Meio-fio

No meio da tarde chuvosa eu quis mesmo te ligar. Pedir um colo, um sossego pro meu peito. Como tantas vezes você me sustentou, me acalmou. Faz tempo que o caos me assombra. Mas tá tudo bem. Tá tudo bem – repeti sete vezes pra dar sorte. E mais sete para me fazer acreditar. Agora eu fumo umas 3 carteiras do pior cigarro que encontrar. Bebo qualquer porcaria que me relaxe, mesmo que me rasgue a garganta. Me afundo na cama e me deixo morrer mais um pouco, só pra não morrer de vez. Mas tá tudo bem. Semana que vem eu recomeço. Amanhã eu acordo fingindo uma nova esperança, passo a semana acendendo incenso, cantando mantra ou meditação. Vou voltar a fazer exercícios, ler bons livros, ouvir músicas alegres.Semana que vem eu ligo pra algum amigo, dou umas risadas e volto a viver. Depois? Depois eu caio nesse patético estado de decomposição, vou me afundando em crises e solidão. Mas tá tudo bem. A vida é um engasgar frequente. É correr na linha do precipício até acharmos algo ou alguém que nos derrube pro lado seguro.

Aos estranhos e aos cafés

Deveríamos ter marcado aquele café. Adiamos por dias, e agora os dias se foram. Deveríamos ter ido hoje, esse tempo meio cinza, meio inebriante. Por deus, eu deveria ter te olhado nos olhos hoje, te ouvindo falar de como você está, como anda levando sua vida. Eu iria sorrir, assentindo para essa sua vida que não tem mais espaço para o meu eu, mesmo que morresse por dentro em cada pausa sua. Sei que não te diria mais nada, e nem sei mais se quero dizer. Não te pediria pra voltar porque, apesar da ausência tua que me fere, não sei se quero que volte. Entre os goles do café eu te lembraria que você me ensinou os cafés amargos. Hoje o meu está novamente doce. Eu diria qualquer bobagem sobre estar bem, caminhando, vivendo. Todas essas coisas que a gente faz depois que o coração se quebrou. Faz porque tem que fazer, senão a gente ficaria de luto, escorados num canto seguro, onde ninguém visse o quanto ainda dói saber que o outro constrói um caminho todo novo e não há mais marcas dos nossos passos. Olha, meu café ia acabar e eu diria que tenho uma centena de coisas pra fazer – ah, você nem imagina como ando ocupada. Trabalho nem tem me deixado respirar. E mesmo que soasse falso, você me deixaria ir. Talvez por não saber se deveria me deixar ou se queria mesmo me deixar ir, mas deixaria. E eu iria. Num adeus meio sem jeito, num sem jeito de quem já teve a intimidade toda exposta e compartilhada, a gente aprenderia a se reconhecer estranhamente. Um desconforto.

Mas por fim, acho que deveríamos ter marcado esse café. Porque é hora de começar a nos re-conhecermos como estranhos. Um café, um último café pro gosto ficar latente. Eu te conheço, mas não te reconheço.

Fotografia

Passaram-se alguns dias e, por fim, me dei conta de que eu te procurei menos. Chequei menos minhas mensagens, chorei menos pelo telefone mudo. Com o decorrer do relógio, me dei conta de que não foi você a primeira pessoa que tive vontade de contar algumas alegrias que andaram me acorrendo. Ah, pequena, houve alegria! Mesmo entre as saudades da sua fala, mesmo entre meu peito transbordando sua ausência, tive umas doses de genuína alegria.

Alguns acontecimentos. Coisa boba, mas que me fizeram sorrir fundo. Triste foi quando tropecei na tristeza de não ter a quem contar. Não te contar. E dói isso, soa ainda choroso o pecado rompendo o riso com uma ausência. Mas isso tudo tem sido menos frequente. Ah, a gente sabe que passa. Mesmo que no início pareça que não. Por deus, eu achei que morreria de ausência tua. Me rastejei pela casa, me apeguei às lembranças tuas. Me cobri de suas fotos, perfumes. Me escorei em suas peças esquecidas. Mas tenho seguido em frente. De um jeito meio tolo, meio torto, meio errado até. Mas tenho seguido. E seus buracos nesta casa têm parecido menores.

