Solitude

Você está entre um email e um cliente no telefone, entre o cafezinho e um cigarro lá fora, você está sorrateiramente checando as redes sociais, então ela te atinge. Como um sopro de susto. Sem aviso prévio, sem pedir licença, e pouco importa quantas pessoas te rodeiam ou se você está, de fato, sozinho. A solidão te apunhala e não há companhia no mundo que a faça passar. Tantos corpos e rostos te cercam, familiares ou não, mas não basta, não é?

E entre aquele café e o telefone tocando, nenhum sorriso cordial fara esse súbito vazio interno passar. Mas a gente ainda distribui frases simpáticas, risos singelos, a gente divide as horas entre tantas outras solidões. 

Ah, menina. Hoje eu estava lá, entre meus afazeres e reticências, estre canetas jogadas e o cursor na tela do word que piscava sem escrever mais nada. E me deu um vazio. Um aperto no peito. Parecia que antes meus dias me eram tão doces – mas sei que a memória me ilude. Sei que sofro dessas insatisfações crônicas, e que o passado me parece tão mais gentil. Mas olha, essa tarde me pesou um pouco os ombros. Como é que você costumava dizer mesmo? Ah sim, “me deu comichões eufóricos, seguidos de saudosismo sôfrego”. Ah, essa sua mania de brincar com palavras e misturar sentimentos. Esse seu talento de tornar o trivial poético, ainda que banalizando essas dores intragáveis. 

Mas é verdade, fui juntando numa amarga lista mental meus pequenos prazeres. Vai soar piegas, eu sei. Logo eu que detesto demonstrar meus afetos, mas eram das pequenas reticências nossas que os dias soavam mais acompanhados. Ah, pequena, você me faz poesia. Rima. Você tamborila seus timbres em mim. Você me tatua a pele, a alma. 

Mas, olha só, vou me perdendo entre frases e confissões,vou me deixando escapar nas minhas falas. Quase que perco o foco. Solidão. Lembra? Era isso que eu ia lhe contando. Fui me sentindo presa nessa angústia de ver-me sozinha, ainda que rodeada por um sem fim de gente. Mas ainda falta algo. Alguém. Talvez essa solidão em meio à multidão seja a própria falta. 

Porque o telefone ainda toca, as canetas caem ao chão, na rua a música e o carro e a gente toda falando, e nenhum som será capaz de te fazer ouvir. A gente emudece tanto quando se vê solitário. Ah, pequena, se pudesse correr entre braços e dedos seus… Olha que besteira, nem deveria te dizer de tão trivial que me soa, mas me parece que você saberia escrever em linhas poéticas, escrevi seu nome em minha mão. Me deu um conforto tão grande, uma paz danada. Depois disso, depois da euforia, veio a solidão. Teu nome em minha pele, mas não havia nada entre meus dedos. Sem cabelos seus, sem sua pele rente a minha, sem você pra me dizer que, ok, todo mundo se sente solitário às vezes. Lembra-se que costumávamos compartilhar as nossas? 

Desculpa se te tomei tempo demais, é que me senti vazia de íntimo. Você costumava me tracejar com olhos doces, soslaios, num modo tênue de me fazer entender que eu não estava só. Acho que senti a ausência do seu vazio com o meu. 

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às portas fechadas

Hoje te começo pelo fim. Anda que meio sem nexo, você entenderá que assim será melhor. 

Ah,minha pequena, entre tantas insistências e vontades de manter o que julguei ser certo, eu desisti. Fui te construindo como um afeto sem métrica, sem régua. Exaltei meus encantos por ti, ao tempo que escondi de mim mesma seus pecados. Mas isso é o que a gente faz quando decide se afogar no carinho de outro alguém. 

Guardei, por deus, guardei em meus bolsos tantas das minhas dores e mágoas só para ter mãos para segurar as suas. Fui carregando-as e me esquecendo, fui adotando seus medos e dores, tudo por medo de faltar em seus dias e você perceber que poderia continuar sem mim. E me deu um medo danado de chegar o momento que você caminharia mesmo sem meu ritmo, sem meus laços, minhas mãos. E por deus, como tive dores de te imaginar distante. 

Decidi que eu poderia ser qualquer coisa, desde que fosse contigo. E não pense que tudo me é dor latente. Não, minha pequena. Você me mostrou que eu poderia mesmo ser qualquer coisa, ser mais, ser melhor, ainda que não saiba ao certo como ser. 

E agora me pego presa na solidão dos dias. Solidão pois me deixei passar os limites, e já não soube mais o que fazer de mim, de nós. Por fim, fiz o que acabo incrédula fazendo, que é abandonar a casa por não saber entrar no lar e não ter a capacidade de me deixar na rua. Você era a casa. Você é a casa, o lar, a porta, e todo o riso meu que resta lá dentro. Riso esse que eu não soube mais esboçar. E eu abandonei por me achar ausente, e ferida por sua caminhada sem mim, e por não saber berrar que te preciso em casa, escorada em minhas entranhas, debruçada em minhas dores, amores e saudades. Te abandonei por não saber lidar com esse impasse de ausências e transbordares. Por não saber no que você me transformou. 

É claro que você não foi meu único motivo de fugir, mas está entre os que determinaram a rota de fuga. Agora me vejo sozinha, mergulhada numa saudade e num não suportar mais suas ausências que me sangram. Ainda assim, te começo pelo fim. Que esse seja o que acaba. Agora, pequena, te trago seus risos, meus risos, meus laços e toques e dedos e. Te entrego minhas flores, meus amores, minha memória. Me entrego. Corpo, alma e essência. Que restem meus bolsos vazios, minhas mãos com o tato das suas. Que restem apenas o ritmo da nossa caminhada. Mas, ainda, se puder, se não for pedir demais, me convida pra uma visita, me puxa pra dentro, me abre a porta. Se puder, vem me ver, me regar as plantas, me trocar os discos. Se puder, não seixa que o fim seja mesmo o ponto final.