele é sua, e a bebida amarga é gosto teu. Janis, ao fundo, é da sua sala, do seu vinil, da sua certeza de que era isso que eu precisava: um redemoinho pra me trazer de volta.

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