Meu telefone mudo repousa na mesa ao lado. Meu corpo sucumbe ao peso da ausência. Meu peito é um caos que me corrói a calma. A alma toda.

Os dias passam e a ferida começa a fechar. Até ser você do outro lado da linha. E mesmo na minha relutância em telefonemas, eu atendo. Sabendo que sua voz rouca me rasga todos os pontos da quase cicatriz. Eu atendo.

Agora me afundo no sofá marrom que já foi bem mais vivo, dum tom mais limpo. Agora me parece um desbotado sujo e solitário. Feito eu. Não sei te dizer adeus. E não sei conviver com essas lacunas de suas chegadas e partidas e ensejos. Te peço, por deus, decide se fica de uma vez.

O telefone que hoje não toca me diz que o fim é um caminho estreito que eu preciso percorrer. Mas quando toca – e esse telefone há de tocar de novo. Uma centena de vezes ainda -, eu percebo que você me consome. Esqueço dos abismos, do medo, da solidão. Esqueço de mim. O seu amor me devora a memória, a lucidez, a aflição. Em carne, corpo e cerne. Me devora.

E se tocasse, meu deus, se esse telefone tocasse agora, antes mesmo da sua voz rouca me roubar as falas, eu pediria pra você decidir se fica ou se não volta mais. Já não há contraste no meu sofá. Meu peito se hibridou ao marrom morto que ocupa minha sala, mas não meus olhos. Decide se fica porque não me cabe mais o medo de não te ouvir ligar.

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