Teu último esbarro

Eu fui te dando dezenas de pequenos sinais. Fui te jogando pistas soltas do que eu queria, mas não podia te dizer. Porque escrever me é tão mais simples e limpo e honesto. Porque quando tentava – e por deus,como eu tentei – te confessar tudo, seus olhos castanhos solidão me confundiam, sua presença me entorpecia, as memórias se misturavam à realidade, e tudo em mim se tornava um caos. Você sabe, sempre soube, que escrever era um porto seguro,uma confissão solitária de tudo que eu queria e precisava gritar ao mundo. Um grito sem eco, sem som, mas ainda um grito. Então fui te deixando pistas do que me afligia o peito, te deixando bilhetes e códigos, letras, frases e um eu todo escrito, pendurava, escancarado. Mas você não via. Por não querer,por não ver ou por não saber se queria ver. Mesmo tropeçando em minha caligrafia torta, em minhas linhas pesadas, mesmo escorado num sem fim de palavras secas, você não as leu. Não as lê! 

Mas agora eu te endereço. Te dou nome e sobrenome em minhas escritas. Agora te enumero páginas, te entrego em mãos. Mesmo que eu precise sair, mesmo que eu me desmanche e me perca entre os parágrafos, mesmo que você não me traduza, eu te remeto essa confissão que me pesa os pulsos. 

Quando você me veio, me enrubesceu a face. Me acalantou o peito. Me fez sorrir por dentro. Quando me veio, chegou como calmaria, se manteve em paz, mas me causou contrastes, um caos enorme. Mas, ainda assim, um caos que eu aceitei viver, eu quis viver. Porra, eu viveria dias sem fim do seu caos. Eu que não soube bem o que fazer, mas fui me deixando cair entre seus quereres. Fui aprendendo a me sem em você e com você. Ainda que um pouco falha, um pouco muda, um pouco excesso. Ainda. Me descobri num vão entre mim e você. E, por deus, se eu tivesse que escolher, seria você.

Agora me pego aflita, entre saudades suas e memórias que me traem, porque suas ausências ainda me corroem o cerne, mas não te confesso. E tenho um medo danado de te ferir, então sangro eu. Vê? Vê como te quero bem? Pois deveria. Me ausentei por dias de mim só pra te receber, pra ter mais espaço pra você se acomodar. Me ausentei de todo o meu eu e a gora tem espaço demais em mim. Tem um buraco grande uma bagunça, mas sem caos. Sem você. Sem o que fui. Sem o que sou. 

E eu que não sei como terminar confissões. E se sei,não a quero fazer. Deixo então uma carta sem fim pra que não seja necessariamente o fim. Deixo linhas de resposta. Linhas de complemento. Deixo espaço pra você dizer que volta, que me vem fazer moradia. 

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