Eu teria um sem fim de coisas pra dividir contigo. Mas li em algum lugar que dor só vale ser sofrida uma vez. Ainda me afogo em saudades, e ainda tropeço no não te ter. Mesmo te querendo com meu corpo, alma e vísceras, tua ferida começa a virar cicatriz.

Daqui alguns dias sei que te procurarei ainda menos. Agora tua intimidade já me começa a ser estranha. Te sinto como uma foto velha. Ainda que saiba que foi você que me habitou, já não te reconheço. Já não te conheço. Vai restar a lembrança só. Um bem querer um tanto choroso. Não quero mais tropeçar na dor de não dividir contigo o meu eu. Mas tô te mandando coisas boas. Mesmo em meus silêncios, mesmo na dor que tento mas não posso esconder, eu te desejo mil coisas doces. E boas. E que sejam sem tropeços também.

Ser o abismo pra poder ser qualquer outra coisa que não eu mesma

Tem um filme sobre nós rodando nesse momento em algum lugar do mundo. Ou em vários. Nenhum sofrimento, amor, angústia, ato insano é completamente original. Ah, minha pequena, a gente acorda e dorme e morre, e nesse tempo os dias se passam numa insistente repetição. Porque agora eu tô sentada no pé da cama, com os pulsos e ombros pesados de um sofrer que não sei largar. Meus olhos ardem e em meus bolsos se misturam as dores e angústias. Num filme qualquer que vi noite passada, ouvi coisas que eu poderia ter dito. Vi cenas que, por deus, quase acreditei que eram sobre mim. Entre nossos armários e  portas obscuras moram nossos monstros. E eu que ando arrastando os meus por aí. Sim, menina, passeio de mãos dadas com eles. Não consigo mais me afastar o bastante para que eles me percam de vista. E mesmo que todos nós mantenhamos nossos monstros vivos, alimentados e entrelaçados em nós, geralmente eles ficam por baixo das camas, dentro de armários, embaixo de travesseiros. Eles costumam se manifestar nas solidões, nos quartos escuros, nos dias chorosos. Os meus não mais. Ontem mesmo arrastei um dos meus pela casa toda, e pela rua, pelo bairro, peguei um táxi e ele estava junto. Agarrado em meus pulsos e pesando em meus ombros, como uma cobra longa, me envolvendo o corpo todo. Agora ele está aqui, entre dedos meus, entre as pernas. Me apertando o peito. Abrindo portas do guarda roupa. Fazendo com que alguns outros venham me bordar a pele. Fui alimentando meus pequenos desafetos, meus monstros internos. Fui dando medo para que eles crescessem fortes e ubíquos. Permiti, de algum modo, que ficassem maiores do que eu. Mais rápidos do que eu. E agora não sei se posso correr ou vencê-los. Não sei pra onde ir ou como ir. Já que meus monstros me dão os caminhos e eu, tola, sigo-os. Sigo os caminhos e os monstros. Deixei que saíssem de meus armários, caíssem de meus bolsos. Deixei que se bordassem em mim. Na pele, nas entranhas, no cerne. Quase dou-lhes afeto, pois os sinto como parte de mim. Um quase não-me-ser sem o abismo que me habita. Quase um ser o abismo pra poder ser qualquer outra coisa que não eu mesma.

Quando você partiu, levou quase tudo. Levou os ponteiros do meu relógio, e as horas se arrastavam entre os dedos meus. Levou meus lenços, e parecia que nada enxugava mais minhas lágrimas. Quando você partiu, levou quase tudo. A paz, o riso, o desejo. Levou um sem fim de coisas que me eram importantes. Você levou o timbre, o ritmo, o fascínio. Levou meu ar, meu tom, meu som. Levou a beleza que os olhos meus viam. Levou o toque, a ilusão, a decepção. Levou a alma, a graça, a trapaça. Quando você partiu, levou meu dia e minha noite. Minha mente, meu horizonte. Levou o começo e o fim. O precipício, a fuga, o desejo do acalanto. E com os dias de sua partida, você levou todo o resto. As dores, as memórias, a falta que chafurdou na bagunça que você quase não levou.

Meu coração de papel

rasgado em

tiras que dançam.

Meu coração tatuado com

cem nomes teus

cem vezes amassado

repetido

despedaçado.

Meu coração de papel

escrito e caligrafado

com os beijos

suspirados

afetos engolidos.

