às portas fechadas

Hoje te começo pelo fim. Anda que meio sem nexo, você entenderá que assim será melhor. 

Ah,minha pequena, entre tantas insistências e vontades de manter o que julguei ser certo, eu desisti. Fui te construindo como um afeto sem métrica, sem régua. Exaltei meus encantos por ti, ao tempo que escondi de mim mesma seus pecados. Mas isso é o que a gente faz quando decide se afogar no carinho de outro alguém. 

Guardei, por deus, guardei em meus bolsos tantas das minhas dores e mágoas só para ter mãos para segurar as suas. Fui carregando-as e me esquecendo, fui adotando seus medos e dores, tudo por medo de faltar em seus dias e você perceber que poderia continuar sem mim. E me deu um medo danado de chegar o momento que você caminharia mesmo sem meu ritmo, sem meus laços, minhas mãos. E por deus, como tive dores de te imaginar distante. 

Decidi que eu poderia ser qualquer coisa, desde que fosse contigo. E não pense que tudo me é dor latente. Não, minha pequena. Você me mostrou que eu poderia mesmo ser qualquer coisa, ser mais, ser melhor, ainda que não saiba ao certo como ser. 

E agora me pego presa na solidão dos dias. Solidão pois me deixei passar os limites, e já não soube mais o que fazer de mim, de nós. Por fim, fiz o que acabo incrédula fazendo, que é abandonar a casa por não saber entrar no lar e não ter a capacidade de me deixar na rua. Você era a casa. Você é a casa, o lar, a porta, e todo o riso meu que resta lá dentro. Riso esse que eu não soube mais esboçar. E eu abandonei por me achar ausente, e ferida por sua caminhada sem mim, e por não saber berrar que te preciso em casa, escorada em minhas entranhas, debruçada em minhas dores, amores e saudades. Te abandonei por não saber lidar com esse impasse de ausências e transbordares. Por não saber no que você me transformou. 

É claro que você não foi meu único motivo de fugir, mas está entre os que determinaram a rota de fuga. Agora me vejo sozinha, mergulhada numa saudade e num não suportar mais suas ausências que me sangram. Ainda assim, te começo pelo fim. Que esse seja o que acaba. Agora, pequena, te trago seus risos, meus risos, meus laços e toques e dedos e. Te entrego minhas flores, meus amores, minha memória. Me entrego. Corpo, alma e essência. Que restem meus bolsos vazios, minhas mãos com o tato das suas. Que restem apenas o ritmo da nossa caminhada. Mas, ainda, se puder, se não for pedir demais, me convida pra uma visita, me puxa pra dentro, me abre a porta. Se puder, vem me ver, me regar as plantas, me trocar os discos. Se puder, não seixa que o fim seja mesmo o ponto final. 

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