Ser o abismo pra poder ser qualquer outra coisa que não eu mesma

Tem um filme sobre nós rodando nesse momento em algum lugar do mundo. Ou em vários. Nenhum sofrimento, amor, angústia, ato insano é completamente original. Ah, minha pequena, a gente acorda e dorme e morre, e nesse tempo os dias se passam numa insistente repetição. Porque agora eu tô sentada no pé da cama, com os pulsos e ombros pesados de um sofrer que não sei largar. Meus olhos ardem e em meus bolsos se misturam as dores e angústias. Num filme qualquer que vi noite passada, ouvi coisas que eu poderia ter dito. Vi cenas que, por deus, quase acreditei que eram sobre mim. Entre nossos armários e  portas obscuras moram nossos monstros. E eu que ando arrastando os meus por aí. Sim, menina, passeio de mãos dadas com eles. Não consigo mais me afastar o bastante para que eles me percam de vista. E mesmo que todos nós mantenhamos nossos monstros vivos, alimentados e entrelaçados em nós, geralmente eles ficam por baixo das camas, dentro de armários, embaixo de travesseiros. Eles costumam se manifestar nas solidões, nos quartos escuros, nos dias chorosos. Os meus não mais. Ontem mesmo arrastei um dos meus pela casa toda, e pela rua, pelo bairro, peguei um táxi e ele estava junto. Agarrado em meus pulsos e pesando em meus ombros, como uma cobra longa, me envolvendo o corpo todo. Agora ele está aqui, entre dedos meus, entre as pernas. Me apertando o peito. Abrindo portas do guarda roupa. Fazendo com que alguns outros venham me bordar a pele. Fui alimentando meus pequenos desafetos, meus monstros internos. Fui dando medo para que eles crescessem fortes e ubíquos. Permiti, de algum modo, que ficassem maiores do que eu. Mais rápidos do que eu. E agora não sei se posso correr ou vencê-los. Não sei pra onde ir ou como ir. Já que meus monstros me dão os caminhos e eu, tola, sigo-os. Sigo os caminhos e os monstros. Deixei que saíssem de meus armários, caíssem de meus bolsos. Deixei que se bordassem em mim. Na pele, nas entranhas, no cerne. Quase dou-lhes afeto, pois os sinto como parte de mim. Um quase não-me-ser sem o abismo que me habita. Quase um ser o abismo pra poder ser qualquer outra coisa que não eu mesma.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s