Risos, timbres e tons

Como é que se começa uma despedida? Ou quando é que se começa? Porque nós, menina, já começamos errado. Eu comecei, você não. Comecei invertendo quem sou só pra poder ser exatamente quem você queria que eu fosse. Mostrei meu lado bom. E depois? Fui me permitindo o que me jurei não mais ser. Nunca mais.

Menti minha aflição, meu riso, timbre e tom. Por deus, menina. Menti minhas falas todas só pra falar o que você queria ouvir. Mesmo que seus olhos me desgastem a conquista do afeto, mesmo que sua sinceridade me roube a paz por não me ser o que procuro, ou quem procuro. Ou quem preciso procurar. Ainda assim, me inverto em frágeis omissões do meu eu, e me moldando ao timbre teu, vou errando.

E, ainda assim, eu me cativo entre dedos e toques seus. Ainda assim eu me agarro a esse precisar perder-me entre mentiras. Porque existe uma metade de mim que morre entre afetos e paixões. E existe a outra metade que não sobrevive neles. Por deus, pequena, te almejo apenas, e tão apenas, porque eu sei que não há mais caminho. Nunca houve. Nunca existiu a chance real de darmos certo, pelas mentiras, pelo meu eu todo dilacerado nos seus silêncios. Mas nunca te cobrei respostas. Sequer te fiz perguntas. Perguntar é uma forma sutil de se entregar, e um modo devastador de invadir espaços, intimidades.

Nunca fomos íntimas, menina. Me resguardei em risos contidos, em mentiras forçadas, em abraços frios. Porque você veio e eu queria – deus, como eu queria – que desse certo. E  haveria paz, rima, domingo solitário. Haveria saudade, harmonia, sofridão. Haveria, pequena. Mas te peço perdão, ainda que tenha enganado mais a mim do que a ti. Eu insisti pois me assegurei em não te ter – e apenas isso me faria ficar. Jamais te ter. Ao tempo que te querer de corpo, alma e vísceras, te querer num conforto da sua presença, acabaria com qualquer caminho junto ao teu.

Não sou capaz de aceitar o conforto, a segurança, o caos de alguém. Por isso meus afetos morrem. Meu amor morre. Minha lucidez morre. Mentira. Meu afeto não morre. Ele vira poesia, sofridão. Vira noites em claro e olhos chorosos. Só não vira cabeças recostadas, mãos enlaçadas, não vira o aceitar inócuo dos que amam. O meu afeto se alimenta da solidão.

Então, por fim, descubro que uma despedida nunca é na partida. Ela começa sempre alguns parágrafos antes. Onde ninguém sentiu ainda o sorrateiro adentrar do abandono.

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