Meu retrato

Uma flor que se contém numa fresta de sol. Ah, menina, essa janela em que você se debruça sustenta tantas flores e raios de sol e perfumes. Doces. Doces. A flor que, por deus, um dia vai se despetalar agora é de um vivo tão mais agradável, austero, um vivo tão mais vibrante que encanta a casa. E eu que me permito o repouso em solidão, me aflijo ao te observar. Me aflijo ao fazer de ti uma moradia que me amedronta. E por ver em ti um caminho estreito que quero mais não sei se posso percorrer.

Queria uma foto dessa flor. E sua. E da janela. Porque caberiam as 3 na mesma foto de um modo que as 3 não me cabem, pois você anda me transbordando. Queria a foto pois não ando sabendo lidar com a sua presença na casa, sua figura na janela, seu perfume na sala. Queria a foto porque não tô mais sabendo lidar com as janelas ou flores quando você não está. E tem me feito despetalar-me quando me fraquejo em ausências.

Mas eu te diria, menina, que se houver paciência no seu regar da flor, no seu escorar na janela, se puder e quiser ter paciência, eu rejeito a foto e te recebo. Te enceno. Te ensejo no meu retrato.

Eu decoro a janela. Eu rego a flor. Eu me sento nesse sofá dia após dia pra vislumbrar meu afeto. Mas tem que me prometer paciência. Tem que me prometer flores e ventos e uma janela aberta. Tem que me roubar a foto, mas, em troca, me dar a segurança da memória doce. Doce.

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