Meu coração de papel

rasgado em tiras do seu mal me quer

Vislumbre

Hoje o silêncio não pesou tanto assim. Não que a sua ausência tenha me doido menos agora, mas num ritmo lento e caótico eu tenho voltado a me organizar. Hoje já não chorei pela sua ida, não senti tanta vontade de bater à sua porta, de pedir pra voltar. Chorei, talvez, pelo filme que faltou, pela tarde de domingo que estávamos adiando, chorei, quem sabe, pelas músicas que não compartilhamos, pelos seus olhares de soslaio que não decorei. Quem sabe a dor comece a se fazer pelo futuro que não vivemos. Me doeu porque foi você que me deu o ritmo de danças e, sequer uma vez, te tirei pra rodopiar entorno da mesa de jantar. Acho que senti a ausência tua pelos dias que virão, pelas horas, pelos toques que não se sentirão. Mas chorei menos, com menos dor, com lágrimas menos pesadas. A ausência tua começa a se misturar com a necessidade de voltar aos meus dias comuns. A saudade morre de asfixia. 

Do sem-fim do meu amor me resta a certeza que você não volta

Pensei em ligar hoje. Entre um riso forçado e uma vontade enorme de correr ao encontro seu, eu quis ligar e pedir, implorar, pra que não deixe esse espaço entre nós. Quis dizer que tá me sufocando, tá dilacerando todo o meu eu. Mas tudo que fiz foi afundar num sem fim de sofá – sofá esse que já nos foi conforto, que guarda a saudade do nosso peso, juntos, sobre ele. Preferi mandar uma mensagem pois não suportaria ouvir sua voz num timbre alegre longe de mim. Já que a minha anda parecendo meio chorosa, meio falha, sôfrega. 

Mandei uma mensagem pra te dizer que tô bem, tô ótima. Hoje? Ah, hoje eu saí… fui num lugar lindo que me lembrou tanto você. Quase te comprei uma lembrancinha, tirei uma foto, quase. Mas fazer isso seria como registrar mais fundo essa falta tua. 

Mas sabe o que é triste? Triste é saber que, entre tantos dias e amores vindos, eu te pedi pra voltar, pra vir. Eu fui me construindo e aprendendo a te deixar entrar. E eu tive um medo danado. Por deus, eu que nunca deixo nada nem ninguém me ocupar tanto assim, te dei as chaves de casa e permiti que me fizesse moradia. E agora? Agora você largou tudo. Fugiu levando minha paz. Levou a mobília toda, porque parece que tá tudo tão vazio em mim. 

Deixo a porta entreaberta, como quem te faz um convite. Eu chorei um pouco depois que a conversa acabou. Eu quis mesmo dizer que era tudo mentira, e que o dia não teve um sol tão vivo sem suas mãos juntas às minhas. Mas não fiz. Só continuei no meu teatro sujo, mentindo pra mim mesma que eu tô bem. Eu tô bem. Eu aceito que você me roubou a casa toda. Eu tô bem pra caralho.

Você soube que foi a última vez? Eu tive uma tenra certeza que, depois daquele dia, mesmo com suas promessas de retorno, com suas blusas esquecidas, com suas palavras de amor, algo em mim berrou que você não voltaria. E não voltou. Porra, você partiu e, como num adeus que te pesou exacerbadamente, como quem cala por não suportar o peso das palavras, você caminhou sem olhar pra trás. E eu soube, com toda minha alma, vísceras e coração, você não volta. Não com o seu amor. Não com o riso doce que me sustentou. Não com o seu afeto enlaçado ao meu. Você não voltou. 

Mesmo eu que aceito e acolho todos os meus amores, que guardo nos bolsos os pecados de quem amo, mesmo eu que te recebi e te receberia por toda a eternidade, desisti. Eu te amo por uma vida toda, mas não sei mais te receber, te gostar, não posso te dar afeto. Mas te amo, mesmo no silêncio que,antes era íntimos, agora soa incômodo, mesmo nos abraços desajeitados, mesmo nos meus pedidos mudos de retornos seus, eu te amo. Entre minhas lágrimas, é a saudade da parte sua que sabia, e queria, e queria saber receber meu amor. Você não voltou. E hoje, agora, entre meus sofás mudos, entre minhas memórias fatigantes que me ferem o peito, eu te amo, mas não te dou afeto. Morro das saudades de quem você me fora. E por deus, amaria por um sem fim de vida. Amo quem você me foi, mas não posso amar a parte sua que voltou. 

