Fenecer

Só por hoje eu não te amo. Tenho te escrito dezenas de cartas que não envio. Bilhetes e rascunhos espalhados pela minha mesa, cama e chão. Bilhetes rasgados, amores feridos e ausências cantantes. Então, hoje quando acordei entre minhas letras tortas e súplicas de seu afeto, decidi que só por hoje não vou te amar.

Nem que seja só por hoje, só por um intervalo do filme, por um raio de sol entre o vagar das nuvens, nem que seja por um piscar dos olhos meus, hoje não. Não te entrego afeto, não te enlaço as mãos, só e tão somente hoje não morro de amor. Entre poemas que não te rimam e juras dilacerantes de te ser amor, hoje não costuro suas flores mortas, não me bordo em seus tecidos sujos, hoje não me escoro em seus encantos enfadonhos. 

Amanhã, quem sabe, volto a te amar, te ser afeto, volto a ser rabisco frouxo em juras de afeto. Amanhã me afogo nesse amor, nessa ausência, nessa presença. Amanhã me desmancho e agonizo no bem-te-querer. Mas por tempo quero a paz. Quero meu bem querer, mesmo que isso signifique não querer nada mais. E não te quero! Por hoje, que seja. Não te amo. Pois hoje, e tão somente hoje, meu peito acompanhou a folha seca caindo da árvore, acompanhou o timbre mudo da não-melodia, acompanhou a cor morta das letras que te escrevo. Mas sem ecoar afeto. E mesmo, por deus, mesmo que amanhã eu sucumba novamente ao ser-me todo o seu bem querer, por hoje eu não te amo. 

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