Um tracejo menor que nada

Então você bateu a porta e fez desmoronar tudo em mim. Meus planos, sonhos, meus devaneios de qualquer coisa que una amor à felicidade. Você fez ventar um vento amargo e frio e gélido de um adeus mal dado, mal digerido, um adeus que eu mal dei. Esse era o fim. O nosso fim.

Mas não importa. Comecei pelo fim para que essa nossa história tenha logo os laços ruins expostos e escancarados, para que, então, a continuação seja doce, seja de amor. Sei, sei, que insensatez começar algo pelo fim. Mas se o fim é que não agrada, por que não inverter a direção? Começo pela dor, pra que a dor não me recomece. Então vêm as risadas, as fotos, as lembranças, as cartas, vêm os filmes, os domingos, os sorvetes, até as brigas vêm, mas junto delas vêm, também, as reconciliações.

Antes de você bater a porta, as malas estavam feitas. Mal feitas, mas estavam lá, prontas, às pressas, numa ânsia em abandonarem a casa. Antes disso tinha vazio. Nossos silêncios incômodos, nossas brigas estilhaçantes, nossas fugas alheias repletas de derrotas internas e medos de perdas austeras.

Mas antes, bem antes do desencontro de olhares, antes de elucidação desamorosa e entorpecentemente fatigante, antes ressoava MPB, tinha filme francês, tinha sorvete em dia de chuva. Antes tinha ligação no meio da tarde, mensagem inesperada. Antes tinha os olhos suplicantes, os dedos entrelaçados, tinha minha pele roçando na tua, tinha todo o ar que enche o pulmão alheio.

Mas olha, poderia eu passar horas, linhas, cadernos inteiros, me despejando as lembranças boas do que fomos. Poderia eu te dizer que as fotos ficaram de um artístico imensurável. Poderia eu, ainda, dizer que as flores eram de um perfume exuberante, que tudo era encantadoramente sutil, fugaz, torpe, agoniante e sordidamente cantante ao seu lado.

Mas, se tudo isso era tão ascendente, tão gananciosamente amor, porque é que você bateu a porta? Bom, no fim não importa, é de sua presença doce que bordo seus vazios nessa casa. É das flores doces que me recordo. A porta que bate não me despetala. Talvez isso seja só besteira, um quase nada. Um tracejo menor que nada. Mas é assim que quero terminar minhas lembranças: com os melhores odores dos nossos bem-me-quer.

O amor que foi morrendo como uma flor seca. Por falta de água. Por falta de afeto. 

Menina, eu que era tão você, hoje já não sei mais por quais caminhos tem andado. Por deus, não sei mais nada. Viramos dois estranhos nessa sala grande demais para nossos mirrados afetos, nossos corpos aflitos da falta de bem querer. O espaço não nos dá ar, nos sufoca, nos encurrala para esse fim. Já acabou faz tempo. Acabou quando deixamos de falar bobagens, quando as banalidades já não viravam risos frouxos. Acabou quando eu sai pra comprar cigarros e pensei em não voltar. Mas voltei, seja pelos motivos que forem, eu voltei. Mas o amor morreu ali. No diálogo insustentável. Na rotina que já não se acompanha. Morreu quando você achou que não precisava me responder, quando achei que não precisava ligar, quando descobrimos que a intimidade roubou nossa parcimônia. O carinho está aqui, a saudades do afeto, dos dias bons, a vontade de rememorar o que um dia fomos está aqui. Mas já não somos, pequena. 

Morremos no silêncio, na distância, no corromper da fala. Matamos o amor 20 vezes e ainda continuamos respirando. Mas sem afeto o que somos? Matamos o amor quando me deixei ferir, quando a mágoa sobressaiu as mãos dadas. Matamos o amor quando a preguiça foi maior do que a saudade, quando a solidão não passou com a companhia alheia. Matamos o amor e insistimos em voltar pra casa depois dos cigarros comprados. 

Morremos com ele, mas fingimos o luto porque estamos apegados às lembranças. O que um dia você me fora, o que um dia eu fora, e que juramos nunca deixar de ser. Matamos o amor tragando sentimentos remoídos, sustentando sentimentos feridos. Sobrevivemos no luto de um afeto que não queima mais.